Vinhos Diogo Lopes | Maktub: O segredo do alquimista
"Ser livre é conseguir flutuar entre a diversidade e a multiplicidade, sem perder a própria identidade." Dimos Iksilara
Para quem lê não apenas para fugir da realidade, mas também para tentar compreender essa mesma realidade, "O Alquimista" de Paulo Coelho oferece o melhor desses dois mundos literários. O livro tem aquele "charme bem humorado" da literatura brasileira mas que não se desliga da tensão dramática e da intensidade psicológica de um conto de fadas desencantado. Quase que parece querer segredar-nos ao ouvido como devemos proceder para nos conseguirmos tornar autodidatas, ser imunes a depressões e não deixarmos de acreditar nos nossos sonhos.
Narra a história de um jovem que se chama Santiago, um simples pastor de ovelhas mas que possui um enorme desejo de viajar pelo mundo e descobrir novos lugares e novas pessoas. Santiago deixa a sua terra natal (na Andaluzia, Espanha) para percorrer o deserto egípcio na procura de um tesouro enterrado por debaixo das pirâmides. Para o encontrar tem de, literalmente, seguir os seus sonhos, munindo-se de algumas ajudas que lhe vão surgindo, através de sinais, durante a sua viagem. Esse é o gatilho que adoça toda a história e que faz, não só com que Santiago passe a ler esses sinais, mas também os consiga interpretar como uma pequena peça do enorme quebra-cabeças que é a vida.
Ao longo da sua jornada fantástica, Santiago conhece uma mulher cigana, um homem que se autodenomina rei (será que é mesmo um rei!!!???), um suposto/convencido alquimista (com o poder de transformar metal em ouro?) e outro/verdadeiro alquimista, mais modesto e que não se vangloria de forma alguma. Cada uma destas personagens vai direcionado Santiago no caminho do seu tesouro.
Durante boa parte do livro não percebemos que tesouro é este que Santiago tanto anseia encontrar, nem sequer antever se este jovem aventureiro será capaz de superar os inúmeros obstáculos que lhe vão surgindo: becos sem saída, roubos, traições, bruxarias, falsas amizades e até prisões. A partir do meio da narrativa percebemos que Santiago, de algum modo, está a ser capaz de mudar seu próprio destino com as ações/decisões que vai tomando.
Em seguida, surge a parte mais interessante do livro. Santiago deixa de procurar o tesouro material por debaixo das pirâmides para começar a procurar o tesouro imaterial, aprisionado no seu próprio interior. Amarrado, sempre, a uma linha muito tênue que separa a realidade do espiritual, vai passando por diversos estados de espirito e desconfianças. Até que conhece Fátima, um amor à primeira vista, num enorme oásis.
Enquanto Santiago vive o seu amor com Fátima, as dúvidas acerca da relação quase esquizofrénica entre realidade e imaginação parecem querer deixar Santiago para entrar na mente dos leitores. Será que Santiago conseguiu realmente provocar uma tempestade de areia que o ajudou a escapar dos perigos do deserto, ou foi "apenas" coincidência? Será que ele realmente sentiu o beijo de Fátima ou terá sido apenas o desejo de cumprir uma promessa?
Este lado místico do livro e a forma de como os acontecimentos descritos podem gerar dezenas de interpretações é o que para mim explica o sucesso deste livro. A minha interpretação vai ser forçosamente diferente da vossa, apesar de termos lido as mesmas palavras. O personagem principal acaba por refletir exatamente isso, quase como se Paulo Coelho tivesse sido capaz de prever todos os pensamentos que surgiriam na cabeça de todos os leitores, e os transportasse para a cabeça e para a boca de Santiago.
A experiência que O Alquimista nos transmite tem também muito a ver com o momento em que estamos a ler, se estamos tristes ou contentes, cansados ou despertos, disponíveis ou distraídos. Em função disso, as dúvidas e as certezas que nos vão surgindo serão objectivamente diferentes.
Exuberante, evocativa e cheia de citações impressionantes sobre o ser, a história de Santiago é uma representação real (se bem que por vezes adornada com pós de Prilimpimpim) do poder transformador dos nossos sonhos, reais ou imaginários, das pessoas que compõem as nossas vidas e da importância de ouvirmos o que nos diz o coração. A obra encerra revelando-nos que podemos encontrar a nossa identidade na diversidade e na multiplicidade com que encaramos o mundo e que o nosso verdadeiro tesouro se encontra onde estiver o nosso foco.
Esse tesouro, quer o de Santiago quer o nosso, não é material, mas tem a ver com a viagem em si, nas descobertas feitas, na sabedoria adquirida e na heterogeneidade promovida. Viagens, descobertas, sabedoria, identidade assente na heterogeneidade e o acreditar em sonhos têm tudo a ver com os vinhos do Diogo Lopes, um verdadeiro alquimista da diversidade e a multiplicidade, sem perder a própria identidade.
No ano passado tive o prazer de acompanhar quase todos os projetos que o Diogo tem (acabei por lhe atribuir o "prémio" "enólogo revelação") . Faz e ajuda a fazer vinhos com uma relação qualidade/preço, que chega quase a ser obscena. Após viagens pelas principais regiões vitivinícolas portuguesas e por Napa Valley, na Califórnia, acabaria por começar a trabalhar em 2005, no Alentejo, ao lado de uma grande referência do vinho em Portugal, hoje um grande amigo: Anselmo Mendes.
Vindima após vindima, surgiram novos desafios e novos projectos. Entre o Alentejo, a Região dos Vinhos Verdes, os Açores ou a Região de Lisboa. Experiências essas que fazem que o seu maktub seja bastante risonho e promissor. Hoje vou falar-vos de três vinhos com o seu cunho pessoal, o Adega Mãe Terroir Branco 2016, o Quinta do Convento Tinto 2018 e o Kranemann Tawny 20 anos, que demonstram essa diversidade baseada na excelência e identidade.
O Adega Mãe Terroir Branco 2016 (49.00 €, 93 pts.) é um vinho impressionante de quão delicado e intrigante que é. De cor amarela-palha basta cristalina e límpida, quase dourada, exibe uma forte mineralidade (pedra de isqueiro, granito molhado, quase salina), pêra, toranja, fumo, avelã e uma tosta super bonita e muito bem integrada. Na boca é complexo, crocante, cheio, irreverente, vibrante e com as "unhas bem afiadas". Acompanhou magistralmente uns Chocos fritos, grelos e batata a murro.
Por sua vez o Quinta do Convento Tinto 2018 (11.90 €, 88pts.), de cor vermelha-rubi tem um nariz carregado de frutos do bosque, mirtilos, amoras pretas, esteva, pimenta preta e uma tosta tão ténue quanto bem integrada. O palato é equilibrado, carnudo, mineral (xisto partido), fresco e com taninos arredondados.
Para acompanhar o Falso pudim de aveia, banana e frutos secos surgiu o melhor 20 anos que provei até hoje. Quem mo enviou disse-me que era um "grande, grande vinho", e não poderia ter sido mais certeiro. De cor âmbar com nuances rubi-ferrosas o Kranemann Tawny 20 anos (69.00 €, 94 pts.) e de grande complexidade aromática (maçapão, avelãs, noz, amêndoa torrada, figos secos, resina, noz-moscada e pimenta da Jamaica), exibe um palato intenso, untuoso, fresco, equilibrado e muito persistente (o copo vazio já há umas horas serviu de ambientador ;)). Tem uma ligeira secura e vegetalidade que me apaixonou.
Maktub é uma expressão que Paulo Coelho discute n'O Alquimista. Tem origem árabe e está associada a uma representação de algo que tinha que acontecer, que já estava escrito, quase como uma sina ou destino. Penso que no caso do Diogo esse makbut tem forçosamente de estar relacionado com a liberdade, identidade, diversidade e qualidade que ele aprisiona dentro de cada garrafa.
Chocos fritos, grelos e batata a murro:
-Depois de lavarem bem os chocos, cortem-nos com o tamanho aproximado de um dedo indicador;
-Fritem-nos brevemente e conjuntamente com lascas de alho, temperando com sal e pimenta;
-Levem-nos forno durante 15 minutos com umas folhas de louro e batatas;
-Cozam os grelos, com o tacho destapado, em água a ferver temperada com sal. Depois escorram-nos muito bem;
-Esmague os dentes de alho e deixe-nos alourar numa frigideira com o azeite. Introduzam os grelos bem escorridos e salteiem-nos durante 5 minutos. Acrescentem no final um pouco de queijo parmesão.
Falso pudim de aveia, banana e frutos secos:
-Pré-aqueçam o forno a 180ºC;
-Numa taça misturarem a aveia (2 chávenas), as sementes de chia e sésamo (meia chávena), os frutos secos (avelãs, noz, amêndoa) um pouco de canela e o fermento (uma colher de chá). Noutra taça, juntem o leite (duas chávenas de leite magro), os ovos (2), e o mel (uma colher de sopa) e mexam bem;
-Num pirex misturem metade de mistura de frutos vermelhos (uma chávena) e uma banana às rodelas. Por cima coloquem a mistura seca, em seguida vertam a mistura húmida e por fim coloquem a restante fruta (uma banana e os restantes frutos vermelhos). Levem ao forno por aproximadamente 40 minutos ou até a aveia absorver o líquido;
-Sirvam com framboesas e um pouco de caramelo.
A oliveira, símbolo de paz e amizade, é uma das árvores mais populares um pouco por todo o planeta, estando a origem da sua fama firmemente enraizada na tradição e mitologia da Grécia Antiga.
Reza a lenda (que já vos havia contado anteriormente) que Poseidon (deus do mar e irmão mais velho de Zeus) disputou com sua sobrinha Atena (deusa da sabedoria e filha de Zeus), a protecção de uma nova cidade grega. Como haviam dois deuses em disputa pelo cargo, foi definido que ganhava este duelo quem oferecesse ao povo da cidade o melhor presente.
Poseidon fez surgir um belo cavalo, enquanto a deusa Atena criou uma oliveira, capaz de produzir azeite. Tendo sido a oliveira escolhida como o presente mais valioso para a humanidade. Em forma de agradecimento, Atena tornou-se a patrona da cidade, passando a mesma a ser conhecida por Atenas.
Ficou ainda mais claro que a oliveira tinha uma importância especial sobre todas as outras árvores quando os exércitos persas do grande rei Xerxes varreram a Grécia. Em 480 A.C., os edifícios da Acrópole, que continham oliveiras, foram incendiados e destruídos. No entanto, as oliveiras "brotaram no mesmo dia a uma altura de dois côvados" (um metro!!!).
Além disso, as sementes dessa árvore sagrada, oferenda da deusa grega, foram replantadas em toda a Ática. Essa plantação "comunitária" significava que todos os olivais em redor da capital grega tinham uma ligação à árvore original de Atenas. No entanto, a história mais famosa acerca das oliveiras talvez seja a que está relacionada com a arca de Noé.
Se bem se recordam e como bons cristãos que são, (se não o forem também não há stress nenhum ;)), sabem com certeza que Noé passou quarenta dias e quarenta noites na sua arca após o terrível diluvio. Quando a tempestade acalmou e a água baixou de nível, Noé soltou uma pomba e ela regressou com um ramo de oliveira no bico.
Com este sinal Noé percebeu que havia terra perto. A pomba e o ramo de oliveira tornaram-se então um símbolo de esperança e paz. É daqui que advém a expressão "dar um ramo de oliveira", frequentemente usada por pessoas que tentam fazer as pazes com alguém.
Quer acreditemos ou não nessas narrativas, o certo é que a oliveira, a bela árvore de tronco retorcido, cresce e frutifica até mesmo em solos pobres e com pouca água. Dessa resistência resulta um significado espiritual muito forte: mesmo que se queime ou corte uma oliveira, ela é capaz de brotar novamente, e por isso mesmo representa também a autenticidade e a perseverança, sob qualquer circunstância.
Apesar de podermos encontrar oliveiras um pouco por todo o país (vejam lá que até sou casado com uma ;)), será porventura no Alentejo que a assumimos como rainha das planícies, melancolizando as cores com o verde outonal das suas folhas. A ela associamos também a secura dessa região. Parece-nos tão desprovida de vida que, por vezes, nos esquecemos que é capaz de florir e de dar fruto.
É esse fruto, arrancado dos ramos pelo castigo das varas, que faz com que o homem se preocupe tanto com elas, construído extensos olivais e ansiando uma mão cheia de anos até que a primeira colheita possa ser feita. A relação entre o Alentejo e as oliveiras já é tão antiga que em Estremoz, Évora, Monsaraz, Montemor-o-Novo e Beja, existem oliveiras que ultrapassam a idade de Cristo. Em Monsaraz, a oliveira mais antiga (e datada) tem já 2460 anos de idade!!!
É precisamente em Évora que existe um hotel que assume, evoca e glorifica todo este legado de história, tradição e simbolismo ligado à oliveira e ao azeite: o
Para além dessas experiências, a ligação do Évora Olive Hotel à oliveira e ao azeite é irremediavelmente mostrada através da linha contemporânea dos seus espaços e dos vários ambientes arquitetónicos, onde o processo da produção do azeite é revelado, passo a passo, aos hóspedes e a todos os interessados.
O Hotel está localizado dentro das muralhas da cidade e veio revitalizar um edifício icónico e histórico da cidade de Évora – o Centro Comercial Eborim – transformando a área comercial e o lugar onde se assistiam filmes, num hotel aberto a todos os visitantes internacionais, regionais e locais.
Está suficientemente próximo do centro da cidade para permitir que lá cheguemos com uma curta e prazerosa caminhada (mesmo quando acompanhados por crianças) que nos convida a apreciar os cenários naturais e autênticos, absorvendo a autenticidade das suas gentes.
O Templo de Diana, a Praça do Giraldo, a Capela dos Ossos e a Sé Catedral de Évora estão mesmo ali ao lado. O Évora Olive Hotel está também suficientemente distante para permitir o descanso e o aproveitamento dos espaços de relaxamento sem as perturbações (geralmente) associadas aos centros das cidades.
O hotel tem ainda um jardim, uma piscina exterior e um enorme pátio, todos eles super bem enquadrados na estrutura principal do edifício. Há ainda a Mercearia Eborim, que faz uma bonita ponte com o passado. Nela é possível encontrar os vários produtos produzidos pela comunidade e para a comunidade, assumindo-se como um local onde se agregam todos os produtos de elevada qualidade da comunidade local e regional para que sejam conhecidos além-Tejo e além-mar.
Junto ao Pátio das Oliveiras, e como não poderia deixar de ser, podemos encontrar o Restaurante Mercearia Eborim. Um espaço de partilha e conforto por excelência, onde se junta a família e os amigos, seja na comemoração de um dia festivo ou porque cada dia é especial para estarmos com os nossos. A cozinha é concebida com uma visão contemporânea, sempre com os olhos na tradição e nos produtos sazonais e com sotaque alentejano, assegurando assim uma maior qualidade, frescura, identidade e sustentabilidade.
Aconselho vivamente o misto de tradição e inovação do surpreendente O nosso Caldo Verde de Cação, a brisa marítima fumada e fresca do Duo de Salmão (carpaccio e curado), Salada funcho e Maçã, Pickles de Mostarda e Molho de Iogurte fumado, a elegância gulosa do Tamboril lardeado em Toucinho fumado, Risotto de Ervilha e molho de Vinho licoroso e a voluptuosidade aromática das Bochechas de porco preto sobre risotto de espargos trigueiros.
Para sobremesa, um conceito que não conhecia, um ... pijama ;) Consiste numa mistura de várias sobremesas, para que consigamos provar de tudo um pouco, incluindo o sabor intenso e mentolado da Mousse de Cerejas e Mirtilos com Gelado de Poejo, a exoticidade do Mel e Noz da região, Creme de Limão e Gelado de Canela, a riqueza do Semi-frio de Chocolate Negro e Crumble de Frutos Vermelhos com Gelado de Tangerina e a voracidade tradicional da Triologia Conventual com Gelado de Manjericão e Nougat de Pinhão.
Um menu muito rico, moderno, coerente mas que não "fica a dever" nada ao legado do receituário tradicional alentejano. Uma palavra ainda para o profissionalismo, amabilidade e "boa onda" do chefe de sala José Luis Santa Bárbara, que teve ainda a gentileza de nos dar a conhecer alguns dos melhores vinhos da região. Obrigado!!!
Se tudo isto ainda não é suficiente para convencer os mais "gulosos" acrescento que o pequeno-almoço é dos melhores que encontrámos por esse país fora. Qualidade, quantidade, diversidade, segurança e perfeccionismo, tudo isto é claro, regado por um belo espumante Alentejano ;)
Não vos posso dizer que fiquei surpreendido com os momentos únicos, tranquilos e inesquecíveis, nem com o design acolhedor, conforto, primor, qualidade e profissionalismo que encontrei no Évora Olive Hotel (porque já conhecia a bitola do grupo a que pertence), no entanto não estava à espera do requinte, do serviço amigo (quase pessoal), do ambiente "boa onda" e do restaurante que promove uma relação irrepreensível entre o tradicional e o moderno. Sei que os tempos no sector não são os mais fáceis, no entanto, não se esqueçam que mesmo que se queime ou corte uma oliveira, ela é capaz de brotar novamente. Obrigado, força, coragem e até um dia destes!!!
Como o prometido é devido, cá vai a primeira #notasolta do blogue. Este novo espaço tem como finalidade comunicar os vinhos que vou recebendo e que obtenham uma classificação até 85 pontos. Pretendo fazê-lo de maneira mais descomplicada do que as restantes rubricas: uma ou duas fotos, a classificação e uma breve descrição do vinho. Simples, directo e objectivo, sempre com verdade. Escolhi o Carvalhais Mélange à 3 2018 (5.00 €, 82 pts.) para esta primeira nota por representar bem o que quero para o #notas soltas. Um vinho muito bem feito, descomplicado e com uma excelente relação qualidade/preço. É o vinho do "dia a dia" de muito amigos enófilos e isso quererá dizer, por si só, alguma coisa. Deve o seu nome original às castas que o compõem: Tinta Roriz, Touriga Nacional e Alfrocheiro. Veste um rubi denso e exibe aromas generosos a uvas tintas frescas, ameixa preta, cereja, violetas e hortelã pimenta . No palato é intenso, harmonioso, guloso e fresco.
A região de Trás-os-Montes, conhecida pelas suas serras, planaltos e vales selvagens, tem um terroir único que mune o seus vinhos com características ímpares, vinhos esses que são conhecidos não só pela sua enorme diversidade mas também pela sua elevada qualidade.
A sua riqueza reflecte esta diversidade única, cultivada desde o tempo dos romanos, que para além dos vinhos deixaram na região inúmeros moinhos construídos nas rochas e que permanecem imaculados até aos dias de hoje. É claro que outro factor determinante na excelência destes vinhos tem a ver com os vários hectares de vinhas velhas que têm permitido a afirmação pela diferenciação e produção de vinhos realmente originais.
Há quem defenda que as águas termais abundantes nesta região, também contribuem para a especificidade dos vinhos transmontanos, mas isso é algo que carece de fundamentação cientifica. Certo é que o clima mediterrânico com influência continental, agreste, frio e com grande exposição solar; e os solos ora xistosos ora de um granito arenoso, dotam os vinhos de uma sedutora mineralidade e uma frescura vincada e alegre.
No entanto, na minha opinião, o que mais diferencia/valoriza um vinho transmontano, tem a ver com a sua produção "quase artesanal" complementada por uma enologia de precisão e baixa intervenção. Há um trabalho enorme na vinha, para que na adega seja "apenas" necessário deixar o vinho se expressar.
Hoje vou escrever-vos sobre 3 vinhos criados com todo este legado de características, produzidos por Carlos Manuel Alves Bastos: o Quinta Serra D'Oura Reserva Rosé 2017, o Head Rock Colheita Selecionada Branco 2016 e o Quinta Serra d'Oura Reserva Tinto 2016. Conheci os seus vinhos aquando de uma visita ao
Os projectos Head Rock Wines e Quinta Serra d’Oura, nasceram em 2007 com a compra dos terrenos que hoje acolhem as vinhas e que passam para as uvas a alegria selvagem tão única deste terroir. Sendo que o primeiro vinho surgiu apenas em 2011, um ano, como sabemos, muito "fraquinho". ;) Por entre toneladas de pedras (granítico, quartzo e saibro), surgem uvas frescas, com uma acidez vincada, e elevada expressão aromática.
O Quinta Serra D'Oura Reserva Rosé 2017 (15.00 €, 85 pts.), de cor salmão profunda, tem um nariz muito complexo com morangos, frutos silvestres, violetas, jasmim e uma leve baunilha que lhe fica muito bem (só é pena que os morangos tenham um pouco de destaque a mais, caso contrário a nota seria outra). Na boca é um vinho seco, levemente mineral (granito molhado) e a acidez é muito vincada e alegre. É um vinho que pede, incessantemente, por comida. ;)
O Head Rock Colheita Selecionada Branco 2016 (9 €, 88 pts.), de traje amarelo-palha está claramente no ponto ideal para ser consumido. No nariz o seu principal predicado é uma elevada mineralidade (granito molhado), jasmim, flor de limoeiro, maracujá, líchias e um anisado muito suave.
O palato mostra uma frescura irreverente e pronunciada, intensidade, elegância e uma ligeira untuosidade. O preço deste vinho está completamente desajustado (para baixo), entrega-nos muito mais do que aquilo que é suposto... Por sua vez, o rubi Quinta Serra d'Oura Reserva Tinto 2016 (15 €, 89 pts.) exibe no nariz notas deliciosas a mirtilos, framboesas, morangos, tília, baunilha e almíscar.
Na boca é muito fresco, denso, intenso e mostra taninos arredondados e super elegantes. Tal como os outros dois, pedia comida, e por isso "dei-lhe" uns Petits Pâtés de veado, cogumelos shitake, Salame de Nápoles, rojões de redenho e redução de vinho do Porto.
Todas aquelas toneladas de granito, quartzo e saibro, que compõe o poema geológico de Trás-os-Montes, aliados a um terroir agreste, a uma viticultura artesanal e uma enologia de precisão permitiram o surgimento de vinhos como estes, únicos e fieis ao legado histórico que carregam; e munidos de uma alegria (acidez) selvagem contagiante.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar nela ... duram uma eternidade, disse uma vez Clarice Lispector. É por isso que No Limiar da Eternidade me pareceu um excelente titulo para o anúncio dos melhores de 2020, no que aos restaurantes diz respeito (este é também um livro de Ken Follett, que serviu de "padrinho literário" aos prémios deste ano).
Todos nós temos memórias relacionadas com a comida, algumas boas e outras más. O sabor, o cheiro e a textura dos alimentos podem ser extraordinariamente evocativos, trazendo-nos de volta algumas memórias, não apenas dos alimentos, mas também do lugar, das pessoas e do ambiente que partilhamos. A comida é um gatilho muito eficaz no reavivar dessas memórias mais profundas, dos sentimentos e das emoções.
Segundo Massimo Bottura, existem poucos restaurantes onde podemos "comer" essas emoções, e esses são os verdadeiramente especiais. Para mim, quando o restaurante é capaz de acrescentar a arte e a cultura (que a comida merece) a essas emoções, estou no meu "parque de diversões " favorito!!! ;)
Esta foi uma sublime viagem gourmet proporcionada pelo Chefe Julien Montbabut que combinou diversos sabores, texturas, aromas, produtos e produtores regionais, viagens, inspirações, estórias, contrastes e surpresas. Houve ainda uma bonita invocação das tradições gastronómicas lusitanas alicerçada no melhor savoir-faire da cozinha francesa. Lá encontramos um menu em que cada prato conta uma história e que no final nos deixa com algo bem característico do nosso país ... a saudade. Destaque ainda para o serviço exemplar, com chancela Diogo Matos, para a atmosfera ecléctica do restaurante e para a excelente harmonização vínica proposta pelo Marco Pereira. Há ali muita vontade de fazer bem, de fazer diferente, de fazer com requinte e 
Neste espaço de ambiente informal funciona o restaurante à carta, o wine bar com serviço de tapas e bifes, a garrafeira, uma esplanada (para os dias de sol) e um balcão a toda a largura, aberto sobre a cozinha do restaurante, que deixa antever um festival de sabores, texturas e cheiros. A conduzir este comboio gastronómico está o Chefe Daniel Gomes que criou um menu de degustação sedutor, rico, complexo e que na sua heterogeneidade, no final, faz sentido nos sentidos que nos desperta. 
Nesta 


Aqui a revelação não significa surpresa (o chefe já havia conquistado uma estrela Michelin no Le Restaurant do L'Hotel em Paris). A distinção tem a ver com o facto de, em menos de um ano, o chefe Julien se ter reinventado completamente, para nos passar a contar, de forma muito bonita, as suas histórias, aventuras e descobertas no nosso país, através de um menu de 14 momentos. Esta bonita viagem por entre os sabores é não só uma extraordinária, surpreendente, inovadora e epifânica experiência gastronómica, mas também uma das melhores ideias que tenho visto nos últimos tempos neste sector. Parabéns.
O único dos Chefes "premiados" pelo blogue que ainda não ganhou uma estrela Michelin, e a palavra certa aqui é "ainda", porque já está 




Ganha também o "prémio" do prato cujo nome é mais comprido. ;) É uma sobremesa intensa e delicada. Uma espécie de salada de frutos secos, café e chocolate, trajada de smoking que ganhou complexidade ao nível da textura, apresentação, sabor e harmonia. Muito bem conseguida e extremamente prazerosa. Um hino à vida, aos sabores ricos e à boa comida, onde o chocolate é rei... Como costuma dizer um amigo meu, "comia disto todos os dias"!!! ;)
É servido com uma base de creme de ovos, frutos silvestres e sorvete de limão. Passeia-se sedutoramente na boca entre o quente e o frio, numa experiência glorifiada pelos contrastes. É muito saboroso, bem pensado e estrategicamente ponderado, como uma roda-viva de sensações e texturas que celebra o final da refeição. 
E lá voltamos nós ao 
Este é um restaurante, cujo nome, como já perceberam, 
A distinção não se deve apenas ao serviço de excelência que promove no restaurante gastronómico mas também ao dinamismo, primor e empenho que transporta para iniciativas no The Yeatman (este ano, algumas delas infelizmente não se realizaram), como a loja de vinhos, o Christmas Wine Experience, as Sunset Wine Parties, o clube de vinhos, os jantares com produtores, ou o novo programa que junta o SPA e uma prova de vinhos. Em todas elas Elisabete Fernandes rima com excelência, requinte, profissionalismo e brindes. ;)

Obrigado a todos vós pelas emoções que nos proporcionaram durante o ano difícil que findou. Infelizmente e devido ao contexto pandémico não podemos corresponder a nem metade das solicitações que tivemos. Neste novo ano, e mal o maldito vírus permita, daremos prioridade aqueles com quem "falhamos" em 2020. Estamos ávidos de voltar a fazer do nosso palato um parque de diversões. ;)
Porque devemos beber vinho? Vamos retirar das opções as respostas mais óbvias como o facto de nos saber bem, de nos fazer desfrutar muito melhor as refeições, de ajudarmos os produtores nestes tempos difíceis ou de nos permitir a criação/fortalecimento de alguns laços afetivos. Nas últimas décadas, este néctar dos deuses ganhou a reputação de promover o nosso bem estar.
O vinho, tinto em particular, tem sido associado a uma maior longevidade, a uma melhor circulação sanguínea, a uma maior densidade óssea, ao retardamento do envelhecimento celular, à perda de peso e a um menor risco de doenças cardíacas. Apesar de podermos usar esta "desculpa" para comprar mais algumas garrafas, não acredito que a maior parte de nós, beba vinho, sobretudo, por motivos de saúde, por isso passemos a outro...
Estes dias li um artigo de Madeleine Puckett que defendia que o consumo moderado de vinho (coisa que todos os leitores deste blogue fazem, aliás, acredito que nem soubessem que existia outra maneira de o consumir ;)) poderia aumentar a nossa libido e, bem ... isso quer dizer que nos deixaria com desejo sexual (não usei a palavra que Madeleine Puckett usou, e que rima com descontração, porque caso contrário, teria a Clarisse a moer-me o juízo durante um mês ;).
Madeline argumenta que em pequenas quantidades (2 copos de vinho), o álcool aumenta a nossa libido, fazendo-nos sentir com a necessidade de usar Fenistil. ;) Isso acontece porque o etanol estimula uma parte muito primitiva do nosso cérebro chamada hipotálamo, que está localizado logo acima do tronco ... cerebral. Essa parte do cérebro regula as nossas funções básicas, incluindo a temperatura corporal, a fome, os níveis hormonais, o apego parental e, é claro, o nosso impulso sexual.
Já agora, as mulheres sentem-se particularmente "acesas" com aromas almiscarados, terrosos, amadeirados, de alcaçuz e de cereja que normalmente encontramos nos Pinot Noir, Nebbiolo, Barbera, Sangiovese, Syrah e Cabernet, todos eles já com alguma idade, se possível (digam lá que não sou vosso amigo!!!). Por sua vez os homens parecem sentir-se sexualmente despertos (a trabalheira que eu estou a ter para evitar palavras mais assertivas) com as notas de lavanda, caramelo, manteiga, laranja, alcaçuz, especiarias recozidas e baunilha. Para estes, procurem vinhos como o Moscato, Sherry seco, Porto Tawny, Grenache, Syrah, Chardonnay (especialmente os com madeira) e Pinot Noir, Viognier.
Confessem lá que agora passaram a ter mais um critério que vai pesar na vossa decisão de escolher um determinado vinho!!! No entanto, e embora a percentagem de pessoas que se possa encaixar nesta categoria pudessse ser maior, esse não é, o motivo que vos quero falar hoje. Essa razão é o facto do vinho nos permitir viajar espiritualmente numa altura em que isso não nos é permitido fazer fisicamente. Provar e beber vinho é uma autentica viagem, de descoberta de novos aromas e sabores, que tem o condão de, por vezes, nos fazer tele-transportar para o sitio onde esses vinhos assentaram os pilares na terra.
Continuando no enquadramento literário de Ken Follett para os prémios do blogue deste ano, não sei se estes heróis vínicos, na sua luta diária, procuravam também reconhecimento, simplesmente vinho, uma vida monástica, o corpo bonito de alguém, ou apenas justiça, o facto é que tenho de lhes agradecer as fantásticas viagens que me proporcionaram, sobretudo no contexto #cáporcasa, no qual recebi perto de 400 vinhos em casa, mais que um por dia!!!
Por causa deste número astronómico (que fez com que não tivesse conseguido dar destaque a todos) e também por me ter sido pedido por alguns produtores, vou criar uma nova rubrica, o #notasoltas, na qual passarei a colocar as notas de prova de vinhos com classificação inferior a 85 pontos, numa publicação (forçosamente) menos culturalmente esmiuçada que as outras. A ver se este ano, não deixo "ninguém de fora". Passemos então a enumerar os ilustres vencedores deste ano.





Um espumante ao qual 
Um 
Um vinho quase opaco com auréola violeta. Carrega aromas de lavanda, mirtilos, alcaçuz e chocolate After Eight. No palato é mineral (xisto quebrado), complexo, acertivo, com uma acidez entusiasmante e exibindo dupla personalidade: é intenso, estruturado, firme e com taninos aguerridos mas ao mesmo tempo, é fino, terrivelmente elegante, nobre e genuíno, atrevo-me mesmo a dizer que tem aquela altivez de porte das elites vínicas. É um vinho para 
Um vinho que nem me atrevi a pontuar objectivamente, mas cuja experiência e subjectividade relacionada com a prova de um vinho tão antigo, tem certamente 100 pontos. Do Ferreira Vintage 1863 não se conhece o enólogo (na altura adegueiro), a origem das uvas, que quantidade de aguardente foi adicionada ou que castas o constituem, mas é um vinho enorme. Provavelmente feito com quantidades consideráveis de castas brancas carrega sobranceiramente biscoito, maçã verde (??!!??), passas, chocolate branco, amêndoas, charuto, café, iodo e farmácia. Um hino aos aromas terciários e que no palato se passeia com elegância, intensidade, equilíbrio e complexidade.
De côr âmbar acastanhada este 40 anos da Pacheca apresenta aromas complexos a caramelo, chocolate, a especiarias (noz moscada e canela), a nozes, a pêra confitada e a mel. O palato é simplesmente delicioso, longo e aveludado. Este será, quiçá, o sitio onde nos sentimos melhor em família... Visitamos a Pacheca antes de casar, depois de casar, antes da Bia nascer, depois da Bia nascer, antes do Gui nascer e depois do Gui nascer!!! Sempre na companhia deste 40 anos, 
A Taylor's iniciou esta " espécie de Colheita de 50 anos" com a edição de 1964 (ou, como eles preferem dizer, Tawny de colheita única). Este 1968 parece-me muito mais fino que as edições anteriores e está cheio de noz, caramelo, pimenta e cravo da India. O palato é sustentando por uma elevada densidade, textura redonda, uma elegância vincada e uma acidez muito bem integrada. O final é ... interminável... 
Não gosto de me repetir, mas este também é um vinho enorme e que nos parece querer mostrar que "
De cor amarelo-citrina este é um vinho que nos prova, que por vezes, 
Traja um amarelo-citrino bonito e tem uma bolha muito delicada, emanando deliciosos aromas a relva acabada de cortar, abacaxi, maçã verde e um ligeiro brioche. Na boca é super elegante, aveludado, crocante e super fresco. Um espumante muito fino, coerente, complexo que nos sussurra que 


Resultante de uvas colhidas nas vinhas de baixa altitude da quinta e de uma posterior selecção dos lotes com maior qualidade e envelhecidos em cascos (de 600 litros) com dezenas de anos, exibe um traje vermelho-romã aloirado e aromas deliciosos a fruta vermelha compotada (ameixa, morango e cereja), doce de amora silvestre, cassis, figos secos, chocolate, caramelo, baunilha e pinhão tostado. Se o deixarmos um pouco mais de tempo no copo surgem umas notas deliciosas a iodo, que o tornam muito complexo. Na boca é denso, longo, largo e com uma acidez muito equilibrada. Este é 


No ano passado tive o prazer de acompanhar quase todos os projetos que o Diogo tem. Faz e ajuda a fazer vinhos com uma relação qualidade/preço, que chega quase a ser obscena. Após estágios pelas principais regiões portuguesas e por Napa Valley, na Califórnia, acabaria por começar a trabalhar em 2005, no Alentejo, ao lado de uma grande referência do vinho em Portugal, hoje um grande amigo: Anselmo Mendes. Vindima após vindima, surgiram novos desafios e novos projectos. Entre o Alentejo, a Região dos Vinhos Verdes, os Açores ou a Região de Lisboa. Tenho a certeza que o Diogo vai longe, não vou acrescentar muito mais porque estou a preparar uma publicação totalmente dedicada a ele. ;)
Luís Leocádio (Enologia) e Vanessa Santos (Gestão), nascidos e criados no Douro; ele em Trevões, ela em Paredes da Beira, freguesias de São João da Pesqueira, saíram das raízes para estudar e ganhar experiência, regressando às origens, iniciando em 2016 o projecto Titan of Douro. O Luís esculpe vinhos com denominadores comuns óbvios, de que são exemplo a enorme complexidade, a elevada frescura, a mineralidade muito própria, a intensidade inebriante, a harmonia completamente arrebatadora e a identidade muito vincada. É por todos estes detalhes que acho que a noção holística que o Luís desenvolveu nestes vinhos não se esgota apenas na construção de cada um individualmente, mas na sua concepção em conjunto. 



E amigos, é assim que chegamos ao fim. Parabéns aos "vencedores". Segunda feira voltamos a "encontrarmo-nos" para o anúncio dos "melhores da restauração"...Até lá, seja pela vossa saúde, por motivos libertinos, pelas viagens mentais, pelo reconhecimento, pela procura de corpos de mulheres (ou homens) bonitas(os), pela vida monástica ou pela justiça, bebam vinho que vos vai fazer bem. ;)
Há trinta anos, Ken Follett publicou o seu romance mais célebre, Os Pilares da Terra, que nos deu a conhecer a história de um humilde pedreiro e mestre de obras, Tom, que sonhava construir uma imponente catedral, cheia de luz e dotada de uma beleza sublime, na cidade de Kingsbridge e durante as sucessivas guerras que se sucederam à morte do único herdeiro do rei Henrique I. O sucesso conseguido com este romance histórico e a legião de seguidores que ganhou com o priorado de Kingsbridge fizeram com que voltasse exactamente àquele mesmo local, dezoito anos depois, com a publicação de Um Mundo Sem Fim, abordando os problemas da Peste Negra.
Seguiu-se Uma Coluna de Fogo, narrando a luta entre protestantes e católicos. Todos eles best-sellers. Agora, surge uma nova prequela com 700 páginas, Kingsbridge: O Amanhecer de uma Nova Era, que nos faz embarcar numa viagem épica a um passado rico em ambição e rivalidade, mortes e nascimentos, amor e ódio, e que, pelos vistos, termina quando começam Os Pilares da Terra.
Neste novo livro corre o ano de 997 d.C., aproximando-se o final da Idade das Trevas. A Inglaterra enfrenta os ataques dos galeses vindos do Oeste e dos víquingues a Leste. Os poderosos usam a justiça a seu bel-prazer, ignorando o povo e entrando muitas vezes em conflito com o rei. Na ausência de leis claras, reina o caos. Nestes tempos conturbados, cruzam-se os destinos de três personagens.
Um jovem construtor de barcos tem a sua vida arruinada quando o único lar que conhece é atacado pelos víquingues, obrigando a que ele e a sua família mudem de terra e recomecem a vida num lugarejo longínquo. Uma mulher nobre da Normandia casa-se por amor e segue o marido até uma terra nova além-mar. Um monge tem o sonho de transformar a sua humilde abadia num centro de conhecimento que suscite a admiração de toda a Europa. E mais não vos posso contar porque ainda vou na página ... 92. ;)
No entanto já percebi que esta prequela d’Os Pilares da Terra é terrivelmente viciante e imersiva, parecendo querer intrometer-se em problemas contemporâneos como a intolerância, o abuso de poder, a avaria do elevador social, os perigos das (in)justiças, a luta das minorias, a misoginia e a (falta de) ética na política. Curiosamente há mais uma contemporaneidade neste livro e que me fez escolher Kingsbridge: O Amanhecer de uma Nova Era para adornar literariamente a publicação relativa aOs meus melhores de 2020.
Existe nas suas páginas iniciais um temível inimigo comum, os víquingues, para o qual os diferentes reinos juntam esforços com o objectivo de o derrotar. Víquingues esses que provocam medo, mortes, fome, desemprego e um certo "baixar de braços" de parte da população. Só os mais corajosos compravam embarcações. Hoje a publicação é dedicada a pessoas parecidas com eles, aqueles que não baixaram os braços e perseguiram a excelência, mesmo num ano conturbado como o que acabamos de viver.
Nos dias que correm, o inimigo é outro e bem mais perigoso. Não são os piratas nórdicos com as suas lanças, machados, capacetes e barcos extremamente rápidos. É um inimigo invisível, cobarde e implacável. Tal como os bravos de Kingsbridge, não podemos deixar que a produção de "barcos" abrande, nem que para tal os passemos a projectar em casa. ;)
Tenho a certeza que, quer no livro quer na pandemia, tudo vai ter um final feliz, para isso basta que tenhamos juízinho e que aguardemos com esperança, proactividade e segurança, o amanhecer de uma nova era.
Com a precisão de relógio suíço (os melhores de 2019 foram anunciados precisamente há um ano), aqui estão os melhores de 2020 para a família No Meu Palato, no que aos hotéis diz respeito:
Este hotel veio trazer ao Porto um conceito inovador que combina na perfeição a monumentalidade arquitectónica do edifício e a história da cidade, com a elegância e estilo franceses, materializado numa contemporaneidade cosmopolita. Ostenta, com orgulho, um ambiente muito próprio. Se, por momentos, deixarmos de olhar para os Aliados somos tele-transportados para uma cidade não tão utópica quanto a Altantida, mas igualmente encantadora: Paris - através do design, dos cheiros, dos sabores e dos sons. Nele encontramos 
Beethoven ajudou-me a completar a 
Durante séculos esta Quinta foi um santuário privado de família por onde passaram Reis, Imperadores, saudosistas, sonhadores, e também todos quantos apreciam a arte de bem viver e que queiram descobrir, de bem perto, a bela lenda de amor de Pedro e Inês. Por falar em reis, a suite do Rei onde ficamos instalados é dos quartos mais bonitos onde tivemos o privilégio de dormir. É impossível ficar-se indiferente a tamanha carga histórica e imensidão de adornos rusticamente elegantes. Lá, percebemos que vale sempre a pena 
Este hotel tem uma localização privilegiada na cosmopolita praia de Vilamoura, encontrando-se ao lado do Casino e a curta distância da Marina. Beneficia ainda de excelentes acessibilidades, com os campos de Golfe de Vilamoura (a cerca de 5 minutos de distância) e o Aeroporto de Faro (a apenas 20 minutos de carro). Os quartos decorados com extremo bom gosto (tons suaves de marfim, texturas naturais e uma casa de banho elegante e num ambiente open space), possuem varandas mobiladas. O nosso (Junior Suite) tinha ainda uma vista frontal para o mar simplesmente arrebatadora. É em locais como estes que percebemos que vale a pena sonhar, nem que sejam 
Só um humanista sonhador como o rei D. Carlos poderia ter idealizado um hotel assim: cor-de-rosa, ao estilo Belle Époque, com coberturas azul turquesa, os abóbadas em estuque cinzento claro e adornadas com metal potenciadoras de um ambiente de culto à arte através da nobreza dos espaços. Quando entramos no hotel, somos convidados a desfrutar de um dos magníficos 70 Quartos & Suites ou a relaxar no moderno SPA Termal, cuja água mineral de Vidago, reconhecida pelas suas qualidades terapêuticas de excepção, é a rainha absoluta (se bem que a Bia tentou-lhe pôr o reinado em causa ;))!!! 


Rio abaixo e montanha acima, por entre uma paisagem virginal património mundial, surge essa propriedade da Churchill's, que encarna o verdadeiro espírito do Douro: vistas de cortar a respiração, um staff amigo e acolhedor (a Tatiana é uma querida), num ambiente que transpira enosatisfação e paz, e no qual podemos desfrutar de 
Na minha opinião, o



Nos próximos dias anunciarei os vencedores nas duas outras categorias, vinhos e restaurantes. Até lá, fiquem por casa, mas não deixem de projectar barcos. Juízo que isto vai passar!!! ;)
Gostam de Monty Python? Caso não os conheçam, faço-vos um resumo (muito resumido) dizendo que, muito provavelmente, este grupo de sátira britânico foi a maior/melhor escola de comédia dos humoristas, que hoje em dia e a nível mundial fazem sucesso (se gostam de Saturday Night Live, vão-se apaixonar por Monty Python).
Eohn Cleese, Graham Chapman, Terry Jones, Michael Palin, Eric Idle e Terry Gilliam compunham a trupe que decidiu denominar o projecto como "Monty Python’s Flying Circus", porque, segundo eles, “Monty Python” fazia alusão a um agente artístico manhoso. Os Monty Python revolucionaram o humor, quer na televisão quer no cinema, mais isso é pouco para os classificar justamente.
Como Lauchlan Chipman (um professor de filosofia de Oxford) uma vez disse, este grupo provocou “um corte epistemológico sísmico no humor e na comédia em geral”. Tiveram um impacto tão grande, que pessoas como eu, nascidas já após o lançamento do seu ultimo filme em 1983, continuam a achar-lhes um enorme piadão, mesmo em sketchs já com mais de 40 anos.
Mas hoje, o cerne da história não são os Monty Python (prometo que ficam "guardados" para uma próxima) mas sim um desses sketchs, na qual os Monty Python planeiam entrar em guerra com os romanos. Para "legitimar" essa violência gratuita, acabam por colocar a questão: "Não tenhamos pena deles, afinal, que raio é que os romanos nos deram?".
Até que alguém responde sarcasticamente: "Bem, tirando o saneamento, a medicina, a educação, a ordem, a justiça, a irrigação, os vinhos, as estradas, os aquedutos e a saúde pública ... nada!!!"
Uma descrição divertida, mas bastante precisa de como a Roma antiga influenciou o desenvolvimento da sociedade moderna, um pouco por toda a Europa. Mas será que também lhes devemos o Algarve e a maneira como o (vi)vemos?
A sua posição geográfica, perto de antigas rotas comerciais marítimas, fez com que o Algarve, ao longo da sua história, tivesse sido invadido e povoado por várias vezes e por diferentes tribos. Os Cónios (séc. VIII a.C.) foram os seus primeiros habitantes.
Depois chegaram os Fenícios e mais tarde os Cartagineses (que fundaram Portimão em 550 a.C.). Os romanos invadiram não só o Algarve como também toda a Península Ibérica em 218 a.C., na mesma altura em que o líder cartaginês, o temível Aníbal, marchava com as suas tropas em direcção a Itália para atacar Roma.
Os cartagineses que foram deixados para trás sob o comando do irmão de Aníbal (Hanno), foram então atacados pelos romanos (rezam as crónicas que numa proporção de 2 para 1) e foram rapidamente derrotados. No entanto, os cartagineses regressaram de Roma para defender a "sua" península e recuperaram imediatamente parte do seu controlo.
A guerra continuou por mais 13 anos até 205 a.C., altura em que os romanos finalmente derrotaram os cartagineses, assumindo o controlo de toda a Península Ibérica, particularmente do Algarve e da sua posição geo-estratégica. Diz-nos a história que o Algarve foi usado como "posto de controlo" das viagens atlântico-mediterrâneas e como campo de treino dos principais oficiais do exército romano.
Perto de onde hoje fica Vilamoura ainda podemos encontrar evidências da existência de um lago e de uma "barragem" que fornecia a água preciosa aos soldados romanos. Mas para mim (bah, e também para um outro historiador ;)) existem mais dois motivos para os romanos se terem deixado ficar pelo Algarve.
Primeiro, as vinhas que trouxeram consigo deram-se muito bem com os solos e ares do Algarve, produzindo vinhos macios, aveludados e quentes. O segundo, e para não dizerem que justifico sempre tudo com o vinho, tem a ver com o facto dos romanos saberem "levar a vida".
Eles acreditavam numa espécie de terapia pela água, que podia curar quase todos os males. Não é por acaso que um pouco por todo todo o império romano havia este costume de tratar o corpo e a mente através da água e dos banhos. Esta era, aliás, uma das actividades mais comuns na cultura romana, praticada por quase todas as classes sociais.
Embora muitas culturas vissem e ainda vejam o banho como algo muito privado, realizado ocultamente em casa, o banho em Roma (e em todo o seu império) era uma actividade comunitária. Ainda que os muito ricos pudessem pagar instalações de banho nas suas casas, a maioria das pessoas tomava banho nos banhos comunitários (as termas), que em alguns aspectos se assemelhavam aos SPAs modernos.
Os romanos transformaram essa devoção à agua em cultura ao socializarem e criarem laços afectivos através desses banhos comunais. Felizmente, hoje em dia não precisamos de derrotar o temível Aníbal e o seu sangrento exército para desfrutar do poder revitalizante através da água que o Algarve nos dá.
Para honrar este legado romano com mais de 2000 anos e revigorar o corpo (e a mente) após este confinamento, nada melhor que planear o regresso à nova "normalidade", quando a pandemia o permitir, com uma visita ao Crowne Plaza Vilamoura, em pleno palco de todos estes acontecimentos históricos.
Tivemos o prazer de o visitar em Setembro passado, em segurança e segundo todas as normas da DGS (tudo está pensado para reduzir os contactos, desde o check-in/check-out online, até à higienização constante dos espaços, passando pelo distanciamento físico entre famílias/grupos nos diferentes espaços).
Este hotel tem uma localização privilegiada na cosmopolita praia de Vilamoura, encontrando-se ao lado do Casino e a curta distância da Marina. Beneficia ainda de excelentes acessibilidades, com os campos de Golfe de Vilamoura (a cerca de 5 minutos de distância) e o Aeroporto de Faro (a apenas 20 minutos de carro).
Os quartos decorados com extremo bom gosto (tons suaves de marfim, texturas naturais e uma casa de banho elegante e num ambiente open space), possuem varandas mobiladas. O nosso (Junior Suite) tinha ainda uma vista frontal para o mar simplesmente arrebatadora.
Para além de uma enorme piscina exterior de frente para o mar e um extenso areal com espreguiçadeiras e sombras, o Clube Infantil Peter Pan (que fez as delicias da Bia) disponibiliza snacks de boas-vindas e um filme de animação diário, enquanto que os adultos podem desfrutar de uma massagem relaxante no Almond Tree Wellness Spa (apenas com o intuito de honrar os romanos, nós até não gostamos muito desse tipo de coisas ;)).
Além do serviço de quartos disponível 24 horas por dia, o restaurante do hotel (Restaurante Cataplana) serve diariamente uma mistura de cozinha regional e internacional. Por sua vez, o Bar Caravela propõe uma variedade de bebidas e de aperitivos, estando ainda disponível uma esplanada de Verão com vista para o mar com snacks e churrascos. Tudo isto é claro, na companhia dos tais vinhos macios, aveludados e quentes do Algarve ;).
O pequeno-almoço (assim como todas as refeições) tem muita quantidade, variedade e qualidade, sendo servido pelos funcionários do hotel e com um acrílico que impede a aproximação excessiva dos clientes à comida. O serviço é eficaz, seguro, competente e bastante próximo, sem se tornar evasivo. Este é um hotel cosmopolita que nos faz querer ser tudo, numa relação simbiótica com o mar que o embala e adorna.
Fernado Pessoa certa vez disse sobre o mar: "Olhando o mar, sonho sem ter de quê. Nada no mar, salvo o ser mar, se vê. Mas de se nada ver quanto a alma sonha! De que me servem a verdade e a fé? Ver claro!"
Por vezes o mar é bom exactamente para isso, para além de nos purificar o corpo e a alma, tem o condão de nos fazer sonhar, ainda que por vezes, especialmente em tempos como os que vivemos, sejam sonhos sem ter de quê. Façamos como os Romanos, ganhemos primeiro esta batalha, para depois nos banharmos. ;)