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No meu Palato

No meu Palato

Quevedo | Favos de Mel e outras memórias

"Acende a luz e passa-me a garrafa, quando a manhã chegar já teremos perdido a vergonha... Nós só temos uma vida, então eu vou beber vinho e fingir que a única coisa que está a acabar é o tempo." James Arthur

QuevedoAs abelhas são bichos fascinantes por diversas razões. A principal, todos conhecemos: a da polinização. O papel das abelhas neste processo é crucial, já que cerca de 2% das abelhas selvagens do planeta são responsáveis pela polinização de 80% das culturas mundiais. Sem abelhas não haveriam frutos silvestres, tomates, abacates, favas, mangas, amêndoas, bananas e uvas. E sem uvas, meus amigos, não há vinho. Da próxima vez que decidirem matar um abelha, pensem pelo menos nesta última parte ;)

QuevedoHá outras razões menos conhecidas que tornam as abelhas famosas, a sua ética no trabalho, o xarope adocicado que produzem e a sua complexa estrutura social. Mas há ainda uma razão menos conhecida, elas são na verdade excelentes .... matemáticas. Os estudos mais recentes indicam que estes pequenos insectos são capazes de medir ângulos e interpretar a curvatura terrestre.  No entanto, a genialidade matemática das abelhas é levada ao extremo através de algo bem mais doce: os favos de mel. Esses favos que constituem a colmeia são o resultado de décadas e décadas de investigação cientifica destes pequenos seres.

QuevedoA colmeia serve-lhes de casa, protecção e armazém de alimentos. Mas porque é que elas terão escolhido esse padrão perfeitamente hexagonal para a construção dos favos? A resposta é tão simples, quanto genial. O arranjo hexagonal é aquele que lhes permite gastar menos cera na construção dessas pequenas suites individuais que são as estruturas hexágonoais dos favos ( é preciso 1 kg de mel para produzir apenas 100g de cera) e também aquele que lhes permite guardar mais quantidade de mel em menos espaço.

QuevedoSe olharmos com atenção para um desses favos de mel veremos estruturas muito compactas, sem desperdício de espaço e esteticamente muito agradáveis, que qualquer arquitecto teria orgulho em ter concebido. Para além deste gosto pela matemática, as abelhas têm muitas outras coisas em comum com os seres humanos, nomeadamente as similaridades de ambos os cérebros, o comportamento altruísta de alguns a favor da comunidade, a inteligência colectiva, algumas aptidões sociais, a capacidade que têm em associar alguns odores com determinada comida e (por esta não vão estar à espera).... os benefícios para a saúde que retiramos do vinho.

QuevedoPois é meus amigos, se um dia uma abelha vos roubar um pouco do vosso vinho, já sabem que ela está apenas a pensar na saúde dela, e em jeito de agradecimento da polinização, deveríamos deixar  que ela o desfrutasse com calma e até com um pouco de queijo (agora já estou a exagerar ;)).  Tudo isto, para retirar uma conclusão que introduzirá o tema principal desta publicação, mel, comida e vinho, têm tudo a ver ;) 

QuevedoPor isso escolhi os Favos de Mel para introduzir os vinhos Quevedo que harmonizaram um jantar com os meus cunhados Joel e ... Mel (este "gajo" não brinca ;)). Conheci os vinhos Quevedo aquando de uma vista ao Toca da Raposa no ano passado (a foto das princesas de abaixo é dessa altura) , e logo me apaixonei por eles. São o resultado de mais de 100 anos de tradição na viticultura. 

QuevedoOscar Quevedo e sua esposa Beatriz (gosto do nome ;)), os donos,  radicaram-se na região do Douro no fim dos anos 1970 e começaram a produção de uvas. Em 1990, deram início à construção da quinta, que hoje abriga a sede da Quevedo. São 100 hectares cultivados no Cima-Corgo e Douro Superior.  Desde 1999, Claudia, a filha do casal, é a enóloga da empresa. 

QuevedoÓscar, (nascido em 1983 como eu, um "tipo" porreiro, portanto), seu irmão, cuida do marketing e das exportações. Na equipa há ainda a Teresa que produz os vinhos DOC e outra Mel, bioquímica de formação e que tem a seu cargo as visitas e contacto com os media. Uma equipa pequena, mas muito bem organizada, funcional e que não tolera desperdícios, estilo colmeia ;) 

QuevedoO primeiro vinho que vos vou falar, o Claudia's Reserva Branco 2019 (15€, 90 pts.) acompanhou as entradas (Guiozas e Tosta de confitado de caça, abacate e ovo de codorniz) e a Dourada com crosta de mostarda e amêndoas, maionese de abacate e legumes salteados.  De cor amarelo-citrino com reflexos dourados, este vinho exibe aromas de melão, pêssego, acácia-lima, anis, notas minerais (xisto molhado) e notas de madeira muito bem integrada. No palato tem uma acidez fantástica, bom volume e muita mineralidade e elegância. Gostei muito.

QuevedoPara o Bife Wellington (digam lá se o ponto da carne não está um espectáculo) escolhi o densamente rubi Claudia's Reserva Tinto 2017 (15€, 91 pts.). No nariz é muito complexo com fruta preta (ameixa e amora), bagas silvestres, esteva, pimenta preta e cedro. 

QuevedoNo palato cresce muito com a excelente acidez, taninos aguerridos, enorme estrutura e, mais uma vez, incrível elegância. E era, então chegada a hora das sobremesas e ... dos Porto.

QuevedoPara acompanhar a Floresta Negra (do Joel e da Mel, obrigadão cunhaditos ;)) nada melhor que o Quevedo Porto Crusted (engarrafado em 2016) (30€, 92 pts.). De cor avermelhada-grená muito densa carregava cerejas, morangos, mirtilos, pimenta preta e esteva. 

QuevedoNa boca é super elegante, macio, delicado, fresco e com um final deliciosamente interminável. Provavelmente o melhor Crusted que provei até hoje. O bolo poderia estar melhor, mas não se pode ter tudo ;) Estou na brincadeira, a Mel nas sobremesas é como um relógio suíço (neste caso francês), estava impecável. 

Quevedo

O último vinho da noite (quente e longa) foi o Quevedo Porto Branco 30 anos (80€, 94 pts.). Tem uma cor lindíssima, âmbar dourada com pequenas pinceladas verdes. Emana notas sedutoras a compota de laranja, casca de laranja confitada, figos, nozes e ... favos de mel. A complexidade da boca é tão grande como a do nariz, mostrando-se seca, rica, intensa, untuosa e equilibrada. 

Quevedo

É um vinho que ninguém consegue ficar indiferente, impressionante mesmo. Transportou-me para Ervedosa do Douro e para as sobremesas da Maria da Graça, boas memórias... Os vinhos Quevedo são feitos na vinha, puros, com terroir vincado e, também, portadores de valores. Porque a esse nível, se as abelhas até matemática aprendem connosco, também nós poderíamos aprender qualquer coisita com elas: amizade, resiliência, dedicação, união, expectativa, aprendizagem, superação, esforço e paixão. Voando pelos campos das relações humanas deveríamos ser capazes de reunir esse "pólen comportamental", em cada um de nós para a criação de laços, realizações e memórias.

Quevedo Quase como se fossemos capazes de moldar dentro de nós um favo de mel, armazenando nele esse memórias, que por sua vez criarão a colmeia que constitui a nossa alma e o nosso carácter. Se assim fosse, os vários laços que vão sendo armazenados nos nossos depósitos de memória, tal e qual como acontece com as diferentes células que constituem a cera de abelha, seriam incapazes de serem destruídos, resistindo a tudo, até à chuva austera de desapontamentos e tempos incertos como os de hoje.

QuevedoÉ por isto que tenho a certeza a Quevedo saíra disto ainda mais forte, a colmeia deles está bem assente nos valores que preconizam. Está prometida uma visita (já adiada algumas vezes, desculpem) para quando o raio do Covid desaparecer (se este calor não o mata, só mesmo a vacina ;)). 

Obrigado Joel (o favo que guarda a Mel ;)) pela ajuda com os pratos, estes não eram fáceis e estiveste à altura. "Quando casarem dou-vos uma prenda" ;)

Dourada com crosta de mostarda e amêndoas, maionese de abacate e legumes salteados

-Para fazer a crosta, juntem mostarda (5 colheres de sopa), uma colher de sopa de de manteiga, um fio de azeite, amêndoas a gosto e pão ralado (5 colheres de sopa). Triturem tudo e levem ao forno a 220ºC até criar a crosta (10 minutos);

-Para a maionese coloquem num liquidificador a polpa de 3 abacates, suco de 2 limões,  1 colher (sopa) de mostarda, 1 dente de alho, um pouco de salsa, um fio de azeite, um pouco de sal e um pouco de brandy. Liquidifiquem e levem ao frigorífico durante pelo menos 3 horas; 

-Grelhem os lombos de dourada em azeite, sal, alho picado e amêndoas trituradas.

Bife Wellington

Receita de Gordon Ramsay (quando a  receita é boa não há que inventar ;))

Floresta Negra

 

Churchill’s | O vinho para além das sombras na caverna

“Não são os nossos olhos que vêem, mas sim o que nós conseguimos ver através dos nossos olhos.” Platão

Churchill’s Se vocês relacionaram o amor, as sombras e a caverna do título desta publicação com As Cinquenta Sombras de Gray, é bom que percebam que precisam de tratamento urgente, há coisas que nem o calor explica ;)

Churchill’s Para os menos "mente-poluída" é óbvio que o título tem a ver com um dos textos mais conhecidos de Platão. A alegoria ou mito da caverna fala-nos sobre prisioneiros (privados da liberdade desde o nascimento) que vivem acorrentados numa caverna e que passam o tempo a olhar para a parede do fundo da caverna e que é iluminada pela luz de uma fogueira. Nesta parede são projectadas sombras de estátuas representando pessoas, animais, plantas e outros objectos, mostrando cenas e situações do quotidiano. 

Churchill’s Os prisioneiros entretêm-se a dar nomes às imagens (sombras), analisando e julgando sobranceiramente as situações. Vamos agora imaginar que um dos prisioneiros é libertado para poder explorar todo o novo mundo que se encontra lá fora. Por certo, entraria em contacto com uma  nova e inesperada realidade e perceberia que tinha passado toda a sua vida analisando e julgando o mundo através de imagens projectadas por estátuas. 

Churchill’s Esta nova admirável realidade, com certeza, deixaria-o encantado com os seres reais, com a natureza, com os animais e com os humanos livres. Voltaria, contente e carregado de informação, para a caverna, ambicionando partilhar todo o conhecimento adquirido fora da caverna com os seus amigos presos.

Churchill’s Porém, iria ser ridicularizado ao contar tudo o que viu e sentiu, pois seus amigos só conseguiam acreditar na realidade que viam na parede iluminada da caverna. Os prisioneiros iriam-no chamar de maluco, ameaçando-o de morte, caso não parasse de contar aquelas histórias absurdas. 

Churchill’s Apesar de ter sido escrita por volta de 540 aC, a alegoria da caverna é bastante actual, porque a vida real é mesmo assim. Haverá sempre os que duvidam, os que questionam, e os que só conseguem acreditar cegamente na realidade reflectida na parede iluminada da caverna.  No mito, os prisioneiros são uma parte de nós que se deixa acorrentar pelo imediatismo e superficialidade das projecções ou sombras que nos rodeiam, nos conceitos e nas informações que recebemos ligeiramente.

Churchill’s A caverna representa, assim, a nossa saída do mundo real e o nosso aprisionamento por essas sombras mediáticas. As correntes dos prisioneiros simbolizam a ignorância que escolhemos manter, acreditando cegamente em toda a informação que nos chega. Finalmente, as sombras metamaforizam as ilusões de "perfeição" por fazermos as coisas que a maioria define como tendência.

Churchill’s Não procuramos a essência das coisas, dos valores, mas com a futilidade/facilidade do mundo das aparências, tal e qual como os prisioneiros. Platão, com esta alegoria da Caverna, pretendeu discutir as diversas formas que o ser humano tem à sua disposição para apreender o conhecimento, as realidade novas e o esforço, muitas vezes necessário, para “lutar” pela verdade e para fazer as coisas "à nossa maneira".

Churchill’s Foi para fazer as coisas "à maneira dele", não ligando às sombras da caverna que John Graham fundou a Churchill's em 1981, tornando-a a primeira empresa de vinho do Porto a ser estabelecida em 50 anos.  John Graham queria continuar a longa tradição/sombra nos vinhos do Porto da sua família, mas ao mesmo tempo criar seu próprio estilo de vinhos.

Churchill’s Ao contrário do que possam pensar, Churchill’s não é uma homenagem ao primeiro-ministro britânico viciado em Champanhe, mas sim um tributo à história de amor que vive com a sua esposa, Caroline Churchill.  A compra da Quinta da Gricha em 1999 foi um passo não só importante como também fundamental para levar a Churchill’s à produção de vinhos do Douro e torná-los um caso de particular sucesso. É sobre os vinhos que lá se produzem que vos vou falar hoje.

Churchill’s O jantar iniciou com a presença do amarelo-citrino pálido Churchill's Estates Douro Branco 2019 (13€, 88 pts.). É muito mineral (grafite) no nariz com casca de limão, acácia-lima, flor de laranjeira e leves notas alperce caramelizado. No palato exibe-se com muita frescura, elegância e equilíbrio.  

Churchill’s

Acompanhou muito bem a entrada Alperce confitado com iogurte grego, espinafres e perdiz desfiada mas foi perfeito a equilibrar a frescura salina e tropicalidade do Polvo com mostarda de manga, gelado de beterraba e crumble de maçã com amêndoa.

Churchill’s Para harmonizar a Coxa de pato, arroz negro e batata gratinada, nada melhor que o enorme Churchills Estates Grande Reserva Tinto 2013 (40€, 93 pts.) De cor rubi-violeta densa e concentrada, o seu nariz é alimentado por cedro, resina, manjericão, esteva, frutos silvestres e amoras maduras.  

Churchill’s Na boca para além de uma excelente mineralidade (xisto partido) e enorme frescura, carrega uns taninos sólidos, poderosos e a arredondar. Apaixonei-me por esta combinação entre músculo e delicadeza. Para acompanhar o Pudim de frutos de Verão feito pelos meus amorosos cunhados vínicos Luís e Sylvie (gostam da nossa garrafeira? Eheh, brincadeira ;)), o Churchills 20 years Tawny Port (45€, 94 pts.).

Churchill’s Veste uma cor tawny avermelhada com ligeiras nuances douradas. O nariz é muito elegante com amêndoas, cerejas vermelhas, lavanda e um ligeiro melaço. No palato é exuberante, saboroso e complexo, numa combinação perfeita entre fruta e madeira.

Churchill’s Para a conversa com um queijo Saint Albray e para terminar a longa jantarada (acabou às 3 da manhã já com os pequenotes a dormir), surgiu o Churchill's LBV 2015 (25€, 87 pts.). Com uma cor rubi com bordas violetas, tem aromas complexos, combinando minuciosamente notas de esteva e resina com notas de menta, pimenta branca e fruta (amoras e ameixa preta). 

Churchill’s No palato, mostra todo o seu esplendor ao revelar notas adicionais de romã e chocolate preto, suportados por taninos firmes e acidez acutilante. Muito "fixe". 

Churchill’s Todos estes vinhos tinham no ADN a frescura duriense, uma mineralidade quente e o respeito pelas características das uvas, resultantes da simbiose entre a arte dos enólogos com as características especiais do terroir da Quinta da Gricha. E claro, contam também com uma pitada de amor dos proprietários. Gricha significa rocha, fraga ou caverna, donde sai água. Desta caverna onde inicialmente existiam sombras ... sai vinho, e do bom ;)

 

Polvo com mostarda de manga, gelado de beterraba e crumble de maçã com amêndoa:

-Para a mostarda de manga ponham num recipiente (para mais tarde liquidificarem) o vinagre (uma chávena de café), azeite (três chávenas de café), sal, pimenta, noz moscada, uma colher de sopa de mostarda, um pouco de pimento vermelho a gosto, algumas alcaparras, uma manga e sumo de 3 limões. Liquidifiquem até ficar tudo homogéneo. No final coloquem um pouco de brandy. Se estiver demasiado espesso acrescentem mais sumo de limão/laranja;

-Para o gelado cozam as beterrabas já descascadas em água e sal (reservem uma para levarem ao forno). Triturem-nas e juntem um pouco de ginja, açúcar mascavado, natas magras, sal e sumo de um limão e cozinhem por 2 minutos. Levem ao congelador para usarem mais tarde (necessita de pelo menos 4 horas antes de ser servido);

-Cozam o polvo apenas com sal até ficar al dente;

-Descasquem as maçãs e cortem-as em quartos, retirando o caroço. Coloquem-nas num tacho, juntamente com o açúcar, a canela, a raspa de limão e o vinho do Porto. Levem a lume brando, mexendo de vez em quando, e deixem cozinhar até às maçãs se desfazerem. Juntem farinha, açúcar, manteiga e amêndoa palitada. Com as mãos esfarelem a manteiga com a farinha e os restantes ingredientes. Aumentem a intensidade do lume e deixem tostar. 

Coxa de pato, arroz negro e batata gratinada:

-Na véspera ponham a marinar as coxas com sal, pimenta, noz moscada, loureiro, alho, whiskey, vinho do Porto Ruby e azeite;

-No dia seguinte, após alourarem o pato em azeite e alho, levem-no a assar na marinada, acrescentando 500ml de caldo de galinha, um pau de canela e uma estrela de anis. Assem durante duas horas a 180ºC, virando as coxas a cada meia hora.

Pudim de frutos de Verão (by cunhaditos e um tal de Gordon Ramsay):

-Coloquem o leite gordo (600 mL), uma vagem de baunilha aberta ao meio e com as semente extraídas  e uma colher de sopa de açúcar num tacho e deixem levantar fervura. Entretanto, batam 6 gemas de ovo, 40g de farinha de milho e 50g de açúcar numa tigela. Adicionem aos poucos o leite quente, mexendo vigorosamente   para impedir que os ovos solidifiquem. Cozinhem em lume brando, mexendo constantemente até o molho ganhar espessura (imediatamente antes de levantar fervura). Transfiram para uma tigela e deixem arrefecer, mexendo ocasionalmente para evitar que se forme uma película à superfície;

-Quando o creme tiver arrefecido, batam 150 mL de natas em chantilly e incorporem-nas no creme, para o suavizar. Levem-no ao frigorífico (de um dia para o outro);

-Para montar a sobremesa, escolham 8 copos transparentes, preencham 1/3 de cada um com o creme. Cortem 4 morangos bonitos em quartos e reservem, juntamente com 8 pezinhos de groselha. Coloquem o resto numa tigela grande com 1 colher de sopa de creme de cassis  e um pouco de açúcar em pó. Esmaguem os frutos (150g de framboesas, 150g de morangos  150g de groselhas) com um esmagador de batatas até obterem uma textura parecida com uma compota. Deitem uma camada desta mistura em cada copo e cubram com o resto do creme. Se tiver sobrado, deitem um pouco do sumo dos frutos esmagados por cima do creme e guarneçam com os morangos e groselha reservados.  

 

 

Quinta do Arrobe | Quem sai aos seus

"Quando as raízes são profundas, não há razão para temer o vento." Provérbio Chinês

Quinta do ArrobePara quem, como eu, teve a enorme sorte de nascer no inicio dos anos 80 do século passado, o título desta publicação pode reavivar algumas memórias.  Se o título não chegar para vos tele-transportar para a vossa infância, a música de Jeff Barry e Thomas Wright Scott, Without Us vai encarregar-se disso. ;) 

Quinta do ArrobeServiu de banda sonora da série Quem sai aos seus (Family ties), uma das minhas favoritas (verdade seja dita, não haviam muitas mais ;)). Retrata a vida de um casal de dois ex-hippies/activistas de esquerda dos anos 60, Steven (Michael Gross) e Elyse Keaton (Meredith Baxter-Birney) e os seus esforços para criar uma família heterogénea nos anos 80.

Quinta do ArrobeA paternidade por si só já traz armadilhas suficientes, mas este casal deparou-se com vários desafios adicionais, nomeadamente a mistura de diversas filosofias entre gerações, o carácter peculiar do ultra-conservador Alex (Michael J. Fox), o feitio da rainha da popularidade Mallory (Justine Bateman) e o espírito livre de Jennifer (Tina Yothers).

Quinta do ArrobeEsta foi a série que catapultou Michael J. Fox para o estrelato antes da doença de Parkinson (ganhou 2 Emmys) e ela própria foi uma das mais bem sucedidas dessa altura, sendo a favorita do presidente Ronald Reagan. Nela, as diferenças geracionais entre pais e filhos assumiam um papel apaixonante, cómico e até mesmo educativo, pois o enredo espelhava as mudanças sociais nos anos 80, despertando-nos para a adaptação constante ao mundo envolvente e, sobretudo, ao crescimento e à mudança de cada um no seio da família, através dos tempos: uma espécie de legado em forma de raízes de valores.

Quinta do ArrobeE esse "legado familiar" tem tudo a ver com os vinhos que vos vou falar hoje. Vinhos fruto de um saber que atravessa um sonho antigo, iniciado pelo bisavô dos  irmãos Alexandre e Maria Gaspar (actuais proprietários), que plantou as primeiras vinhas em 1882 e que têm como objectivo principal levar-nos a viajar pelos sentidos, numa experiência mágica e sublime.

Quinta do ArrobeProcurando sempre a diferença e qualidade, os dois irmãos criaram várias marcas: Sensato, Mensagem, Oculto e Quinto Elemento, cada uma com uma simbologia muito própria. O Sensato é a gama de entrada, sensato porque é um vinho que nunca nos deixa ficar mal. Oculto e Mensagem são gama intermédia, sendo que o segundo é também uma homenagem a Fernando Pessoa. Os vinhos Quinto Elemento são o topo de gama e relacionam-se com os quatro elementos fundamentais para a vida, em que o quinto é precisamente o vinho. 

Quinta do ArrobeNa sequência de estudos geológicos efectuados na Quinta, com o objectivo de determinar os melhores locais para plantar, foram seleccionadas nas castas tintas o Castelão, Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Touriga Nacional e a Trincadeira Preta. Nas castas brancas o Arinto, Fernão Pires, Pinot Grigio, Verdelho, Sauvignon Blanc e Moscatel. São vinhos que fogem um pouco aquilo que esperamos da região Tejo, com frescura (devido a estar na encosta da Serra de Santo António), maturação (devido às elevadas temperaturas que por lá se fazem sentir) e salinidade (devido à proximidade ao mar e solos argilo-calcários).

Quinta do ArrobeEstes vinhos foram uns óptimos companheiros de uma longa almoçarada em família, no primeiro dia de Verão primaveril (a sério) do ano.  Começamos com as violetas, frutos silvestres, morangos e boa acidez do rosado Oculto Rosé 2018 (6€, 82 pts.); com a manga, papaia, melão, espargos, maçã verde, flor de laranjeira, mineralidade calcária, elegância e acidez bem integrada do amarelo-citrino Oculto Branco 2016 (6€, 85 pts.); com a cor rubi-violeta, fruta preta (amora e ameixa), acidez ponderada e taninos redondos do Oculto Tinto 2015 (6€, 84 pts.); e com a cereja preta, amora preta, mirtilos, canela, loureiro, caruma, untuosidade e elegância do Mensagem Reserva 2014 (12€, 88 pts.)

Quinta do ArrobeJá na gama Quinto Elemento gostei muito do Quinto Elemento Blanc de Noir Trincadeira Preta 2017 (17€, 88 pts.). De cor amarelo-citrina, límpida e cristalina carrega no nariz uma sedutora mineralidade calcária, maçã verde, uma surpreendente pimenta branca e suaves notas de barrica. Na boca volta a surpreender pela enorme estruturada, acidez vincada e final persistente.

Quinta do ArrobeO Quinto Elemento Arinto Reserva Chão de Calcário 2016 (14€, 88 pts.), amarelo palha com nuaces esverdeadas emanava aromas muito sedutores a  damasco, manga, lima e calcário molhado, mostrando-se na boca muito fresco, untuoso, com bom volume e textura por camadas.  

Quinta do ArrobePassando para os tintos, o Quinto Elemento Syrah Reserva 2015 (16€, 91 pts.) exibia uma cor rubi viva e aromas a frutos do bosque, fruta preta (amora e ameixa) e pimenta preta. No entanto, os melhores predicados deste vinho estão na boca, com uma estrutura, acidez e mineralidade muito bem casadas.  

Quinta do ArrobePor último, o Quinto Elemento Reserva Cabernet Sauvignon 2016 (20€, 93 pts.) está numa fase óptima de consumo. Trajando um vermelho grená bastante vivo, mostra aromas muito puros a groselha, morangos, cedro, cassis e pimenta preta. O palato é intenso, denso, fresco, mineral, com uns taninos deliciosos, e mais uma vez, para não fugir à regra, com uma excelente estrutura. 

Quinta do ArrobeTodos estes vinhos carregam o terroir de onde nasceram, com uma excelente acidez, boa maturação e uma mineralidade salivante, em que qualquer um deles acompanhou muito bem um Cabrito assado na brasa, no entanto, o meu favorito foi o Cabernet Sauvignon, por ter as especiarias mais vincadas.

Quinta do ArrobeSão vinhos que mostram que o Ribatejo não "serve" apenas para produções em massa e que uma visão familiar da vinha, do vinho e da vida só pode elevar a qualidade do que se põe dentro da garrafa, e não estou só a falar "apenas" do liquido. ;) Vinhos originais, distintos e de excelência, características atribuídas pela singularidade do terroir, da adequação das castas e pelos laços familiares da família Gaspar.

Quinta do Arrobe

Porque nisto do vinho, dos afectos e da família, há coisas que não enganam, pois não Gui? Quando as raízes são profundas, não há razão para temer o vento ;)

Cabrito assado na brasa:

-Lavem o cabrito e dêem-lhe uns golpes e ponham-no de molho em água e sal durante pelo menos 2 horas (se o deixarem durante a noite ainda é melhor):
-Numa tigela misturem o azeite com o vinagre, loureiro, alho, tabasco, vinho do Porto, salsa e temperem com sal e pimenta. 
-Enxuguem o cabrito e untem-no com o molho preparado. Coloquem-no depois sobre brasas (misturem vides com o carvão para dar um toque extra) e vão virando e pincelando com o molho à medida que o cabrito for alourando.

 

 

Brancos Quinta do Convento | Não subiu para as estrelas, se à terra pertencia

"Todo o fantasma, toda a criatura de arte, para existir, deve ter o seu drama, ou seja, um drama do qual seja personagem e pelo qual é personagem. O drama é a razão de ser do personagem; é a sua função vital: necessária para a sua existência." Luigi Pirandello

Quinta do ConvetoComeço com um dos livros da minha vida, Memorial do Convento. Neste assombroso romance de José Saramago, vamos conhecendo um jovem casal, Baltasar e Blimunda, que unido pelos caprichos do destino se tornou cúmplice da invenção da passarola voadora (o primeiro "avião") e da construção do belíssimo convento de Mafra em Portugal. Baltasar era limitado, Blimunda via muito além. 

Quinta do Conveto Em torno desta história de amor deliciosa existem outros personagens e estórias: há o rei, há o nobre,  há o criminoso, há o povo faminto e há as perseguições da Santa Inquisição. O enredo leva este estranho casal na jornada das suas vidas, ao enfrentarem as aparentes impossibilidades de seu tempo, enquanto tentam responder a algumas das questões mais profundas da sua vida e do seu  amor. Num trama mais secundário, D. João V promete a Deus e à Igreja a construção de um convento caso tenha um filho com D. Josefa. A rainha engravida e o Convento de Mafra é construído por vontade do rei, sacrificando o tesouro do reino e o povo.

Quinta do ConventoHá um sonho visionário e tecnológico, um sonho mágico, um sonho comunitário a alimentar todo o romance, pincelando cada palavra com tons de esperança. Este livro sobre tudo é tão impactante que Pilar del Rio (esposa de Saramago), colocou-o dentro do caixão no seu funeral, tendo sido Saramago, desta forma, cremado com o Memorial do Convento. Esse exemplar ficou em cinzas, o Convento que serviu de inspiração nunca teve tantas memórias, como a partir desse momento.

Quinta do ConventoPara além da obra de Saramago, o Convento de Mafra é também famoso pela histórias dos seus fantasmas. Os Mafrenses mais antigos dizem que estranhos seres habitam os calabouços do convento. Há quem fale numas ratazanas mutantes, imunes a qualquer veneno. Outros alegam que os barulhos esquisitos são os espíritos dos antigos trabalhadores, que ali morreram, devido às más condições de trabalho, e que por isso ainda hoje assombram o convento.

Quinta do ConventoMas nem todos as lendas de fantasmas que habitam os conventos são más... (não estava fácil esta transição ;)). Esta é história das 2000 garrafas perdidas nas catacumbas de um outro convento,  o de São Pedro das Águias. Começa em 2018 quando Christoph Kranemann, enófilo de origem alemã, se apaixona pela Quinta do Convento de São Pedro das Águias, no Douro. O sonho de se estabelecer enquanto produtor, outrora equacionado para a Austrália, tinha encontrado o palco com os argumentos perfeitos: a beleza agreste do Vale do Távora; um terroir único de altitude; o mítico Convento de São Pedro das Águias, com potencial para dar lugar a um hotel; e uma das mais modernas adegas do Douro, construída em 2007, incluindo um importante património de Porto nas suas caves.

Quinta do ConventoMas Christoph Kranemann, interessado por história, arquitetura e geologia, estava a investir em mais do que isso. Percebeu-o quando pediu à equipa de enologia, chefiada pelo enólogo Diogo Lopes, para proceder ao inventário dos vinhos existentes. Aí surgiram as surpresas, qual história de ficção, em plenas catacumbas do Convento de São Pedro das Águias... Entre barricas de Porto antigos, tintos e até brancos, apareceu então um amontoado de garrafas de um Douro, de cor dourada, bem evoluído.

Quinta do ConventoA primeira rolha aberta revelou algo de extraordinário na garrafa. A segunda, a terceira, a quarta e a quinta confirmaram que a primeira não era excepção. E a regra confirmou, aproximadamente, 2000 garrafas de um branco único, complexo, pleno de aromas terciários, e com uma acidez bem vincada. Um vinho untuoso e rico. Ou antes, uma relíquia, que se soube depois ter nascido de uma vindima de 1999, precisamente das vinhas velhas em frente ao convento.

Quinta do ConventoAgora, cerca de 20 anos depois, esse vinho é então lançado no mercado, pela Kranemann Wine Estates. O Quinta do Convento Branco 1999 (32,50€, 94+ pts.) é um vinho intrigante e misterioso. Ao contrário de outros fantasmas traja um véu de cor dourada, brilhante e sedutora. No nariz é muito complexo, intenso e harmonioso, em que as notas de resina, mel, fruta (damasco, marmelo)  quase em compota, frutos secos (noz e amêndoa),  gengibre,  laranja cristalizada (aquela do bolo rei) e o leve anisado lhe dão um tom aristocrático enorme. 

Quinta do ConventoNa boca, e ao contrário de outros brancos velhos que tenho provado tem uma enorme acidez (5,3 g/L de tartárico e pH de 2.99!!!). Após esquecermos a estalada vinda do além, tão inesperada quanto deliciosa da acidez, o vinho continua a surpreender  com volume, untuosidade e uma ligeira adstrigênia que nos parece querer enganar ao dizer que estivemos a mastigar avelãs. O final é persistente, rico e elegante que equilibrou a voluptuosidade marítima de uns Bifes de atum grelhados com sementes de chia, frutos secos,  ervilha de quebrar, cogumelos Shimeji e molho de marisco

Quinta do ConventoEste 1999 trouxe companhia para o jantar, o seu irmão mais novo Quinta do Convento Branco 2018 (11,90€, 90 pts.) que teve fermentação parcial em barricas de 500L de carvalho francês e em cubas de inox com temperatura controlada, e estágio sobre borra fina com batonnage durante seis meses. 

Quinta do ConventoO resultado foi um vinho de cor amarelo citrino com nuances esverdeadas, quase transparente, super elegante no nariz com notas de limonete, jasmim, maçã verde, folha de limoeiro e damasco. Na boca é fresco, ponderado e cremoso. Uma agradável surpresa.

Quinta do Convento

Todo o fantasma, toda a criatura de arte, ou mesmo um vinho, para existir, deve ter o seu drama, ou seja, um drama do qual seja personagem e pelo qual é personagem. O drama é a razão de ser do personagem; é a sua função vital: necessária para a sua existência. Este,  do encontro acidental destes 2000 fantasmas em forma de garrafas perdidas, desenrolado nas catacumbas do Convento de São Pedro das Águias, é muito bom e muito facilmente nos esquecermos dele.

Quinta do ConventoConta-nos a história de um vinho que tinha tudo para já ter subido às estrelas, e que no entanto ficou na terra, porque era à terra que pertencia e é nela que o podemos desfrutar.

Termino o texto de hoje, da mesma maneira que o comecei. «Não subiu para as estrelas, se à terra pertencia» é a última frase do Memorial do Convento e são as palavras inscritas na lápide de Saramago, ficariam muito bem no contra-rótulo deste vinho com alma de fantasma ;) 

Soito Wines | A mineralidade e as Serras

"E pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara favas! … Tentou todavia uma garfada tímida – e de novo aqueles seus olhos, que pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado: «óptimo!… Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia!»" Eça de Queiroz

SoitoPensem na vossa comida favorita. Não, a sério, pensem mesmo sobre isso ou o vosso ecrã desliga e bloqueia durante 10 minutos e quando o ligarem levam com um discurso do Ventura ;) Fechem os olhos e pensem em todo o processo de tentar adivinhar o sabor, pegar, morder, mastigar, provar e engolir algo delicioso. Muito bom, certo? Agora pensem na vossa comida favorita enquanto eram crianças. É a mesma? Provavelmente não. Agora, o oposto, pensem na vossa comida menos favorita. Algo que vocês nem conseguem suportar a ideia de a aproximar à vossa boca selecta. Essa abominável comida mantém-se a mesma desde a infância? Por acaso há alguma hipótese da vossa comida mais favorita nos dias de hoje ser a menos favorita de quando eram mais pequenos?

SoitoAs crianças têm preferência natural pelos doces, herdada da lactose do nosso primeiro alimento, o leite materno. Verduras? Muito difícil gostarmos enquanto somos pequenos (a Bia é uma excepção). Os mais velhos adoram pimenta, atracção essa que resulta do facto de com o avançar da idade irmos perdendo cada vez mais receptores de paladar, necessitando de sabores mais fortes, como a pimenta, para sermos capazes de os detectar. 

SoitoAquele arrepio desagradável que sentia-mos quando a nossa mãe nos colocava à frente uns bróculos tem nome: neofobia alimentar, ou seja, o medo em experimentar um sabor novo. É uma protecção natural do nosso organismo contra possíveis alimentos venenosos, herdamos estes "sensores" dos nossos antepassados caçadores-colectores Homo Sapiens. Comer o "conhecido" (por favor não coloquem conotações sexuais onde elas não existem ;)) era seguro e assegurava a nossa existência, provar sabores desconhecidos era jogar à roleta-russa antes da Rússia ter nascido. É também por isto que o nosso gosto por vinhos surge mais tarde, quando já conseguimos distinguir o amargo bom do amargo mau.

IMG_8953.JPGMas, com o tempo, prática e conhecimento, todos aprendemos a gostar de novos sabores. Esta transição, para mim resume-se num alimento: favas ;) Anteriormente detestadas e motivo de choradeira, hoje são motivo de salivar incessante. Se forem combinadas com chouriço e uma boa carne de vitela, perfeito. Mas antes das favas vou-vos falar de uns vinhos que têm conquistado fãs, a um ritmo que só a paixão consegue explicar, a Soito Wines. Foi criada em 2013 por Sandra e José Carlos Soares (2 professores, a profissão mais nobre de todas ;)), e já conquistou troféus nacionais e internacionais, tendo até sido distinguida como um dos produtores mais incontornáveis do Dão. Tudo isto, indícios de que algo de muito sério está a ocorrer com estes vinhos.

SoitoSituada entre Nelas e Mangualde (Tibalde), a Soito Wines é composta por um projecto de agroturismo, uma casa com inúmeras actividades vínicas e de lazer, uma Adega de última geração construída pelo arquitecto Perdigão (também produtor de vinhos) e duas quintas (Cabeço da Roda e Soito). A minha visita "palateana" a esta Quinta começou pelo Soito Rosé 2017 (10€, 86 pts.). Elaborado a partir de Alfrocheiro, Tinta Roriz e Touriga Nacional traja uma cor rosada intensa, límpida e cristalina e transporta no nariz cerejas, morangos e alguma mineralidade. Na boca é muito fresco, intenso e surpreendentemente bem estruturado, ideal para acompanhar umas peças de sushi.  Não é um simples rosé "de piscina"...

SoitoResultante de uma vinificação clássica com fermentação a temperatura controlada (16ºC durante 3 semanas) e com estágio parcial em barricas de carvalho Francês com batonnage durante 6 meses o Soito Encruzado Reserva Branco 2017 (20€, 89 pts.), de cor amarelo palha com ligeiras nuances esverdeadas, exibia notas florais bastante ricas (flor de laranjeira e limonete), folha de limoeiro, lima, pêra, aromas minerais a granito molhado e apontamentos mais suaves de baunilha, resultantes da madeira bem integrada. No palato é  muito fresco, mineral (quase a chegar ao salgado), equilibrado e ligeiramente untuoso.  

SoitoPara acompanhar as Favas, chouriço e vitela estufada (feitas, e muito bem, pela minha sogra), terror da minha infância, e prazer absolutamente delicioso da juventude em que me encontro (:P) escolhi o Soito Reserva Tinto 2015 (30€, 94 pts.), uma das melhores harmonizações do "cá por casa".  A vinificação deste vinho é feita em lagar com maceração pelicular suave, a sua fermentação é controlada a 26ºC durante 8 dias e o estágio é feito em barricas de carvalho francês durante 12 meses, o resultado é um vinho enorme. Sei que às vezes exagero nos adjectivos, mas aqui são inteiramente justos. De cor vermelha romã, carrega notas saborosas (estou a salivar enquanto escrevo) a amoras pretas, ameixa madura, mirtilos, resina picante, caruma, couro, alcaçuz, pimenta e  canela. 

SoitoNa boca, este lote com Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz é denso, complexo, equilibrado, harmonioso e com taninos tão abundantes quanto elegantes. Que delícia!!! ;) Adoraria voltar a  conversar com ele daqui a uns anos. 

É numa rústica e bucólica paisagem que a Quinta do Soito se esconde, entre as Serras da Estrela e do Caramulo, pronta a ser descoberta. Com cerca de 10 hectares, dos quais cerca de 7 de vinha, esta quinta parece ter nos seus solos de granito a sua característica mais diferenciadora. 

SoitoA combinação deste tipo de solos, com as condições climatéricas do Dão e a utilização das castas autóctones da região confere aos  vinhos uma mineralidade "molhada" deliciosa.  A juntar a esse terroir privilegiado há ainda a elegância, leveza, subtileza e palato aveludado dos vinhos Soito, que os tornam únicos, genuínos e impactantes. Gostei muito, pela intensidade e originalidade do rosé, pela classe do Encruzado e pela complexidade e enorme alma do Reserva. Nota ainda para a qualidade das garrafas e originalidade das rolhas.  

 

Favas, chouriço e vitela estufada:

-Fazer um refugado com azeite, cebola e um dente de alho.

-Juntem 4 tomates frescos maduros e partidos aos bocados, caldo da cozedura de uma galinha e cozinhem durante 10 minutos;

-Acrescentem a vitela e deixem cozer em lume brando durante uma hora;

-Coloquem as rodelas de chouriço e cozinhem durante mais 10 minutos;

-Coloquem as favas e cozinhem durante quinze minutos.

Quinta da Romaneira | Adão, Eva e a maçã. Ou teria sido uma romã?

Quinta da RomaneiraA romaneira, árvore que produz a romã, é tida por todas as religiões espalhadas pelo mundo como um símbolo de fertilidade e fecundidade, multiplicidade, ressurreição e purificação, estando por isso associada à Deusa Afrodite. No Douro, Romaneira é o nome de uma propriedade com 400 hectares (86 deles com vinha) e mais de 3 quilómetros de margem ao longo do rio Douro. Esta quinta é considerada como uma das maiores e mais belas herdades do coração do Vale do Douro, sendo a sua história bastante antiga. 

RomaneiraExistem registos de vinha plantada na Romaneira nos séculos XVII e XVIII, período durante o qual a propriedade pertenceu a três famílias distintas: Sousa Guimarães, cujas iniciais surgem na porta da Quinta com a data de 1854, Lacerda, D. Clara de Lacerda deu o seu nome a uma das casas da propriedade, e Monteiro de Barros, que, em 1940, ampliou a quinta para o tamanho que hoje conhecemos. Assumindo-se uma das principais quintas do Douro, a Romaneira aparece representada no mapa do Douro elaborado pelo Barão de Forrester.

Quinta da RomaneiraUm grupo de investidores privados, apaixonados pelo Douro, adquiriu a propriedade em 2004. A gestão foi confiada à reconhecida dupla Christian Seely e António Agrellos, responsável, desde 1993, pelo renascimento de outra distinta propriedade do Douro, a Quinta do Noval. A esta parceria se deve a produção de alguns dos melhores Vinhos do Porto Vintage dos últimos anos, sendo também esta pioneira do movimento de produção de vinhos tintos de mesa no Douro. 

Quinta da RomaneiraEsses vinhos DOC, em que se destacam os aromas selvagens do Douro e a fruta exuberante, aliados à subtileza e elegância do Velho Mundo, constituem, actualmente, uma agradável descoberta para qualquer grande amante de vinhos. Hoje falo-vos das descobertas que fiz em dois deles ;)

Quinta da RomaneiraNo Quinta da Romaneira Reserva Branco 2019 (15€, 85 pts.), amarelo citrino leve e cristalino, encontrei uma excelente mineralidade (xisto acabado de partir), toranja, lima e cedro. A boca com excelente acidez, estrutura, e elegância complementa na perfeição as notas mais verdes do Camarão gigante selvagem grelhado, croquetes de batata trufados, crostini de azeitona e guacamole.

Quinta da RomaneiraPor sua vez, no rubi Quinta da Romaneira Tinto 2015 (20€, 91 pts.) descobri frutos silvestres maduros, amoras vermelhas, romã (;)) esteva e pimenta preta. Na boca exibe taninos picantes e ligeiramente austeros, elegância, frescura e intensidade, ideais para uma picanha em família. Também não se porta nada mal com um bolo de batata-doce e alfazema.

Quinta da RomaneiraContinuando na gastronomia, numa das mais famosas passagens da história escrita, Eva convence Adão a comer uma maçã no Jardim do Éden. Todos conhecemos a narrativa não é verdade? Bem, a história, ao que parece, não é exactamente assim. De facto, Adão e Eva, para mal de nossos pecados, morderam um fruto. Mas o Livro do Génesis não nos diz explicitamente, de que fruto se tratava. Pode ter sido uma maçã, ou, como sugerem pinturas antigas e vários historiadores de renome, uma romã. Romã, em latim, é “malum granate”, ou seja, “maçã com sementes”.

Quinta da RomaneiraAinda em latim, as palavras para “maçã” e “um mal” são semelhantes. "Mālum" é a palavra para “maçã”, "mălum" é a palavra para “um mal”. Daí a maçã ter sido associada ao fruto proibido. Acho que esta história até poderia dar à Quinta da Romaneira um novo slogan: Da quinta do fruto proibido vem o vinho mais apetecido ;)

Camarão gigante selvagem grelhado, croquetes de batata trufados, beringela grelhada e guacamole:

-Depois cortarem os camarões ao meio, tempere-nos os com sal, pimenta e sumo de limão e deixem repousar por pelo menos uma hora. Depois pincelem os camarões com um pouco de azeite e grelhem-os com um pouco de noz-moscada. Para o molho derretam um pouco de manteiga e junte-lhe tabasco e sumo de limão;

-Para os croquetes misturem a batata cozida com as gemas de 2 ovos, o parmesão, a manteiga, um fio de azeite trufado e sal e pimenta a gosto e vão adicionando a farinha aos poucos, enquanto mistura, até ligar. Modelem os croquetes com as mãos ligeiramente enfarinhadas e empanem (passem-nos primeiro em pão ralado, depois no ovo e novamente em pão ralado). Levem ao forno a 210ºC durante 10 minutos;

-Misturem as azeitonas (150 gramas verdes e 150 gramas pretas), alcaparras a gosto, o azeite, um dente de alho, sumo de um limão, um pouco de pimento vermelho e o alecrim numa assadeira em que caibam todos os ingredientes apenas numa única camada. Temperem com uma pitada de sal (não se esqueçam que a azeitona já é um pouco salgada) e pimenta e levem ao forno durante 45 minutos, mexendo frequentemente a pasta (de 10 em 10 minutos).

-Para o guacamole cortem os abacates a meio (na hora para não oxidarem), separem as metades e retirem-lhes a semente. Com a ajuda de uma colher, tirem a polpa do abacate, triturem-nos e juntem tomate cortado, uma cebola e os coentros picados. Quando tiverem misturado bem tudo acrescentem sal, pimenta e sumo de lima. 

 

 

Dona Matilde | A autobiografia de uma ostra

"Os diamantes são apenas pedaços de carvão que não desistiram e continuaram a trabalhar.“  Minnie Richard Smith

Dona MatildeA Quinta Dona Matilde é uma das mais antigas propriedades do Douro, integrando a primeira demarcação ordenada pelo Marquês de Pombal em 1756. Localizada junto à belíssima estrada N222, entre a Régua e o Pinhão, com ampla frente para o rio Douro, a quinta pertence à família de Manuel Ângelo Barros desde 1927. Este produtor é neto do fundador da quinta e foi administrador durante 30 anos do grupo Barros, um dos mais importantes no Douro, no século XX.

Dona Matilde Já neste século, aquele grupo familiar foi vendido à espanhola Sogevinus, mas Manuel Barros acabou por comprar de volta a Quinta Dona Matilde, mantendo-se na produção de vinho do Douro, em conjunto com o seu filho mais novo, Filipe Barros. Por estas circunstâncias, os vinhos Dona Matilde estão no mercado com nome próprio apenas desde 2007, mas a família dinamizadora está na produção de vinhos do Porto e do Douro há quatro gerações. 

Dona MatildeFocados no projeto de vinhos em torno da quinta, a família tem trabalhado na última década na valorização do património vitivinícola - entre socalcos ingremes, as vinhas de montanha da Quinta Dona Matilde, num total de 28 hectares, formam um mosaico vinícola diversificado, de vinhas com idades entre os 90 e os 22 anos e exposições solares diversas, integradas numa paisagem com uma grande beleza e biodiversidade, onde se incluem oliveiras, citrinos, horta, jardins e vegetação tipicamente mediterrânica (área total de 96 hectares).

Dona Matilde

Esta quinta clássica do Douro, do vinho do Porto e dos DOC tintos,  tem vindo a surpreender também com os seus vinhos brancos, capazes de provar que é possível produzir brancos com expressão do lugar, excelente frescura e acidez a cotas baixas, junto ao rio Douro. Um bom exemplo disso mesmo é o Dona Matilde Branco 2019, lançado online na semana passada.

Dona MatildeResultante da apanha da uva (Arinto, Viosinho, Rabigato e Gouveio) à mão e em caixas de 25 kg, de uma pré-selecção dos cachos à entrada, de uma prensagem suave, de fermentação a temperatura controlada e de um estágio por 6 meses em cuba, o Dona Matilde Branco 2019 (10€, 82 pts.) traja um amarelo citrino com pequenas nuances esverdeadas e no nariz apresenta-se com aromas focados e muito florais a lúcia-lima, violetas e flor de limoeiro. 

Dona MatildeSurgem ainda apontamentos tropicais (ananás) muito discretos e um anis que o abre em termos de complexidade.   No palato as notas vegetais verdes e a boa acidez equilibram a maturação que o vinho tem (14% de álcool). Exibe bom volume, estrutura (surpreendente até pela falta de madeira), equilíbrio e persistência. 

Dona MatildeNota-se claramente que é um vinho que tinha tudo para ser carvão, mas que com trabalho, tempo, conhecimento e dedicação se tornou diamante ;) A demonstrar esse bom equilíbrio entre maturação e frescura, resultante de um preciso trabalho de joalharia, surge o sucesso com que acompanhou um Carpaccio de atum, vinagrete de manga, parmesão e caviar.

Dona MatildeEste trabalho minucioso e de joalharia na vinha e adega explora o conhecimento do património vitícola da quinta, parcela a parcela, visando tirar o máximo partido do potencial de cada uma dessas parcelas. A quinta mantém, no entanto, a aposta na produção dos tradicionais blends do Douro, como este branco, com um perfil elegante, sem muita extracção, de aromas complexos, concentrados e com uma longevidade capaz de oferecer surpresas aromáticas, fruto do passar do tempo.

Dona MatildePureza, beleza, sofisticação e elegância, tudo características de uma pérola, em forma de uma autobiografia de uma ostra, resultante do acaso (num milhão de ostras, apenas uma delas produz uma pérola natural) e de muito trabalho, e que por isso me pareceu uma excelente metáfora para este vinho ;)

Carpaccio de atum, vinagrete de manga, parmesão e caviar:

-Enrolem o lombo de atum temperado com sal e pimenta em película aderente, apertem-no bem e atem as pontas. Levem ao congelador, durante pelo menos seis horas. Decorrido este tempo, desenrolem o atum e retirem-lhe a película. Cortem-no em fatias, o mais finas possível (o facto de estar congelado vai ajudar-vos);

-Para o vinagrete ponham num recipiente (para mais tarde liquidificarem) o vinagre (uma chávena de café), azeite (três chávenas de café), sal, pimenta, noz moscada, uma colher de sopa de mostarda, um pouco de pimento vermelho a gosto, algumas alcaparras, uma manga e sumo de 3 limões. Liquidifiquem até ficar tudo homogéneo. No final coloquem um pouco de brandy. Se estiver demasiado espesso acrescentem mais sumo de limão/laranja; 

-Ao empratarem juntem caviar, sal preto e umas aparas de parmesão. 

 

Créditos: Os direitos desta última foto (Administradores - Filipe Barros e Manuel Angelo Barros, viticultor- José Carlos Oliveira e enólogo - João Pissarra) pertencem a Anabela Trindade.

Palácio dos Távoras | Desassossegadamente caídos do céu

“Sim, outrora eu era daqui, hoje, a cada paisagem nova para mim regresso estrangeiro, forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim... Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois não sendo mais do que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectáculo que posso." Fernando Pessoa

Palácio dos TavorasPublicado um ano antes de eu nascer e 47 anos após a morte de Fernando Pessoa (no ano de 1982), "O Livro do Desassossego" tem como autor Bernardo Soares, o seu semi-heterónimo. "Semi" porque essa personalidade apresenta características muito semelhantes às de Fernando Pessoa, que a usa para construir a sua própria biografia: as suas confissões.

Palácio dos TavorasO livro foi desenhado como um labirinto onde é muito fácil o leitor se perder. São mais de 500 textos sem inicio, meio, nem fim, que demoraram 20 anos a serem escritos, ficando, ainda assim, incompletos.

Palácio dos TávorasÉ um livro inquietante que nos leva a tentar perceber quem somos, porque somos, para quem somos e, particularmente, de onde somos. Onde sentimos que pertencemos e onde nos sentimos estrangeiros. 

Palácio dos TávorasSerá que este tipo de questões de pertença também se colocam para uma casta? Será que o terroir tradicional de um tipo de uva, terá, obrigatoriamente de ser castrador da criatividade de um enólogo? A todas estas questões António Costa Boal (produtor) e Paulo Nunes (enólogo) respondem com um redondo "não", materializado nos vinhos Palácio dos Távoras.

Palácio dos TávorasConheci um pouco melhor estes vinhos esta semana aquando do lançamento online do novo Palácio dos Távoras Baga 2016, o primeiro vinho desta casta na região de Trás-os-Montes. A afamada casta da Bairrada encontrou no planalto de Mirandela condições para a produção de um varietal de qualidade e, o que há uns anos seria impensável ... concretizou--se.

Palácio dos TávorasDeve parte do seu nome, a Parcela CB, a Carolina Boal, filha de António Boal e que em 2012 ajudou a plantar a parcela de Baga. Parcela essa que parece caída do céu, uma vez que resulta de um feliz acaso. Enquanto plantavam  Touriga Nacional a equipa da Costa Boal ficou sem plantas e encomendou mais algumas ao fornecedor, mas nesse ano, já só haviam Baga. E assim nasce um grande vinho ;)

Palácio dos TávorasO Palácio dos Távoras Parcela CB Baga 2016 (20€, 91 pts.) de cor rubi cristalina exibe ameixa preta, amora vermelha, silo, suave "cola balsâmica" (não como defeito mas mais na linha de uma resina picante discreta) e notas ligeiramente abaunilhadas e fumadas (no nariz não engana, é Baga). No palato, confunde um pouco a nossa percepção, porque é rústico (respeitando a casta), muito fresco (respeitando a região), quente, seco, com taninos austeros, equilibrado e longo. Agrada tanto ao palato como ao intelecto e tem tudo para crescer em garrafa.

Palácio dos TávorasEsta acidez e rusticidade acompanharam na perfeição a untuosidade de um Lombo de boi, endívias braseadas, ervilhas, grão e jus de carne

Palácio dos TávorasAproveitei a ocasião para harmonizar este prato, também com o Palácio do Távoras Alicante Bouschet 2017 (30€, 90 pts.). É um vinho rubi denso, muito perfumado com compota de frutos silvestres, mirtilos, ginja, cacau, feno e pimenta preta. Na boca demonstra excelente volume, estrutura, concentração e taninos elegantes. 

Palácio dos TávorasJá no dia seguinte, mais dois vinhos Palácio dos Távoras, e ambos de vinhas velhas, uma marca desta casa. Primeiro o Palácio os Távoras Vinhas Velhas Branco 2018 (20€, 90 pts.), que trajava amarelo citrino descorado e exibia no nariz flor de laranjeira, toranja, limonete e notas minerais a pedra molhada (quase salina). No palato é muito complexo, harmonioso, fresco, elegante, cheio e persistente. Gostei muito.

Palácio dos TávorasPara último e para acompanhar um queijo da Serra com cura de seis meses um vinho de aroma muito bonito,  o Palácio dos Távoras Vinhas Velhas Tinto 2016 (20€, 91 pts.). De cor rubi intensa e limpa, carrega frutos silvestres, ameixa, morangos,  cacau, pimenta preta, brisas vegetais e leves fumados. Na boca é muito elegante, redondo, com bela acidez e muito persistente.

Palácio dos TávorasVinhos que parecem caídos do céu, quer pela origem das castas, quer pela elegância com que se pavoneiam perante os nossos sentidos, mas que na realidade resultam de um trabalho, dedicado, persistente e com conhecimento de causa. 

Palácio dos TávorasE como se costuma dizer, a nossa casa, é onde somos bem tratados, tenho a certeza que a Baga não se sentirá muito mal, estrangeira ou forasteira nesta sua nova morada. Muitas vezes para percebermos quem somos temos de nos dar a conhecer em paisagem novas ;) Parabéns ao António Boal e ao  Paulo Nunes, com vinhos como estes têm uma espécie de dever de sonhar sempre ;)


Lombo de boi, endívias braseadas, ervilhas, grão e jus de carne:

-Para o jus de carne, usem alguns ossos ainda com pedaços de carne (peçam no talho, se for de novilho ou borrego, melhor); cebola, cenoura e aipo partidos grosseiramente; e deixem cozinhar por 2 horas em lume brando. No final da cozedura coem o preparado para ficarem apenas com o liquido. Juntem manteiga, sal, pimenta, vinho do Porto e um pouco de limão. Deixem reduzir para metade em lume brando;

-Grelhem levemente (3 minutos) em manteiga, as ervilhas de quebrar, as ervilhas e o grão de bico;

-Levem azeite ao lume numa frigideira com o açúcar mascavado e noz moscada e deixem derreter. Introduzam as endívias com a parte cortada virada para baixo (e sem a parte de baixo do talo). Tapem e deixem suar sobre lume brando. Junte sumo de limão, brandy e reservem;

-Grelhem em manteiga o naco de boi em lume muito forte, dois minutos de cada lado, com flor se sal e pimenta preta.

Novas colheitas da Noval | A insustentável leveza de uma sombra

“Afinidade é um dos poucos sentimentos que resistem ao tempo e ao depois. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afecto no exacto ponto em que foi interrompido. É uma vitória do adivinhado sobre o real. Do subjectivo sobre o objectivo. Do permanente sobre o passageiro. Do profundo sobre o superficial.Artur da Távola

NovalSejamos sinceros, ao falarmos da Noval, pensamos logo nos seus maravilhosos e únicos vinhos do Porto. Mas como vão perceber mais à frente, a Noval é muito mais que isso.  A sua história é bastante antiga, sendo que o nome Quinta do Noval aparece pela primeira vez em registos no ano de 1715. Quase dois séculos depois (1894), António José da Silva, comerciante de Vila Nova de Gaia adquire a Quinta depois de esta ter sido devastada pela filoxera, com a intenção de a reestruturar e replantar as vinhas da propriedade. 

NovalLuiz Vasconcelos Porto, genro de António José da Silva, foi o autor de um vasto conjunto de inovações, transformando os antigos socalcos estreitos em socalcos mais largos, que, hoje em dia,  permanecem como característica distintiva da Noval, com as suas escadas caiadas de branco. Estes socalcos permitem uma utilização mais eficiente do solo e uma melhor exposição solar.

NovalA Quinta do Noval ganhou reputação internacional com a declaração do Quinta do Noval Porto Vintage 1931 e o Quinta do Noval Nacional Porto Vintage 1931, que são provavelmente os Vinhos do Porto que mais entusiasmo causaram durante o século XX.

NovalNesse ano, devido à recessão mundial e à enorme produção e distribuição do Vintage de 1927, a maioria dos produtores não declararam Vintage. O sucesso obtido estabeleceu a Quinta do Noval entre os grandes nomes do vinho do Porto Vintage no mercado Inglês e norte-americano, uma posição de liderança em termos de reputação, que ainda hoje mantém. 

NovalAs diferenças subtis de orientação, clima e solo das várias parcelas desta extensa vinha são as mais valias que proporcionam aos vinhos da Noval a complexidade e profundidade que lhes são únicas, quer estejamos a falar dos vinhos do Porto ou dos vinhos tintos e brancos não fortificados. 

NovalNos anos 90, uma centena de hectares da propriedade foram replantados, adaptando os métodos de poda às necessidades de cada parcela. Actualmente, a Noval possui uvas de elevada qualidade (totalmente classificadas com letra A), que, por um lado, garantem a excelência dos vinhos do Porto da Quinta do Noval e, por outro, a produção dos vinhos do Douro desde 2004.

NovalÉ sobre esses vinhos do Douro, que vivem na sombra dos multipremiados vinhos do Porto que vos vou falar hoje, começando por um dos vinhos que mais me surpreendeu nestes tempos de quarentena: o  Cedro do Noval Branco 2019 (15€, 91 pts.). 

NovalDe cor dourada clara cristalina, combina na perfeição notas minerais (xisto molhado), fruta (toranja, maçã perfumada e pêssego) e aromas florais (flor de laranjeira). 

NovalSurgem em segundo plano leves apontamentos a baunilha que tornam o vinho mais complexo e largo. Na boca é muito fresco, ligeiramente untuoso, longo e com bom volume. 

NovalCombinou na perfeição com a untuosidade e notas vegetais da Sopa de sapateira (esta tornou-se na minha sopa favorita, pena é a trabalheira que dá a confeccionar ;)). 

NovalPara acompanhar os tintos (Cedro do Noval e Noval Reserva) escolhi Lombo de porco, gelado de beterraba, legumes baby, compota de tomate e funcho.  

NovalO Quinta do Noval Reserva 2017 (51€, 94 pts.) no copo é rubi muito denso, no nariz é intenso com groselha, framboesas, ameixa preta e pimenta preta. Exibe ainda uma mineralidade (xisto partido) muito agradável, uma tosta bem integrada e chocolate preto. Na boca passeia-se com taninos deliciosamente saborosos, finesse, potência e estrutura. Um vinho enorme que tem tudo para crescer em garrafa. 

NovalCedro do Noval Tinto 2017 (14€, 90 pts.) com uma cor rubi escura (não tão densa quanto a do Reserva), tem um nariz muito interessante com pimenta preta, chocolate e ameixa preta. No palato proporciona um final aromático, ligeiramente fumado, fresco e muito rico. 

NovalEstes DOC Quinta do Noval são vinhos imperiais, belos para todos os sentidos, vestidos em tons carregados e sedutores, perfumados com flores e impulsionadores de sonhos: a tal poesia engarrafada, que por vezes ouvimos. Vinhos com uma afinidade enorme com o terroir, com um pedaço de terra capaz de produzir vinhos maravilhosos, que carregam, com orgulho, o carácter da colheita e o legado do lugar de onde provêm.

NovalVinhos com capacidade para resistir ao tempo e ao depois, e que apesar da maturação que atingem (ou não estivessem no Douro) são vinhos com uma frescura, elegância e finesse impressionantes, que os fazem ter uma insustentável leveza no momento da prova. Vivem na sombra dos Porto, mas já dizia Lincoln: o carácter é como uma árvore mas a reputação ... é a sua sombra.

Sopa de sapateira

-Cozer a sapateira em água, sal e uma malagueta (filtrem e reservem a água da cozedura). Retirar a carne da sapateira das pinças e patas juntamente com a barriga (partes acastanhada e laranja) e reservem. Retirem as bolsas e guelras e deitem-nas fora;

-Num tacho grande aqueçam azeite, juntem o alho partido em pedaços pequenos,  cebola, cenoura e aipo e deixem cozinhar durante 10 minutos;

-Juntem a carne da sapateira das pinças e patas juntamente com a barriga (partes acastanhada e laranja), partes da concha (os pedaços maiores para que depois possam ser facilmente removidos), polpa de tomate, brandy, e acrescentem água da cozedura até perfazer 800 mL de volume, Deixem ferver por 10 minutos;

-Acrescentem manjericão, estragão e salsa a gosto e cozinhem por mais 5 minutos;

-Retirem a casca da sapateira e passem tudo por uma varinha mágica;

-Acrescentem 200 mL de natas e mexam. Acrescentem um pouco mais de brandy já com o lume desligado.  

 

Lombo de porco, gelado de beterraba, legumes baby, compota de tomate e funcho

-Cozam as beterrabas já descascadas em águal e sal (reservem uma para levarem ao forno). Triturem-nas e juntem um pouco de ginja, açúcar mascavado, natas magras, sal e sumo de um limão e cozinhem por 2 minutos. Levem ao congelador para usarem mais tarde (necessita de pelo menos 4 horas antes de ser servido);

-Levem ao forno rodelas da beterraba cozida, talinhos de funcho e cenouras baby (20 minutos a 180ºC);

- Num tacho coloquem os tomates previamente cozidos e sem casca, açúcar e um pau de canela. Mexam e deixem cozinhar em lume moderado durante 1 hora. No final triturem o tomate, juntem sumo de um limão e um pouco de Porto Ruby;

-Grelhem o lombo de porco em azeite, sal, pimenta, louro, pimentão e uma estrela de anis.

 

Quinta de Lemos | O vinho e as suas luas

“Clair de lune, chiaro de luna, claro de luna... jamais os franceses, os italianos e os espanhóis saberão, verdadeiramente,  o que é o luar, que nós bebemos de um trago numa palavra só.” Mário Quintana 

LemosLocalizada no vale arenoso e granítico do Dão, a região vinícola mais antiga de Portugal, a Quinta de Lemos está situada num planalto, em Silgueiros, a uma altitude de 340 metros. É a materializarão de um sonho de Celso de Lemos, que em 1997, visionava a criação de vinhos únicos,  a partir das castas endógenas da região. 

LemosOs 25 hectares de vinhas estão rodeadas por belos olivais e bosques, e contam desde o início com o espírito criativo do enólogo Hugo Chaves, com calorosa personalidade comercial de Pierre de Lemos e com um símbolo muito bem escolhido. 

LemosO símbolo da família Lemos, quatro luas agrupadas num círculo é o traço comum que liga as quatro residires do vento em que esta família portuguesa explora o Mundo; as quatro  montanhas  que rodeiam a Quinta de Lemos no vale do Dão (Serra da Estrela, Serra do Caramulo, Serra do Buçaco e Serra da Nave); as quatro variedades de vinho mais utilizadas no Dão e as quatro virtudes da família; humanidade, simplicidade, visão e o gosto de partilhar.

LemosComo homenagem aos antepassados da família, a Quinta de Lemos  utiliza os seus nomes para designar os seus vinhos mais nobres, de que é exemplo o Dona Santana, do qual vos vou falar hoje. Têm ainda monovarietais interessantíssimos e carregados de terroir como o Alfrocheiro.  

LemosAmbos os vinhos, devido à sua invulgar combinação de acidez e untuosidade foram harmonizados com Costeletinhas de borrego, batata-doce assada, puré de ervilha e citrinos, cogumelos e jus de carne.     

Lemos

O Dona Santana 2010 (17€, 92 pts.) é a homenagem à avó de Celso Lemos, um blend das quatro castas tintas típicas do Dão, Touriga Nacional, Tinta Roriz, Jaen e Alfrocheiro, com predominância da Touriga. Fez a fermentação maloláctica em barricas de carvalho francês, onde depois estagiou durante 18 meses. 

LemosResultou num vinho muito virado para a fruta, com cor rubi densa, apenas com um ligeiro atijolado (impressionante para os 10 anos que já leva em garrafa), com notas de compota de morango, chocolate preto, amoras negras, noz moscada e petricor (cheiro que a chuva provoca ao cair em terra seca). Na boca é carnudo, cremoso e com os taninos bastante elegantes. Tudo em equilíbrio e harmonia. 

LemosJá o Alfrocheiro 2011 (25€, 93 pts.), também com a maloláctica feita em barricas de carvalho francês e com 18 meses de estágio,  é muito mais floral que frutado (se o Santana "fosse um Vintage" seria Graham's, este seria um Dow's ;)). De cor rubi cristalina, exibe no nariz flores silvestres, jasmim, camonila, couro, tabaco, amêndoas secas, morangos e cerejas. No palato é ainda mais fresco que o Santana, é muito elegante, aveludado e com os taninos polidos mas ainda aguerridos. Mais uma vez equilíbrio e harmonia são as notas dominantes no final de boca.   

LemosOs vinhos Lemos são vinhos equilibrados, frescos, complexos e com alma e natureza do Dão, que fazem rimar inovação com tradição. Combinam muito bem com carnes ricas e untuosas como a do borrego, mas também vão muito bem com uma bela conversa. Vinhos para serem bebidos de um trago numa palavra só: identidade. 

Parabéns, quem diria que o vinho também tinha as suas luas? ;)

Costeletinhas de borrego, batata-doce assada, puré de ervilha e citrinos, cogumelos e jus de carne

-Para o jus de carne, usem alguns ossos ainda com pedaços de carne (peçam no talho, se for de novilho ou borrego, melhor); cebola, cenoura e aipo partidos grosseiramente; e deixem cozinhar por 2 horas em lume brando;

-No final da cozedura coem o preparado para ficarem apenas com o liquido. Juntem manteiga, sal, pimenta, vinho do Porto e um pouco de limão. Deixem reduzir para metade em lume brando;

-Cortem a batata-doce em rodelas e levem ao forno a assar durante 20 minutos a 180ºC apenas com umas pedrinhas de sal e pimenta. Coloquem também os cogumelos a assar no mesmo tabuleiro.

-Cozam as ervilhas, juntem sumo de meia toranja, sumo de meio limão, noz-moscada, manteiga e queijo parmesão;

-Quando passarem 10 minutos das batatas e os cogumelos estarem a assar, coloquem no tabuleiro também umas meias luas de cebola (sem as destruir pois é aqui que o jus vai ser servido);

-Grelhem em lume forte o borrego em azeite com sal e pimenta;

-Adornem com romã, pimento amarelo e alecrim. 

 

 

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