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No meu Palato

No meu Palato

Cazas Novas | Na véspera de não partir nunca

"Elegância é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado subtil de se deixar distinguir." Paul Valéry

Cazas_NovasFernando Pessoa, o mais conhecido poeta modernista lusitano, deve a sua fama internacional, sobretudo, à complexidade dos seus heterónimos. Nesse vasto rol de personagens encontramos de tudo um pouco, desde poetas, escritores, filósofos, comentadores políticos e uma espécie de influencers sociais da altura. Segundo os estudos mais recentes, existem setenta e duas personalidades em Pessoa. Cada uma delas com a sua própria biografia, estilo e modo de viver. Com os heterónimos Pessoa apresenta maneiras distintas de encarar o mundo e com cada um deles, esconde-se desse mesmo mundo.

Cazas_NovasPodemos procurar Pessoa nos poemas e nas prosas, mas o certo é que não o encontramos em lado nenhum, afinal, aquele era o poeta que se apresentava com a premissa: "Fingir é conhecer a si mesmo".  Para se fingir Pessoa separou-se em personalidades distintas, como um enxame de abelhas literárias que se assumiam como extensões, mutações e interacções de si mesmo.  Para alguns autores, o acto de escrever é uma espécie de personificação daquilo que somos. Com Pessoa, temos a visão oposta, a de que os seus heterónimos nasciam como meio de fuga dele próprio, criando uma mini-cultura de Pessoas, sendo que o Pessoa original era a menos "real" e convincente de todas.

Cazas_NovasAlberto Caeiro foi o primeiro dos grandes heterónimos de Pessoa, nasceu 1889 e morreu em 1915 com tuberculose. Não tinha "profissão nem formação", era de estatura mediana, pálido e de olhos azuis. Certa vez, Caeiro revelou numa entrevista as suas humildes aspirações: "Não pretendo ser nada mais do que o maior poeta do mundo", disse. "Notei o Universo. Os gregos, com toda a sua acuidade visual, não fizeram muito." A ele juntou-se Ricardo Reis em 1887, um classicista médico residente no Brasil. Pessoa explicou que Reis "é um latinista em virtude da formação escolar e um semi-helenista em virtude do seu próprio esforço".

Cazas_NovasHá ainda Álvaro de Campos, nascido em Tavira a 15 de outubro de 1890 “às 13h30”. Campos era um engenheiro naval bissexual desempregado que, depois de concluir engenharia em Glasgow, se mudou com malas e bagagens para Lisboa. Era alto, Pessoa precisou: "1,75 metros de altura, dois centímetros mais alto que eu" e "esguio com uma ligeira tendência para se curvar". Álvaro era "louro e moreno, um tipo vagamente judeu-português, cabelo, portanto, liso e normal e possuidor de um monóculo". Nele, Pessoa investiu "toda a emoção que não permito nem em mim nem no meu viver".  Decadente e elegante, Campos autodenominou-se um poeta "sensacionalista", e seus longos primeiros poemas - em parte influenciados por Walt Whitman - celebraram as máquinas e a era moderna com grande exuberância. 

Cazas_NovasEssa atitude inicial, paulatinamente, deu lugar a uma angústia existencial incómoda que encontrou expressão em poemas mais curtos e coloridos pela melancolia, mas o seu lema era ainda e sempre “Sinta tudo em todos os sentidos”. O maior e mais divertido dos heterónimos, ele até "gozou" com a vida privada de Fernando Pessoa, tem, quanto a mim, um dos melhores poemas de génio literário português, o "Na véspera de não partir nunca".

Cazas_NovasFernando Pessoa, com sua inquestionável sensatez, convida-nos a pensar lá do alto do pináculo de catedral da nossa conformada existência, no quão acomodados estamos diante de tudo que acontece ao nosso redor. Acostumamo-nos com tudo: com a violência, com a guerra, com a pobreza, com a corrupção, com as fake news, com a falsidade, com a mentira e com a mediocridade. Mas como não poderia deixar de ser, todas estas características são dos outros e não nossas ;)

Cazas_NovasNesse poema, percebemos ainda o motivo pelo qual as viagens, físicas e espirituais, podem girar em torno de si mesmas, colapsando no passado o no futuro, ecoando, desta forma, os paradoxos irónicos de Pessoa de uma forma genial. Com este sarcasmo construído de palavras que rimam, Caeiro incita-nos a não sermos conformistas, resignados e acomodados. Incentiva-nos a fazer pela primeira vez, a fazer diferente ou a fazer melhor. Porque senão, hoje, será sempre uma véspera de não partir nunca. 

Cazas_NovasEssa "oportunidade virada do avesso" de sermos buliçosos em espírito pareceu-me um bom complemento literário para os vinhos Avesso do projecto Cazas Novas. Em Santa Marinha do Zêzere, Baião, no sudeste da Região Demarcada dos Vinhos Verdes, já em pleno vale do Douro, esse novo projecto propõe uma viagem única pelo estudo e interpretação de uma das mais entusiasmantes e enigmáticas castas brancas portuguesas: o Avesso.

Cazas_NovasResultado da paixão de quatro empreendedores ligados ao sector do vinho, esta parceria dá-se a conhecer com o lançamento de duas novas referências no mercado: o Cazas Novas Avesso Colheita e Cazas Novas Avesso Pure, vinhos da colheita de 2019, num total de 26 mil garrafas produzidas, exclusivamente, com esta variedade tão exclusiva.

Cazas_NovasCarlos Coutinho (gestão agrícola e financeira), Diogo Lopes (enologia e viticultura), Vasco Magalhães (gestão comercial e marketing) e André Miranda (produção e gestão) são os parceiros e entusiastas que se propõem, literalmente, virar esta casta e estes vinhos do Avesso, potenciando novas expressões para uma variedade de enorme potencial. Esta casta icónica do sudeste da Região dos Vinhos Verdes, encontra na sub-região de Baião o seu campo de expressão mais vasto, mais genuíno e de maior qualidade. 

Cazas_Novas_Ali, já no Vale do Douro e nos solos pobres que marcam as vinhas de encosta, apresenta-se como uma variedade de viticultura difícil, mas vigorosa, apreciadora do clima seco, dos invernos frios e dos verões muito quentes. O resultado deste terroir é materializado em notas a flor de laranjeira, limonete, funcho, maçã verde, abacaxi, mineralidade crocante (pedra molhada), bom volume, frescura equilibrada e bonita harmonia aromática do amarelo-palha Cazas Novas Avesso Colheita 2019 (4,99 €, 81 pts.). 

Cazas_NovasConfesso, que gostei (bastante) mais do Cazas Novas Avesso Pure 2019 (12,99 €, 88 pts.), por ser um vinho que vai mais além do que normalmente encontramos num Avesso, é um vinho "que na véspera ja sabe que vai partir de viagem" ;). De cor citrina intensa e cristalina, exibe maçã verde, tangerina, pêssego, relva recém-cortada,  pedrogosidade (granito partido) e frescura assertiva.

Cazas_Novas No palato mostra-se muito guloso, complexo, fino, consistente, volumoso e surpreendentemente cremoso. Por momentos fez-me recordar um Chardonnay de clima frio. Ambos os Avessos, com forte mineralidade e frescura, foram muito bem com uma Orecchiette, azeite de trufa e revueltos de toucinho de porto preto e cogumelos Shimeji. A untuosidade mais acentuada do Avesso Pure, fez com que a harmonia fosse mais feliz.

Cazas_NovasParabéns por esta oportunidade virada do Avesso, com originalidade, terroir, identidade e uma elegância que não se quer fazer notar aliada ao cuidado subtil de se deixar distinguir. Dois excelentes heterónimos da casta Avesso, será que tal como em Pessoa, haverão mais alguns?  ;)

Orecchiette, azeite de trufa e revueltos de toucinho de porto preto e cogumelos Shimeji:

-Cozam a massa  Orecchiette durante 12 minutos;

-Enquanto a massa coze, num tacho grelhem num fio de azeite o toucinho de porto preto e cogumelos Shimeji, temperando com sal e pimenta branca;

-Passados 5 minutos acrescentem um pouco de Conhaque, deixem evaporar o álcool e acrescentem os ovos a gosto;

-Depois da massa estar al dente, juntem-na ao tacho, desliguem o lume, acrescentem um pouco de azeite de trufa, misturem e sirvam.

Barca-Velha 2011 | Adiado o lançamento (outra vez)...

Por esta não esperávamos...

Símbolo de uma eterna busca pela perfeição, Barca-Velha é um vinho que em cada detalhe se expressa. Um vinho alimentado a sonhos e certezas, da ambição em produzir o melhor do Douro e da convicção que cada edição lançada supera e dignifica um legado sem igual. É, portanto, um vinho que ao longo de quase 70 anos desafia o Homem na arte de saber esperar. A colheita de 2011, anunciada no final de 2019, com lançamento inicialmente previsto para maio de 2020, e finalmente apresentada à imprensa em setembro deste ano, está a revelar-se mestre neste ofício!

Barca Velha 2011A colheita 2011 do Barca-Velha parece amaldiçoada. Depois do lançamento já ter sido adiado uma vez, devido  à pandemia do Covid-19, o lançamento do novo Barca-Velha teve de ser novamente adiado. Desta vez, por problemas com ... rolhas. 

"A equipa de enologia do Douro da Sogrape, liderada por Luís Sottomayor, decidiu adiar a comercialização de Barca-Velha 2011 após uma operação de rearrolhamento recente dada a dificuldade em extrair as rolhas originais das garrafas. Preservar a longevidade do vinho e proteger a sua notoriedade e qualidade irrepreensível, entretanto já avaliada com nota máxima pela crítica nacional, foi o objectivo desta medida que, seguindo as boas práticas enológicas, e numa acção preventiva, tem como consequência a suspensão da entrada das garrafas de 75 cl de Barca-Velha 2011 no circuito comercial." Informa Manuel Guedes, Director do Clube Reserva 1500 da Sogrape. 

Barca Velha 2011Ao longo dos próximos meses, e como habitualmente acontece com todos os Barca-Velha, a equipa de enologia Douro da Sogrape monitorizará atentamente a evolução do vinho para poder assegurar uma decisão confiante e definitiva relativamente a esta colheita. Porque como Luís Sottomayor sempre defende e agora se confirma, o vinho é que manda!!!

Barca Velha 2011A ver se este "problema" se resolve porque o vinho é realmente avassalador. Certo, é que neste Natal, e ao contrário do esperado por muitos, não haverá Barca-Velha 2011 nas mesas. A empresa promete novidades relativamente a este assunto para 2021, aguardemos...

Estrada Nacional 2 | Alicerces de um país tomado aos tragos (II)

"Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são... A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos." Fernando Pessoa

EN2Aqui está de novo "o viajante" para vos continuar a contar a nossa estória na avassaladora EN2.  Se bem se recordam estávamos em Coimbra, no hotel Conimbriga Hotel do Paço. A apenas 10 minutos de carro podem encontrar as Buracas do Casmilo, ainda longe dos principais roteiros do país, este vale encantado permanece rodeado de natureza pura, onde a harmonia e a paz criam uma atmosfera única. 

EN2Dia 5:

As "buracas" situam-se a norte da Serra do Rabaçal, a poucos quilómetros de Condeixa-a-Nova, na aldeia de Casmilo. Chegados à aldeia, existem várias placas a indicar o caminho para esse excesso pavoneante da natureza. Este recanto serrano exibe orgulhosamente vertentes abruptas e nuas, onde existem vários abrigos rochosos, as chamadas “buracas”.

EN2Na verdade, estas inusitadas formações geológicas resultam de um abatimento da parte central de uma conduta que deixou a descoberto as suas partes laterais extremas de uma antiga gruta existente no interior do monte.

EN2A Bia, e todos nós, adoramos sentir a natureza no seu estado mais puro. A 20 minutos dali, outra atracção, esta já bem mais conhecida, as Ruínas de Conimbriga.  O conjunto de todas estas ruínas, o Museu Monográfico (construído nas imediações) e o castelo de Alcabideque consubstanciam um complexo arqueológico de peso mundial e que permite a reconstrução de uma importante era do grande Império Romano. 

EN2Junto com Mirobriga (Santiago do Cacém) e Tongobriga (Marco de Canaveses), formam o grande triângulo da memória romana em Portugal e são um Monumento Nacional desde 1910. Com a barriga já a dar sinais de alerta, a duas horas de distância estava o nosso almoço, em Abrantes, na Casa Chef Vitor Felisberto.

EN2Quem se interessa por estas coisas da gastronomia sabe que o Chef Vitor Felisberto é uma enciclopédia culinária, um mentor de alguns dos mais afamados chefes do país e uma lenda viva da melhor gastronomia portuguesa. Estudou na prestigiada Cordon Bleu, conquistou uma estrela Michelin em dois restaurantes por onde passou (Aquarius Caldea - Andorra e Portal - Reino Unido) e vendeu a sua receita de fondant de chocolate à Nestlé.

EN2Deste 2018 está em Abrantes, a 100 metros da EN2, a "passear-se" com a excelência do seu currículo. Pratica uma cozinha aparentemente simples, mas refinada, carregada de sabor e potenciador das mais valias dos ingredientes frescos e locais. Comi lá dos melhores pratos desta viagem, umas Ovas de Choco com azeite, alho e coentros divinais, um Bacalhau no forno com batata a murro  fino, delicado e untuoso, um Pernil confitado em forno a lenha super saboroso, rico, e sedoso (fica a cozinhar durante a noite para adquirir esta textura de veludo) e um Assado Misto com naco de vitela e cachaço de Porco preto tão intenso quanto prazeroso.

EN2Quem me conhece sabe que não sou muito de doces, sobretudo depois de um repasto intenso e epifânico como o anterior, no entanto, a Tarte Tatin com crumble e gelado de baunilha,  o Pastel de Nata Fondant com shot gelado de canela e nata (imagem de acima) e o Cremoso de Brownie com gelado de caramelo e nozes são propostas às quais não se consegue ficar indiferente. Sobranceria nos aromas, riqueza nos sabores, originalidade nas texturas e genialidade na confecção. Do melhor que se faz no nosso país!!!

EN2

Este almoço demorou mais de 3 horas e foi regado com alguns dos melhores vinhos regionais. Abrantes é um daqueles lugares pelos quais, sempre que passei, foi em viagem para outro sitio qualquer, mas descobri, neste dia, que é uma cidade muito atraente e interessante, onde para além deste restaurante soberbo há ainda um centro histórico muito bem conservado, um castelo e uma fortaleza, que valem, sem dúvida nenhuma, uma visita. 

EN2A igreja de Santa Maria do Castelo iniciada no século XIII e ampliada no século XV situa-se no interior das muralhas do castelo e possui uns motivos góticos muito interessantes e enigmáticos. Há também um atraente parque ribeirinho que permite umas fotos engraçadas ;)

EN2 Deixando Abrantes, entramos no Alentejo. A estrada flui por entre planícies belíssimas e pequenas povoações. É também aqui, onde na minha opinião, começa a parte mais bonita, serena e autóctone da estrada. Passado uma hora de conversa com a EN2 chegamos a Mora, uma aldeia que nos oferece a oportunidade de conhecer inúmeros monumentos megalíticos e uma estação de caminhos de ferro parada no tempo. Há ainda que visitar a Igreja da Misericórdia do século XVI e a igreja paroquial de Nossa Senhora das Graças dos séculos XVI e XVII, respectivamente.

EN2

Um desvio de meia hora levou-nos ao Pateo dos Solares Charm Hotel em Estremoz. Um hotel boutique que nos permitiu ter um acesso privilegiado ao movimento da cidade, às suas gentes e ao comércio local. Encostado à muralha da cidade, donde se avista o castelo medieval e a cidade velha, o hotel debruça-se sobre o horizonte da paisagem alentejana e as suas cores quentes.

EN2De um requinte sóbrio e intemporal, o hotel é ideal para aqueles viajantes que procuram a serenidade das planícies alentejanas, a história local, a boa gastronomia e a excelência dos vinhos ( e aguardentes e gins ;)) alentejanos. O restaurante Alentejo à Mesa, coração do hotel, oferece uma selecção de pequenos pratos de degustação, perfeitos para experimentar e petiscar os vários sabores alentejanos.

EN2 Gostei, particularmente, da vegetalidade crocante dos Espargos em tempura, da voluptuosidade fresca da Açorda Alentejana com bacalhau e ovo e da intensidade da Pluma de porco preto, migas de espargos e chips de batata. Nas sobremesas é dado um toque extra de elegância e sofisticaçao com a Queijada de requeijão com morangos, com Encharcada com crumble e sorbet de tangerina e com o Duo de chocolate. Inovação e tradição de mãos dadas, em plena planície alentejana ;)

EN2

Dia 6:

A manhã seguinte foi reservada para conhecer Estremoz. Com vinhas imensas e planícies douradas, esta freguesia histórica, protegida pelas suas muralhas, tem a alcunha de "Cidade Branca",  pela profusão de mármore branco extraído nas suas imediações. As casas e monumentos espalhados pela vila são feitos com este material, conferindo-lhes um brilho irresistível. 

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Guardem 3 horas para visitar o Castelo (ao pé da torre de menagem há uma praça com uma estátua de santa Isabel de Aragão, a do  milagre das rosas, que morreu neste castelo em 1336), a Capela da rainha Santa, Núcleo Medieval e a Praça Luís de Camões. 

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Depois de retomarmos a EN2 em Mora,  descemos até Montemor-o-Novo e fizemos novo desvio, este de 20 minutos, até Évora, onde iríamos "assentar praça" durante 2 dias para conhecer esta cidade e algumas vilas na sua vizinhança.  E não há melhor local para começar a conhecer Évora que a Enoteca da Cartuxa ;) Um local onde ao património cultural e vitivinícola da Fundação Eugénio de Almeida se junta o legado da gastronomia alentejana, em pleno Centro Histórico de Évora. 

EN2Com uma arquitectura de linhas depuradas, sublinhada pelo branco das paredes e pelos tons pasta da madeira e avermelhados do mobiliário, a Enoteca evoca o ambiente informal de uma taberna, trazendo-o para a contemporaneidade através de uma harmonia perfeita entre os vinhos da Adega Cartuxa e a cozinha regional interpretada e reinventada de forma actual.

EN2Deliciem-se com o Gaspacho com presunto, com a Sopa de tomate, com o lombo de bacalhau, puré de grão, cebola roxa avinagrada e azeite de salsa, com o ovo escalfado, hortelã e chouriço frito,  com a Bochecha de porco preto e com as migas de espargos com lombinhos de porco de vinha d'alhos. Para o final nada melhor que um Pudim de azeite, salada de laranja e azeitonas. Sobre os vinhos, falamos um dia destes ;)

EN2Pernoitamos dentro das muralhas, em pleno centro histórico da cidade, no Évora Olive Hotel. Um espaço que veio revitalizar um edifício icónico e histórico da cidade de Évora – o Centro Comercial Eborim – transformando a área comercial e o lugar onde se assistiam filmes, num hotel aberto a todos os visitantes internacionais, regionais e locais.

EN2Inspirado na temática do azeite, este hotel promove verdadeiras experiências sensoriais para todos aqueles que querem conhecer mais sobre esse néctar dourado  (provas de azeite e massagens relaxantes). Está a escassos minutos a pé de vários pontos de atracção cultural e de lazer que se podem descobrir nesta cidade pitoresca, medieval e com um importante legado deixado pelos romanos e mouros: o Templo de Diana, a Praça do Giraldo, a Sé Catedral de Évora e a Capela dos Ossos. Tem ainda um restaurante impecável, do qual vos falarei mais à frente.

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Dia 7:
 
Com a Bia "no comando" o sétimo dia começou com em Monsaraz, o recanto oriental do Alentejo. A poucos minutos da fronteira espanhola, esta cidade mudou de aparência início dos anos 2000 com a construção da Barragem do Alqueva, em pleno Guadiana, inundando o vale e formando um imenso espelho de água. A paisagem vislumbrada a partir do alto de castelo, com a albufeira serenamente adormecida na planície alentejana e os recortes suaves das suas margens são absolutamente deslumbrantes.
 

EN2A antiga vila de Monsaraz funciona como um museu vivo, erguida no topo de uma colina esguia e defendida por muralhas medievais. As ruas construidas com paralelo, apesar de darem um encanto especial ao centro histórico dificultam um pouco a vida a quem quer conhecer os seus segredos a pé e com carrinhos de bebé (o melhor mesmo é deixar o carrinho na carrinha ;)), mas o esforço vale bem a pena.

EN2A rua principal é cercada por paredes, numa mistura de medieval e moderno, permitindo o acesso a caminhos secundários, sem carros ladeados por chalés de xisto e casas caiadas de branco com lojas de artesanato e restaurantes tradicionais. O ambiente é silencioso e a falta de carros provoca a sensação de termos entrado num túnel do tempo. Há ainda capelas, pelourinhos e igrejas à espera da vossa visita.

EN2Depois de um belo almoço num dos restaurantes típicos de Monsaraz, seguimos para Montemor-o-Novo. Há, obrigatoriamente, que dar um passeio pelas ruínas do castelo e da cidadela "enmuralhada", que datam dos séculos XIII e XVII, respectivamente. Esta vila possui ainda um esplêndido portal manuelino sobre a Igreja da Misericórdia do século XVI.

EN2De realçar ainda a deslumbrante arquitectura manuelino-mudéjar dos séculos XVI e XVIII  da Ermida de Nossa Senhora da Visitação pintada a azul e branco. Por tudo isto, Montemor-o-Novo merece, sem sobra de dúvidas, uma tarde para que se possam perder nos seus recantos. 

EN2Regressamos ao Évora Olive Hotel já de a anoitecer e depois de um retemperador e merecido banho na piscina em pleno centro histórico de Évora, era chegada a altura de conhecer o restaurante do hotel, o Merecaria Eborim

EN2Um espaço de partilha e conforto por excelência, original no design e muito bem enquadrado na mini-mercearia do hotel e com vista para o pátio das oliveiras, um recanto de eleição exterior que convida e favorece o slow eating, entre amigos e família. A gastronomia é de inspiração contemporânea, nunca descurando os produtos e pratos com sotaque alentejano.

EN2Aconselho vivamente o misto de tradição e inovação do surpreendente O nosso Caldo Verde de Cação, a brisa marítima fumada e fresca do Duo de Salmão (carpaccio e curado), Salada funcho e Maçã, Pickles de Mostarda e Molho de Iogurte fumado, a elegância gulosa do Tamboril lardeado em Toucinho fumado, Risotto de Ervilha e molho de Vinho licoroso e a voluptuosidade aromática das Bochechas de porco preto sobre risotto de espargos trigueiros.

EN2Para sobremesa, um conceito que não conhecia, um ... pijama ;) Consiste numa mistura de várias sobremesas, para que consigamos provar de tudo um pouco, incluindo o sabor intenso e mentolado da Mousse de Cerejas e Mirtilos com Gelado de Poejo, a exoticidade do Mel e Noz da região, Creme de Limão e Gelado de Canela, a riqueza do Semi-frio de Chocolate Negro e Crumble de Frutos Vermelhos com Gelado de Tangerina e a voracidade tradicional da Triologia Conventual com Gelado de Manjericão e Nougat de Pinhão.

EN2Um menu muito rico, moderno, coerente mas que não "fica a dever" nada ao legado do receituário tradicional alentejano. Uma palavra ainda para o profissionalismo, amabilidade e "boa onda" do chefe de sala José Luis Santa Bárbara, que teve ainda a gentileza de nos dar a conhecer alguns dos melhores vinhos da região. 

Dias 8 e 9:

O dia anterior acabou com comida, o oitavo começaria com ... comida, desta vez chocolates, na fábrica de chocolate do  Palacete da Real Companhia do Cacau, em Montemor-o-Novo e a 100 metros do local onde retomaríamos a EN2.

EN2Escusado será identificar a pessoinha que gostou mais desta visita :P Construído no final do século XIX, o palacete promove hoje em dia uma simbiose perfeita entre o turismo de habitação de charme e o chocolate gourmet. Tirem duas horas (ou uma noite) para conhecerem o espaço e perceberem como se fazem alguns dos melhores bombons do país. A visita à fábrica do chocolate é simplesmente ... deliciosa ;)

EN2Deixando o Altentejo e entrando no Algarve, temos a despedida gloriosa da EN2: a Serra do Caldeirão e as suas 365 curvas. Uma por cada dia do ano e suficientemente suaves para tornarem esta parte final do trajecto extremamente prazeroso. O último marco da EN2 encontra-se em plena Avenida Calouste Gulbenkian, na cidade de Faro. Quase que temos de tirar ticket para conseguirmos uma boa foto na rotunda onde se encontra o marco 738, tal é a quantidade de gente que lá se amontoa.

EN2

Dado o elevado numero de turistas e fama que a estrada começa a ter, esta parte final tem de ser repensada, não faz sentido ter o marco que anuncia o final da EN2 no meio da rotunda com maior movimento do Algarve. 

EN2Mas como Roma e pavia não se fizeram num dia, pode ser que este pequeno "acerto" seja feito num curto espaço de tempo, a EN2 (e quem percorreu os seus 738 km) merece um final mais triunfante, honroso, dignificante e ... intimista.  

EN2Assim que chegarem a Faro, no final da vossa jornada épica, explorarem, com tempo, esta cidade que é um dos meus lugares favoritos no Algarve e está cheio de história e pontos que merecem a visita, como a marina, a cidade velha, a catedral (que remonta ao século XII e já foi reconstruida devido ao terramoto de 1755, o Parque Natural da Ria Formosa e a Igreja da Nossa Senhora do Carmo (do século XVIII, de inspiração barroca  e ornamentada com uma reluzente folha de ouro do Brasil).  

EN2A 20 minutos do marco 738 da EN2 estava o Hotel que escolhemos para festejar o final desta eopoeica viagem: o sedutoramente cosmopolita Crowne Plaza Vilamoura. Beneficia de uma arrebatadora localização à beira mediterrâneo e possui uma mega piscina, um ostensivo SPA, 3 restaurantes, inúmeras salas de reunião, um kids club (dedicado à temática dos piratas) e um pequeno almoço divinal ;)  Moderno, contemporâneo e elegante, é perfeito para estadias a dois ou em família.

EN2Os quartos suntuosos, luminosos, arejados, espaçosos e com muito bom gosto (e serenidade) na decoração são complementados por um serviço profissional, competente, próximo e eficiente para que os hóspedes possam experimentar uma estadia totalmente revitalizante.  Foi das suites mais bonitas em que estive, e que, provavelmente, ajudou "a desempatar" a dúvida que tinha relativamente ao melhor hotel deste ano ;)  

EN2De realçar ainda, e muito importante nos tempos em que vivemos, que o Crowne Plaza Vilamoura implementou algumas novidades para os hóspedes, adaptadas à nova realidade do COVID-19, a juntar aos vários serviços de luxo que já oferecia e que nos fez desfrutar ao máximo de todas as suas ofertas mas num ambiente super seguro. É justo acrescentar, que em todos os espaços que incluímos neste "guia" essa preocupação/necessidade com a segurança esteve sempre presente de uma forma cuidada mas subtil.  

EN2Depois de nos deliciarmos com todo o conforto, luxo e requinte deste hotel fomos jantar ao Old Navy,  a apenas 10 minutos de uma bonita caminhada a pé e com um ambiente perfeito para jantares especiais. A refeição é acompanhada por uma vista deslumbrante para a Marina de Vilamoura e por (boa) musica ao vivo.

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O Old Navy funciona quase como uma bolha gastronómica, que nos faz sair do ambiente frenético que pincela a marina e enquanto nos concede uma bela refeição, por entre gambas "al ajillo", polvo à lagareiro, risoto de carabineiros e um soborosissimo e original Salmão "Old Navy" com azeite, alho, cebola e tomate assado, servido com legumes salteados. Para os mais gulosos há ainda Dame blanche", tarte de maçã caramelizada, cheesecake de morango, banana split e gelados caseiros

EN2Tem tudo para se tornar num dos hotspots de Vilamoura. Vilamoura não é a mais tradicional das cidades portuguesas, mas sendo uma das maiores cidades resort da Europa, tem uma infinidade de restaurantes, lojas, campos de golfe e clubes que enriquecem a nossa estadia.

 EN2O centro de toda a acção/atenção é a marina com mais de 1.000 ancoradouros, repleta de iates e cercada por apartamentos de luxo. Na marina também é possível fazer passeios de barco para observar golfinhos ou alugar um barco para a pesca desportiva.

EN2Há também o local histórico do Cerro da Vila, onde as ruínas de uma antiga vila romana foram descobertas. Posteriormente aos romanos a vila foi ocupada por forças visigodas e mouras até à reconquista da região por parte dos cristãos.

EN2Depois de 3 dias  maravilhosos de relaxamento e diversão, era chegada a hora de dizer “até já” ao mediterrâneo e ao principesco Crowne Plaza Vilamoura - Algarve e de uma divertida viagem até Coimbra para pernoitar no Stay Hotels Coimbra.

EN2Sendo nós de Guimarães, optamos por dividir a viagem de regresso em duas partes, para ser mais cómodo e para nos permitir mais um momento de puro prazer, mas já falamos dele ;) Localizado no coração de Coimbra, o Stay Hotel Coimbra Centro é o ponto de partida ideal para descobrir os encantos da cidade, seja em lazer ou em negócio.

EN2Garante um estadia cómoda e confortável com uma decoração contemporânea elegante e uma excelente relação qualidade-preço, ideal para uma estadia descomplicada (mas em segurança) como a nossa.

E assim acordamos para o final da nossa aventura na EN2. Gosto sempre de guardar algo "em grande" para o final, para não começar a "deprimir", antecipadamente, com o final da viagem.

Dia extra:

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A “cereja no topo do bolo” desta viagem seria um almoço no restaurante DOC: uma cozinha moderna, inovadora, criativa, mas ao mesmo tempo, com história, tradição e memória ... uma cozinha à Chefe Rui Paula

EN2Materializa-se numa janela degustativa com uma vista arrebatadora para o Douro e assente no sabor, nas emoções e nas sensações. 

EN2Quanto ao menu, gostei muito da Nossa sopa de peixe e os frutos do mar  que possuia um aroma elegante, com a brisa maritima de cada um dos peixes bem conjugada com as pitadas de sabor e ligeira untuosidade do caldo. O "cheira só isto nunu" exclamado pela Bia, mostra que até ele ficou encantada com esta sopa.

EN2O Arroz caldoso de peixe e lavagante com um sabor inspirador a mar único e inconfundível, combina influências, sabores e aromas. O peixe, o marisco e o arroz, cozinhados no ponto e como manda a tradição, absorveram os sabores das cebolas, do alho, do pimento, da salsa  e das especiarias dando origem a um aroma muito intenso, rico e heterógeniamente equilibrado. Adorei a textura do camarão, a frescura do malandrinho e a untuosidade do arroz ..  A harmonia voluptuosamente construída é diga de realce.

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O meu prato favorito foi, no entanto, o Lombinho de vitela Maronesa, aipo e cogumelos estava avassaladoramente refinado e saboroso, com uma imensidão de texturas e sabores complementares. A carne tinha um sabor pleno e intenso, derretendo-se na boca e solidificando na alma.

EN2O gosto assertivo e anisado do aipo, o sabor delicado dos cogumelos e a redução de vinho enobreceram um prato que foi mais uma lição de equilíbrio, de aromas, de texturas, de sabores e de cores. Para a sobremesa: Crepe crocante de leite creme e frutas exóticas.

EN2A textura crocante de massa filo combinou na perfeição com a cremosidade leite creme, onde a doçura destes foi balançada com a frescura das frutas exóticas (pitaia, ananás, framboesa, fisális, maracujá, papaia, groselha e melão) e a acidez do sorbet de citrinos. As amêndoas laminadas crocantes e ligeiramente salgadas acrescentam uma camada extra de sabor e textura. Rica, inteligente e deliciosa.

EN2E foi assim que terminou a nossa EN2, um guia não só pelas suas curvas e contra-curvas, mas também pelas suas gentes, pelos seus vinhos, aromas, sabores e costumes. Uma estrada que serpenteia por entre alguns dos mais belos alicerces do nosso país, que fomos tomando aos tragos e sem pressas. Obrigado a todos os parceiros que tornaram possível esta jornada (espero ter dignificado aquilo que fazem) e também à minha família por me aturarem, ininterruptamente, durante estas duas semanas ;)

EN2

Para o ano, por esta altura, há mais, numa estrada "perto de si" ;) Termino com Bob Dylan, que faz uma resenha precisa daquilo que foi esta nossa experiência (não conhecendo, muito provavelmente, a EN2 ;)):

"A felicidade não está na estrada que leva a algum lugar. A felicidade é a própria estrada." 

Dona Berta | O outro crime do padre Amaro

"Oh senhor pároco! dizia ele a Amaro, por quem é! mais um bocadinho de cabidela, faça favor! Essas codeazinhas de pão ensopadas no molho! Isso! isso! Que tal, hem? - E com um aspecto modesto: - Não é lá por dizer, mas a cabidela hoje saiu-me boa!" Eça de Queiroz

Dona BertaEça de Queiroz defendia que o carácter de um povo podia ser inferido pela maneira como comiam e bebiam. Um lombo preparado em Portugal, em França, ou Inglaterra, talvez faça compreender melhor as diferenças intelectuais destes três povos do que o estudo das suas literaturas, dizia ele.  Pegando num pensamento de Jean Antherlme Brillat-Savarin (diz-me o que comes, dir-te-ei quem és), Eça completou-o relacionando parte do que somos com muito daquilo que comemos. 

Dona BertaNunca ninguém conseguiu usar a comida como ferramenta literária de uma forma tão rica quanto a de Eça. Iniciou este caminho literário-gastronómico com aquele que é o seu primeiro grande romance, «O crime do Padre Amaro». Quem não se recorda, por exemplo (não, não vou falar da Soraia Chaves ;)), do célebre jantar do abade de Cortegaça, oferecido por este aos seus colegas do clero, e no qual constava uma invenção ímpar do abade: a famosa cabidela, que fazia dele "um divino artista".

Dona BertaJantar esse que finalizou com um vinho do Porto de 1815 e onde foi discutido a importância da comida e do vinho na cultura e na sociedade. A escrita de Eça nessa obra, também neste aspecto, é deliciosa. Quando, aparentemente, nos descreve um jantar, louva determinado prato e caracteriza certo vinho, vai paulatinamente, discretamente e subversivamente expondo a sua visão corrosiva e muito bem humorada do mundo que o rodeia.

Dona BertaEnquanto nos vamos apercebendo deste jogo Queirosiano, vamos simultaneamente ficando encantados com a descrição da mesa e quase que conseguimos compartilhar o prazer dos comensais ao saborearam a cabidela e vinhos que a acompanharam. A publicação de hoje tem exactamente a ver com isso: com comida, com vinhos, com as sensações/emoções que nos provocam (sozinhos ou harmonizados) e também com uma cabidela ... e com um  outro crime do padre Amaro ;)

Dona BertaOs vinhos sobre os quais vos irei falar são os Dona Berta. Terroir, identidade, qualidade, exigência, tradição, dedicação e inovação são os princípios basilares desta casa. O projecto iniciou-se há cerca de 40 anos, quando Hernâni Verdelho promoveu a reconversão e beneficiação do seu património vitícola de vinhas velhas, seguido da plantação de vinhas novas, a maior parte das quais localizadas na Quinta do Carrenho (Vila Nova de Foz Coa), que se encontram implantadas em terrenos de encosta de média altitude, xistosos, abrigados e com excelente exposição solar.

Dona BertaTodo este trabalho tornou possível a existência de um complexo vitícola com cerca de 15 hectares e com excelentes características para a produção de vinhos, implantado num terroir específico e sui generis, classificado como património mundial pela UNESCO desde o ano 2001, onde cerca de metade são vinhas com mais de meio século.

Dona BertaApós o falecimento do Eng. Hernâni, no ano de 2011, a casa passou a ser gerida pelos seus Herdeiros – a esposa (Maria Fernanda Verdelho) e os filhos (Isabel Andrade e Pedro Verdelho), que continuaram este projecto com a mesma dedicação e amor do seu fundador. Foi a esposa que há uns anos me apresentou os vinhos Dona Berta, no Festival do Vinho do Douro Superior 2017.

Dona BertaVoltei a conversar com alguns deles há uma semanas, e é sobre essa conversa intimista que vos escreverei agora. Começando pelo Dona Berta Espumante Reserva Rabigato 2017 (21 €, 88 pts.), de bolha fina e persistente e de cor amarela citrina, exibe no nariz limonete, flor de laranjeira, brioche e uma forte mineralidade (xisto molhado).

Dona BertaA boca é elegante, fina, segura e bastante fresca. Precisa, apenas, de uns meses em garrafa para ganhar equilíbrio e largura. Tem tudo para ser grande ;) Acompanha muito bem um bolo de bolacha.

Dona BertaPara acompanhar a já anunciada cabidela (feita pela senhora minha sogra, uma divina artista nestas coisas da gastronomia tradicional) escolhi o Dona Berta Sousão Reserva 2015 (16.5 €, 91 pts.). De cor rubi escura, muito densa e profunda exibe no nariz mirtilos, chocolate preto,  algumas violetas, pimenta preta e uma mineralidade quente (xisto partido). 

Dona BertaNo palato mostra uma acidez vibrante, boa intensidade e uns taninos ligeiramente adstringentes que não agridem mas enriquecem. Precisa de uns bons anos em garrafa para se expressar em todo o seu esplendor. Foi optimamente bem com o "exagero voluptuoso", intensidade e acidez da cabidela. 

Dona BertaPara último e ao contrário do anterior, um vinho que está pronto a beber: o Dona Berta Vinha Centenária Reserva Tinto 2012 (38 €, 92 pts.). Rubi não muito denso no traje, carrega aromas de mirtilos, ameixa vermelha confitada, esteva, sous-bois, baunilha e alguma pedregosidade. O palato é polido, complexo, fino, equilibrado e fresco. É um vinho "tagarela" com o qual dá muito prazer conversar.

Dona BertaO outro crime do padre Amaro, para além do assassinato do próprio filho e da quebra do voto de celibato clerical com a sedutora Amélia, foi o de não ter combinado a bela cabidela do abade de Cortegaça com um Sousão como o que vos falei hoje, é que a ir para o inferno, que seja pelos motivos certos (os gula-eno-gastronómicos ;)).

 

Arroz de Cabidela:

-Refoguem num tacho com azeite uma cebola, 4 dentes de alho picados e uma folha de louro;
- Pelem o tomate (200g), piquem em pedaços pequenos e juntem ao refogado. Deixem cozinhar, mexendo de vez em quando até o tomate estar bem macio;
-Acrescente o frango, temperem com sal e pimenta e deixem cozinhar, com o tacho tapado, durante cerca de 10 minutos, sobre calor moderado;
- Adicionem água quente até cobrir o frango, voltem a tapar e deixe ferver suavemente durante mais 20 minutos. Acrescentem um pouco mais de água a ferver de modo a ficar com o triplo do volume do arroz. Rectifiquem o sal, se for necessário, e assim que a panela retomar fervura, coloquem o arroz. Mexam e tapem.
- Passados 10 minutos, acrescentem o sangue, previamente misturado com o vinagre (3-4 colheres de vinagre). Mexam bem e deixem ferver mais 1-2 minutos. Retirem do lume e sirvam de imediato.

Estrada Nacional 2 | Alicerces de um país tomado aos tragos (I)

"É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava... É preciso recomeçar a viagem. Sempre." José Saramago

EN2Depois deste ano de confinamento e do "vá para fora cá dentro", poucos de vocês ainda não devem ter ouvido algo sobre a Estrada Nacional 2 (EN2), a estrada mais longa de Portugal, antiga Estrada Real e que liga Chaves, logo abaixo da fronteira norte do país, a Faro, na costa sul e que lhe permite, desta forma, beijar o mediterrâneo. No mundo, há apenas mais duas que cruzam toda a extensão de um país, sendo as outras a Route 66 nos EUA e a Ruta 40 na Argentina (depois da EN2 vai-nos "faltar apenas" a estrada argentina no currículo).

EN2Construída/unida em 1945 a EN2 já foi a principal via de passagem pelo centro do país, ligando aldeias típicas, vilas e cidades antigas. Os seus 739 quilómetros serpenteiam por entre uma paisagem em constante mutação. Há montanhas, planícies, florestas, plantações de sobreiros, vinhas (e vinho ;)), cordilheiras rochosas, vales verdejantes e vastos reservatórios de água.

EN2Dia 1:

Mas essa é a história que, provavelmente, já ouviram contar. A nossa vai ser um pouco diferente. Aproveitando o facto desta estrada nos permitir conhecer a diversidade de um país mais interior, vamos "usa-la" para descobrir os sítios, os aromas e os sabores que normalmente ficam fora das luzes dos holofotes (neste caso, dos faróis dos carros ;)). 

EN2 Vamos na estrada, mas não nos vamos cingir a ela. Se houver qualquer coisa a descobrir a 30 minutos de viagem dela, com certeza que lá iremos. Este é um "guia de viagem", em nove etapas, para quem gosta de viajar devagar, sem pressas, para quem não consegue não sair do caminho e experimentar a vida quotidiana em cidades e vilas autênticas, longe das multidões de turistas e perto das pessoas que nela (dela) vivem. Esta é a nossa EN2, vivida, sentida, cheirada e provada...

EN2Sendo nós de Guimarães, o primeiro dia ficou reservado para sair da antiga e imaculada capital do reino, berço da nação, alugar uma carrinha de 9 lugares (aconselhamos a Discover Cars, desaconselhando completamente, energeticamante e veemente a SurPrice) e chegar a Chaves. Para além dos 4 do costume, "levamos" connosco os nosso cunhados Luís e Sylvie, que por vezes se juntam a estas nossas aventuras.

EN2O "toca a reunir" da viagem deu-se na novíssima Quinta Dona Adelaide Olive Nature Hotel & Spa, em Valpaços. Um local surpreendente (tenho a certeza que vão ouvir falar muito dele), pitoresco, agradável e com um restaurante ... impecável. 

EN2Com um ambiente clássico e simultaneamente confortável, onde os ex-libris são os fumeiros produzidos na Quinta este restaurante é verdadeiramente inesperado, pois promove uma  combinação perfeita e deliciosa com os outros produtos da região, como o azeite e a castanha.

EN2Fica a apenas 20 minutos do km0 da EN2 e com os seus jardins, piscinas, SPA e conforto é o local ideal para ultimar os últimos detalhes da viagem, guardando sempre espaço para algum inesperado ;)

EN2

Dia 2:

Depois de uns ovos mexidos com bacon e cogumelos acompanhados por um belo espumante da região (basicamente este inicio de dia manteve-se inalterado durante toda a viagem ;)) fizemos os primeiros quilómetros da EN2. Chaves tem um centro histórico encantador com edifícios medievais ao redor do castelo. 

EN2O muito fotografado marco do km 0 situa-se numa rotunda do outro lado da ponte romana que conduz a esse centro histórico. Há lá perto um bar, o km 0, que merece a visita e um brinde para marcar o inicio da viagem. São precisas 2-3h para visitarem Chaves.

EN2As curvas seguintes levaram-nos a Vila Real e à bela região vinícola do Douro. Vila Real é uma cidade agradável e (ainda) não (demasiado) turística, com alguns edifícios históricos interessantes e uma atmosfera agradável e muitas lojas e restaurantes. 

EN2Há ainda uma catedral gótica, algo sombria, do século XV, a Igreja de São Domingos, que é um contraste arquitectónico gritante com a Igreja da São Pedro, iniciada no século XVI, mas com tratamento barroco completo no século XVIII. E claro, há ainda as avassaladoras vistas do Douro. 

EN2Paramos para almoçar no magnífico Cais da Villa. Um espaço de memória e modernidade edificado num espaço com valor histórico, elegância e conforto, resultado de uma reabilitação cuidada do centenário armazém ferroviário da estação de Vila Real. 

EN2Neste espaço de ambiente informal funciona o restaurante à carta, o wine bar com serviço de tapas e bifes, a garrafeira, uma esplanada (para os dias de sol) e um balcão a toda a largura, aberto sobre a cozinha do restaurante, que deixa antever um festival de sabores, texturas e cheiros. 

EN2A conduzir este comboio gastronómico está o Chefe Daniel Gomes que criou um menu de degustação sedutor, rico, complexo e que na sua heterogeneidade, no final, faz sentido nos sentidos que nos desperta. 

EN2Um menu fino, elegante, inteligente que, com certeza, orgulha Douro e a gastronomia da região transmontana. É harmonizado com a mestria do escanção Luís Ferreira, que retira o melhor de cada vinho para fazer sobressair os sabores no palato. 

EN2Não posso deixar de destacar a frescura e acidez viciante do Gaspacho de Tomate Coração de Boi, melancia e vieira braseada, a untuosidade requintada da Presa de Porco Bísaro com favas guisadas, couscus transmontanos e fumeiro tradicional e o "petit gâteau" com alma duriense materializado no Pão-de-ló à CAISDAVILLA, uma das melhores sobremesas deste ano.

EN2Qualquer um destes pratos, merece por si só uma viagem, no entanto o Cais de Villa está apenas a 500 metros da EN2, é um crime não o visitar. Peçam uma garrafa do Quinta dos Lagares Reserva 2017, apaixonem-se pela cozinha de excelência que por lá se pratica  e sejam felizes ;) 

EN2O final de tarde foi passado no  Pena Park Hotel onde abraçamos a natureza. Um desvio de 15 minutos da EN2 (a partir de Vila Pouca de Aguiar) justificado pelo contexto autóctone do hotel, pelo seu conforto, pelos espaços de lazer, pelas piscinas reconfortantes e pelo bem estar induzido pelo SPA Natureness com vista fantástica para a floresta.

EN2Como é óbvio e não poderia deixar de ser, a gula também teve algo a ver com esta escolha ;) O restaurante do hotel, o Biclaque com a assinatura do Chefe Vítor Miranda é super afamado pelas suas sobremesas.

EN2A paisagem natural envolvente proporciona-nos um enquadramento perfeito para desfrutar dos sabores da região enquanto desfrutamos dos paladares mediterrânicos reinventados numa oferta gastronómica única e enriquecida pelos sabores de S. Tomé e Príncipe, como resultado de uma viagem recente do Chefe.

IMG_10336.JPGApesar de todo o menu apresentar sentido, alma e tradição, destaco a frescura dos peixes (salmonete e robalo), a riqueza, sabor e originalidade na apresentação da alheira, a textura da suculenta Costela de Novilho maturada e claro, o alto nível das sobremesas:

EN2 Desde o Irashaimase (uma espécie de bola de Berlim gourmet e fina), até ao S. Tomé com espuma de baunilha de S. Tomé, calda da polpa de cacau, macarons com café arábica, base de chocolate a 100% e sementes de cacau (e mais uns 10 elementos... ;)) passando pela deliciosa e abastada Tarte sablé de framboesa com gelado de morango e pimentão e espuma de morango, tudo é genuinamente electrizante.

EN2

Dia 3:

Altura de retomar a EN2  em Vila Pouca de Aguiar e voltar ao Douro, fazendo uma paragem no Peso da Régua. Deu tempo para passearmos junto ao rio,  atravessar a ponte pedonal e visitar o Museu do Douro, onde aprofundamos conhecimentos sobre a história fascinante desta região.

EN2Este é um museu vivo, no qual também podemos treinar o nosso nariz com os diferentes aromas do vinho, fazer diversas provas que enriquecem o nosso palato e visitar um dos melhores e mais recentes restaurantes da região: A Companhia.

EN2O Chefe Fábio Paiva orquestrou um menu com alma duriense e corpo de autor irreverente: Cogumelos recheados com queijo e alheiraOvo mal cozido, Gambas ao molho de vinho do Porto, Bacalhau com crosta de amêndoa e castanha e o Medalhão de vitela com queijo da Serra são cartões de visita cujos nomes são aparentemente demasiado simples, para a complexidade, riqueza e originalidade daquilo que nos chega à mesa.

EN2Um constante e camaleónico jogo de temperaturas, aromas, sabores e texturas que agrada tanto ao palato como ao intelecto ;)

EN2As sobremesas, o Pastel de Leite-Creme com Gelado de Canela e a Mousse de Chocolate Branco e Morango com Tapioca e Pérolas de Limão, confirmaram aquilo que eu já achava, que o Fábio vai muito longe, é só dar tempo ao tempo e ... condições ao "rapaz" ;)

EN2Depois de uma pausa para o café ( e para uns copitos de Porto, como não poderia deixar de ser ;)), foi tempo de dizer "até já" ao Douro e deixar as suas curvas, socalcos e vinhas património mundial para trás. Paragem seguinte, já do outro lado do rio: Lamego. Cidade famosa pelo santuário da Nossa Senhora dos Remédios no topo de uma colina.

EN2Dá para ir de carro, mas é muito mais agradável a subida pela escadaria monumental. Há ainda inúmeros restaurantes, cafés e muitas mesas de piquenique ao longo da avenida principal. Se tiverem tempo dêem um salto ao Museu de Lamego, que fica situado no antigo Palácio do Bispo e que possui alguns azulejos maravilhosos (pintados à mão) e outras obras de arte notáveis. Tirem 3 horas para Lamego.

EN2Regressando à EN2, o percurso entre Lamego e Vila Nova de Poiares torna-se mais sinuoso, demorado e pitoresco. Reservem duas horas para este percurso e aproveitem para irem conversando com a estrada.

EN2Saímos da EN2 em Vila Nova de Poiares para visitar Gondramaz (viagem de 30 minutos), uma graciosa, inusitada e misteriosa aldeia de xisto, para mim, um dos pontos que recordo com mais saudade da viagem.

EN2Miguel Torga, em 1935, enquanto médico em Vila Nova de Poiares, retratou no seu diário o constrangimento que sentia aquando das visitas a Gondramaz, retratando a dureza do isolamento e da vida nesta altura, não só para quem lá vivia como, no seu caso, para quem as circunstâncias da vida levavaram a sentir a vida dura da serra. 

EN2Este é um retrato vivo do Portugal de há meio século. Precisam de 3 horas para se perderem no tempo e visitar a Cascata da Ribeira e o Penedo dos Corvos. De Gondramaz ao Hotel Parque Serra da Lousã, onde iríamos pernoitar são 15 minutos de carro. Tanto este hotel, como o da próxima noite (o Conimbriga Hotel do Paço) pertencem à  Fundação Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional. 

EN2A fundação que possui ainda o Parque Biológico da Serra da Lousã, o restaurante Museu Da Chanfana e o Templo Ecuménico Universalista é uma Instituição Sem fins Lucrativos que apoia mulheres/mães em situação de pobreza, crianças “sem família“, jovens e adultos com deficiência ou doença mental, idosos doentes em fim de vida, refugiados e pessoas “sem abrigo”, fomentando um conceito de turismo com propósito onde todo o saldo positivo gerado é reinvestido na acção social da instituição.

EN2No restaurante Museu Da Chanfana provei a melhor chanfana de sempre e um doce surpreendente: a nabada, uma espécie de chila feita com nabos, mais vegetal, adstringente, intensa, e claro, com um  insólito travo a nabo.

Dia 4:

Depois de um dia animado como o anterior, demos um pouco de descanso à carrinha e começamos a desgastar mais as sapatilhas. Iniciamos com uma visita ao Parque Biológico da Serra da Lousã, com mais de 400 animais (águias, corujas, ursos-pardos, linces, lobos, raposas, javalis, mas também vários herbívoros como gamos, veados, corços e cabras)  e onde nos é permitido conhecer, detalhadamente, a vida selvagem do nosso país. 

EN2Há ainda um museu, uma quinta pedagógica, visitas guiadas, um centro hípico e  ao longo do percurso é possível descansar à sombra de castanheiros, carvalhos, medronheiros, entre outras espécies de flora existentes na matas e florestas circundantes.

EN2Após 10 minutos de carro, chegamos ao Templo Ecuménico Universalista (sim, há uma pirâmide em Portugal ;)).  Este é um sitio destinado à reflexão espiritual de pessoas de diferentes religiões, aberto a não crentes, promovendo valores fundamentais da humanidade e das religiões, como a Verdade, a Bondade e a Moral. EN2

O Templo salienta ainda a tolerância e o respeito pelos que nos são diferentes, representando a criação da humanidade pelo Homo Sapiens, inventor da espiritualidade, da fraternidade e da busca da verdade.

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Um sitio, para conversarmos, em silencio, com o nosso interior sobre a relação que temos com os outros e com as diferentes interpretações religiosas que existem do mundo. Para quem, como eu, gosta de ciência, também há umas coisas engraçadas a descobrir ;)

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Como já vos disse anteriormente, a paragem seguinte foi o Conimbriga Hotel do Paço. Situada a poucos minutos das históricas ruínas de Conimbriga, do centro da histórica cidade universitária de Coimbra e das Aldeias de Xisto esta unidade é local único para desenvolver turismo histórico, de natureza e gastronómico.

EN2Um hotel nobre, desde a romântica e singela escadaria em madeira, às salas com tetos altos, passando pelas peças de arte (quadros, tapeçarias e esculturas) e pelas grandes portadas com vista para o parque e para as árvores centenárias do jardim. Nesse jardim há ainda um piscina reconfortante rodeada por natureza e aristocracia.

EN2No restaurante do hotel, o Gavius são servidos os mais deliciosos pratos da gastronomia regional, acompanhados por bons vinhos locais e um serviço acolhedor e qualificado (um obrigado especial ao Chefe de sala Carlos pelo carinho com que nos tratou). 

EN2O seu universo mágico aliado ao secular património arquitetónico transformaram este hotel numa lenda viva que completa uma oferta de excelência, assumindo-se, indelevelmente, como uma referência hoteleira incontornável na região.

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Como a publicação já vai longa, fazemos aqui uma pausa nesta enriquecedora viagem. Parafraseando o celebre e saudoso José Saramago e completando a citação com que iniciei esta crónica, a viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam.

EN2 E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativas como esta.  E para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já, com o resto da nossa história pela EN2, ainda esta semana ;)

Parceiros na Criação | Do Douro com amor e um banho no jardim

"Fred Potter voltou-se para o filho e sorriu. Estás a ver?, disse. As nossas vidas são como as coisas que fazemos. Damos-lhe forma, construímo-las e levamo-las ao forno. É assim, meu filho, somos moldados e levados ao lume. Mas um jarro não tem possibilidade de escolher se quer conter água, vinho ou ficar simplesmente vazio. Tu tens, filho. Tu tens.“ Joanne Harris

GONCALO VILLAVERDEA história de hoje começa há uns anitos, em Março de 2016 (curiosamente quando o blogue fazia 1 ano). Na altura o No Meu Palato estava muito mais dedicado à gastronomia do que aos vinhos (a parte dos hotéis surge ainda mais tarde). Apesar de já ter bastante interesse no mundo dos vinhos e ser um enófilo dedicado, é apenas pela altura do Festival do Vinho do Douro Superior 2016 que começo a querer participar, enquanto blogue, em provas e encontros vínicos.

Casa da EsteiraEntrei em contacto com a organização (sem saber muito bem como estas coisas se processavam) a fim de demonstrar o meu interesse em "cobrir" o evento. Informaram-me que a relação com a imprensa era tratada pela Joana Pratas e que iriam falar com ela. Uns dias depois recebi um telefonema da Joana a confirmar a minha participação e a convidar-me para uma presstrip paralela ao Festival do Vinho do Douro Superior 2016.

Festival Vinho Douro Superior 2016Com visitas à Quinta do Vale Meão, Quinta de Muxagat, Quinta da Cabreira, Quinta do Crasto, Quinta da Terrincha e Quinta das Bandeiras, como é óbvio aceitei o convite ;) Quer a presstrip quer o Festival correram muito bem (apesar de na altura não conhecer ninguém e os outros participantes ... se conhecerem todos) e timidamente fui ganhando gosto por este género de iniciativas e conhecendo um pouco mais a Joana.

Casa da EsteiraCom a alcunha da "generala", obsessão com os horários e máximo rigor na organização, eu falava sempre "com um pé atrás" com ela, pois aquele, ainda, não era o meu mundo e andava nas apalpadelas para tentar perceber como é que aquelas coisas funcionavam. O tempo foi passando, fui participando em muitos mais eventos e fui encontrando, frequentemente,  algumas das pessoas que conheci nessa altura, sendo agora já amigo de algumas delas. Conheci mais tarde, uma outra Joana, "menos mandona" (pelo menos aparentemente ;)): a produtora de vinhos, mãe e esposa. Com o seu marido João, a Joana fez nascer a PNC.

Casa da EsteiraPNC é a sigla da Parceiros Na Criação, mas, curiosamente, também dos apelidos dos seus criadores: Pratas & Nápoles de Carvalho, respectivamente. Joana e João são um jovem casal que decidiu apostar na produção e comercialização de vinhos e azeite no Douro. Mais do que uma empresa, quiseram criar um protejo familiar, do qual fazem parte activa os seus filhos: a Maria Teresa e o António Maria.

Casa da EsteiraComeçaram com a marca h’OUR e desde 2018 iniciaram um novo ciclo na PNC, com a aposta em novas marcas, a Casa da Esteira e a Esteira. No final desse ano, o João herdou parte da Quinta de Monte Travesso de Cima (Barcos, Tabuaço) e a família avançou com a compra da restante parte. Um total de 14 hectares, em que 12,5 são de vinha e os restantes de mata, adega e a Casa da Esteira, remodelada em 2019.

Casa da EsteiraÉ sobre os vinhos desta família que vos vou falar hoje, começando pelo Esteira Branco 2017 (9 €, 84 pts.). De cor citrina pálida e com laivos esverdeados exibe no nariz maçã, papaia, acácia-lima, folha de limoeiro e uma particular mineralidade (xisto molhado).  Na boca exibe uma acidez muito assertiva, equilíbrio e elegância.   

Casa da EsteiraContinuando nos brancos e na companhia de um à Brás de tomate com lombo de robalo grelhado surgiu o Casa da Esteira Reserva Branco 2017 (17 €, 90 pts.). Este é um vinho, quase amarelo-palha, que precisa de tempo para mostrar o melhor de si. 

Casa da EsteiraExibe aromas a pêra, melão, marmelo, a mesma mineralidade "molhada" e outros notas menos intensas a baunilha e noz-moscada. No palato tem bom volume, excelente textura, intensidade, durabilidade e uma enorme frescura. 

Casa da EsteiraPassando para os tintos, começando logo pelo vinho que mais me surpreendeu e de um ano tão especial quanto feliz, 2012, o ano que casei ;) O h'OUR tinto 2012 (15 €, 88 pts.), vermelho escuro já com alguma evolução, no "primeiro ataque" no nariz quase parece um Bairrada já com alguns anos, devido ao aroma a azeitona. 

Parceiros na CriaçãoSurgem depois os mirtilos, a ameixa preta madura, os frutos silvestres, o sous-bois, algum cacau e um químico-medicinal intrigante. É muito carnudo, fresco, harmonioso e complexo. Não sei se tive "apenas" sorte com a garrafa, mas este vinho estava impecável ;) Este vinho já esgotou, mas ainda podem encomendar a edição de 2010 que, pelo que me disseram, está prontíssima a beber. 

Casa da EsteiraDo ano seguinte e para acompanhar uns Farcis de legumes, especialidade da minha sogra, escolhi o Esteira Tinto 2013 (9 €, 86 pts.). Rubi vivo no traje, este vinho transporta notas muito puras a ameixa preta, amoras, frutos silvestres, mirtilos, cacau, pimenta, cedro e baunilha. Na boca é muito fino, complexo, longo e com uma acidez inquieta. 

Casa da EsteiraParagem seguinte, um vinho que ainda aguenta uns bons anos em garrafa: o Casa da Esteira Touriga Nacional 2015 (17 €, 91 pts.). De cor rubi-violácea tem um nariz muito equilibrado com violetas, ameixa preta, frutos do bosque, cereja preta e chocolate After Eight

Casa da EsteiraNo palato passeia-se com personalidade, garra, taninos redondos, bom volume e uma acidez tão irreverente quanto bem integrada. Este é um excelente exemplo de uma Touriga Nacional com ADN duriense, elegante e inteligente, sem aqueles exageros florais que às vezes surgem nesta casta.

Casa da EsteiraPara último, um grande vinho e também o que mais gostei. O Casa da Esteira reserva tinto 2014 (17 €, 92 pts.), portador de um rubi denso, é um vinho muito amplo e com aromas muito genuínos, potenciados pelos 15 meses de estágio em barricas de carvalho francês. Os frutos do bosque, a ameixa preta, os mirtilos, a cereja (quase em Mon Chéri), a noz-moscada, a pimenta preta, a canela (menos evidente), o sous-bois, o cravo, o cedro e a pedrogosidade (xisto partido) dão-lhe uma grandiosidade que justifica um outro preço na venda. 

Casa da EsteiraNa boca mostra uns taninos bipolares (aguerridos mas elegantes), uma estrutura crocante, intensidade, harmonia, complexidade e uma acidez vibrante, que aprendi nesta prova, ser o denominador comum aos vinhos dos Parceiros na Criação. Acompanhou na perfeição um Lombo de vitela, cebola roxa confitada e puré de pastinaga.  Este reserva 2014 é tão bom, que diria que é digno de um Rei ;) 

Casa da EsteiraHá uns tempos a Joana disse-me que uma das coisas que aprecia no blogue é o facto de apesar de termos filhos relativamente pequenos, não deixamos de ir a eventos vínicos (algumas das vezes os 4), visitar restaurantes (com a taxa de barulho acrescida incluída) e percorrer o país, em família, à procura de novos vinhos, sítios e sabores.

Casa da EsteiraO segredo para estas "coisas", o envolvimento familiar naquilo que gostamos de fazer, é o mesmo que permite que se façam vinhos com identidade, personalidade e muito terroir afetivo como os vossos: o amor que colocamos naquilo que fazemos.

Esta foi a história de uma família que faz vinhos, contada por outra que, apesar de não os fazer, anda sempre com eles no palato. Que destes "fornos familiares", qualquer que seja o molde escolhido, continue a sair felicidade ;)

Obrigado Joana, pelos vinhos e pelo "empurrão" no blogue, e desculpa a demora na publicação (provei o primeiro vinho, o Esteira Branco 2017, já em Maio, após a primeira tarde quente de Primavera muito bem passada, em família confinada, por entre os pingos da chuva da mangueira ;)).

 

Farcis de legumes:

-Partam os pimentos, a cebola e a courgette de modo a formarem pequenos recipientes (vejam a imagem de cima);

-Para o recheio triturem o interior dos courgettes previamente cozidos, algumas tosta de trigo, leite, mortadela, fiambre, queijo, parmesão e azeite. Vão "brincando" com os líquidos e com os sólidos até obterem uma textura consistente; 

-Coloquem a mistura anterior por cima dos "recipientes de legumes" e polvilhem com pão ralado;

- Levem ao forno 10 minutos a 210ºC.


À Brás de tomate com lombo de robalo grelhado:

-Numa frigideira larga em lume brando, salteiem a cebola às rodelas, o alho-francês e os dentes de alho esmagados no azeite;

-Acrescentem o tomate triturado maduro, as batatas-palha e misturem bem até as amolecerem um pouco;

-Numa tigela, batam ligeiramente os ovos e juntem noz-moscada e um pouco de brandy, 

- Juntem o preparado anterior à mistura de tomate e misturem bem até estar bem ligado e os ovos estarem cozinhados.

-Juntem cenoura ralada grosseiramente, misturem tudo, provem e afinem os temperos. Sirvam salpicando com a salsa e as azeitonas.

Lombo de vitela, cebola roxa confitada e puré de pastinaga:

- Levem as pastinacas, o alho, as natas, o leite e a manteiga ao lume e deixem levantar fervura. Baixem o lume, tapem e deixem cozinhar até as pastinacas ficarem macias (10-12 minutos). Destapem e cozinhem até o líquido reduzir para metade (5 minutos) e temperem com sal. Passem num Passe-Vite até obterem um puré homogéneo;

-Para o jus de carne, usem alguns ossos ainda com pedaços de carne (peçam no talho, se for de novilho ou borrego, melhor); cebola, cenoura e aipo partidos grosseiramente; e deixem cozinhar por 2 horas em lume brando. No final da cozedura coem o preparado para ficarem apenas com o liquido. Juntem manteiga, sal, pimenta, vinho do Porto e um pouco de limão. Deixem reduzir para metade em lume brando;

-Partam a cebola roxa a meio (como na imagem) e grelhem num fio de azeite em lume brando (10 minutos de ambos os lados). Cortem um pouco as bases de modo a poderem fixar a cebola ao prato (se tiver a base vai cair). Com a base superior (a que vai ficar voltada para cima no empratamento) virada para baixo tostem um pouco em lume alto durante 1 minuto;

- Grelhem os lombos de vitela (lume alto durante 2 minutos de cada lado) em azeite, temperando com sal e mistura de pimentas.