Vertical Callabriga | Houston, temos caril
“O que ia na tua cabeça enquanto permanecias na nave e os teus colegas estavam lá fora, a fazer história?
Resposta: Não parava de pensar no facto de todos os componentes dessa nave espacial terem sido fornecidos pelo tipo que enviou a proposta mais barata.” Michael Collins
Estimados leitores e amigos, começo por pedir desculpa por esta publicação chegar um pouco (muito) atrasada. A prova de que vos vou falar hoje aconteceu aquando da Essência do Vinho 2020 (finais de Fevereiro) e só estou a escrever sobre ela hoje. Tinha o meu caderno de apontamentos na Universidade do Minho (universidade onde trabalho) quando a mesma foi encerrada, durante o fim de semana, devido aos primeiros casos de COVID em Portugal.
Há umas semanas podemos, finalmente, regressar aos nossos gabinetes e eu pude reaver as notas de prova sobre a Vertical Callabriga. Callabriga é um vinho tinto do Douro de perfil contemporâneo, intenso e elegante, criado para reflectir a versatilidade e a actualidade apaixonante dos vinhos do Douro. É um dos mais inovadores vinhos da Casa Ferreirinha, a marca com maior tradição em vinhos de qualidade no Douro e uma das suas maiores referências mundiais.
É vinificado na histórica Quinta da Leda, casa do Barca Velha - Reserva Especial e do Quinta da Leda, e deve o seu nome ao monte Callabriga e a D. José Pelicarpo, bispo de Callabriga. Tem ainda a supervisão de uma equipa de enólogos, liderada por Luís Sottomayor. Com este terroir banhado a Douro e pincelado por apontamentos de distinta beleza como a ribeira de Aguiar, a antiga linha de caminhos ferro, as ruínas de um castro romano do tempo de Cristo e vários apiários, não é difícil inferir o património único de sensações que este vinho carrega.
Vou descrever os vinhos pela ordem inversa com que foram provados, começando pelo rubi denso Callabriga 2017 (17€, 91 pts.), cheio de ameixa preta, cerejas maduras, chocolate After Eight , resina picante, cedro e uma tosta muito bem integrada. No palato é fresco, estruturado, com taninos aguerridos, persistentência, complexidade e equilíbrio.
Num registo completamente diferente, embora mantendo a cor rubi profunda, o Callabriga 2015 (17€, 90 pts.) transporta aromas a lagar (parece que estamos numa vindima), uvas esmagadas, ameixa preta, framboesa, cassis, resina, mentol, violetas e noz-moscada. Na boca é harmonioso, elegante, longo e complexo, com taninos arredondados.
Recuando mais 6 anos, chegamos ao rubi-grenã Callabriga 2009 (17€, 89 pts.) com o seu cacau, chocolate, resina, fruta preta compotada e uns fumados deliciosos. Na boca ainda está cheio de frescura, intensidade e profundidade, num registo muito vibrante. Do ano mais seco que há memória no Douro vem o violeta Callabriga 2005 (17€, 88 pts.). No nariz exibe uva passa, ameixa compotada, doce de mirtilo, esteva, tabaco e uma resina menos evidente que os anteriores. Percorre o palato com uma sensação mais quente e com taninos muito bem integrados.
O Callabriga 1999 (25€, 92+ pts.) foi o vinho que mais gostei de toda a vertical e é muito surpreendente, sobretudo por achar que ainda aguenta uns bons anos em garrafa. A sua cor ainda é rubi, mas já não tão intensa e os aromas são inebriantes: caril, pimenta preta e fruta seca (cereja, framboesa e ameixa). Na boca ainda está cheio de frescura, taninos delicados e estrutura.
Ao contrário do 1999 o Callabriga 1995 é um vinho que não vai ganhar muito mais em garrafa. No entanto, dá uma prova bonita com azeitona, aromas terciários de evolução, alguma fruta silvestre e uma surpreendente acidez. Todos eles, são vinhos muito elegantes, equilibrados, complexos e muito marcados pelo terroir e pelo ano de produção, acrescento, por isso, genuínos à sua descrição. Sofrem, no entanto, do síndrome Michael Collins (que acabei agora mesmo de inventar ;)).
Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins foram os três astronautas da missão que originou a primeira alunagem. Neil Armstrong e Buzz Aldrin, os mais conhecidos e imortalizados nas páginas da história da humanidade, foram responsáveis pela chegada do módulo lunar Eagle ao Mar da Tranquilidade e foram os dois primeiros a dar o grande passo para o Homem na superfície lunar.
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Michael Collins, teve um papel fundamental/abnegado na missão ao pilotar sozinho o módulo de comando Columbia na órbita da Lua, enquanto os seus companheiros estavam na superfície lunar a alterar os livros de história, mas ... não a pisou. Os vinhos Callabriga não são um Barca Velha/Reserva Especial ou um Quinta da Leda, mas por vezes também eles parecem querer desafiar o tempo, os sentidos e a história, como é o caso do 1999. Que caril delicioso ele carregava meus amigos...
Créditos: Placa deixada na Lua na missão lunar Apollo 11© NASA