Pateo dos Solares Charm Hotel | Pós de perlimpimpim
"É uma espécie de encanto... Se tem charme, não precisa de mais nada; se não o tem, tudo o resto não serve para grande coisa.” James Barrie
Era uma vez uma família que morava numa pequena vila de Castelo Branco, no tempo de El-Rei Dom Afonso III. Família essa que foi expulsa dessa vila pelo rei, devido a um grave delito perpetrado por alguns habitantes albicastrenses. De terra em terra, deslocando-se para sul, pai, mãe e uma pequena menina foram procurando nova casa, até que se depararam com um alto tremoceiro, perto de um castelo abandonado.
Lá armaram a sua tenda para descansarem e pernoitarem. Na manhã seguinte, foram acordados por um velho, proprietário daquelas terras que reclamava da presença da família sem a sua autorização e que por esse motivo os tentou expulsar. A família recusou-se a sair, uma vez que estava a ser maltratada sem razão e também porque já havia sido expulsa de uma vila por delitos que não tinha cometido.
Ao ouvir que a família era perseguida, embora injustamente, o velho irado pediu ajuda a homens armados para os obrigarem a sair das suas terras imediatamente. Sentindo-se ameaçados, injustiçados e insultados, mas de consciência tranquila, a corajosa família, sob a ameaça das armas, recusou-se a abandonar o abrigo do tremoceiro.
Neste impasse, o proprietário e respectivos homens armados recolheram ao abrigo de uma casa para pensarem numa nova estratégia, mais eficaz, que convencesse a família a sair dali. Passado algum tempo, pai e mãe deram por falta da filha. A pequenota tinha ido encontrar-se com o velho proprietário. Disse-lhe que os pais eram gente trabalhadora, simples, honesta e com capacidade para fazer daquele local uma linda povoação.
Convencido pela coragem, inteligência e iniciativa da menina, o velho proprietário foi ter com os pais da menina para os informar que a "guerrilha" havia terminado uma vez que ele já aceitava a presença da família nas suas terras. Com a ajuda de outros transeuntes que por ali foram procurando abrigo, fundaram as primeiras casas e a Rua Direita e, ao cabo desta, a Igreja Paroquial de Sant’Iago.
Alguns anos mais tarde, esta pequena povoação recebeu o foral de D. Afonso III. O mesmo rei que os havia expulsado de um sitio dava-lhes agora um documento que reconhecia a sua nova cidade. Havia agora a necessidade de escolher um nome para essa nova terra. Foram inúmeras as sugestões, no entanto e em gesto de reconhecimento, o velho proprietário resolveu deixar a palavra final para a criança.
Em homenagem à árvore, deu-lhe o nome de Estremoços. Com o decorrer do tempo os estremoços passaram a chamar-se tremoços e a cidade ficou com o nome de Estremoz. Foi nestas terras que mais tarde (no século XIII), decorreram as negociações do noivado do rei D. Dinis com a futura rainha Santa Isabel, que viria a falecer nos paços deste concelho. Aqui viveu também, por muito tempo, D. Pedro I até 1367, o ano da sua morte.
Foi também em Estremoz que em 1417, se reuniram as cortes após a reconquista de Ceuta, com vista à angariação de fundos para a defesa daquela cidade afro-lusitana. Hoje em dia, a pequena cidade de Estremoz assumiu-se como um dos maiores charmes da planície alentejana, tornando-se conhecida pela excelência da sua gastronomia, da qualidade dos seus vinhos e pela riqueza das suas belas paisagens.
É no centro de Estremoz que podemos encontrar o Pateo dos Solares Charm Hotel, e charme é mesmo a palavra que melhor classifica este hotel. Dali é possível ter acesso privilegiado ao movimento da cidade, às suas gentes e ao comércio local. Encostado à muralha da cidade, donde se avista o castelo medieval e a cidade velha (erguida com a ajuda dos pós de perlimpimpim da menina da lenda), o hotel debruça-se sobre o horizonte da paisagem alentejana e as suas cores quentes.
De um requinte sóbrio, de bom gosto e intemporal, o hotel recebe hóspedes que procuram a serenidade das planícies alentejanas, a tranquilidade rural e a história local, tudo isto enquanto se respira o ar puro alentejano. O restaurante Alentejo à Mesa, coração do hotel, é um local de passagem obrigatória para aqueles que como eu são apaixonados pela enogastronomia alentejana.
Este restaurante oferece uma selecção de pequenos pratos de degustação, perfeitos para experimentar e petiscar os vários sabores alentejanos com um leve toque de inovação, à volta de uma mesa com amigos ou família.
É ainda possível almoçar/jantar/lanchar com tranquilidade na esplanada, sabendo que o restaurante cumpre com todas as normas de segurança de limpeza, conforme o selo Clean & Safe, atribuído pelo Turismo de Portugal.
As refeições são harmonizadas com vinhos provenientes de alguns dos melhores produtores da região, como os vinhos de João Portugal Ramos, Quinta do Carmo, Dona Maria, Adega de Borba e Herdade das Servas. Para os mais "duros" há ainda aguardentes e gins locais, prontos a serem descobertos.
Gostei, particularmente, da vegetalidade crocante dos Espargos em tempura, da voluptuosidade fresca da Açorda Alentejana com bacalhau e ovo e da intensidade da Pluma de porco preto, migas de espargos e chips de batata (este "exagero" gastronómico foi o meu prato favorito).
Nas sobremesas é dado um toque extra de elegância e sofisticação com a Queijada de requeijão com morangos, com Encharcada com crumble e sorbet de tangerina e com o Duo de chocolate. Inovação e tradição de mãos dadas, alicerçadas no sabor e na qualidade dos produtos. Muito bom!!!
Quando a pandemia o permitir será reaberta a área de bem-estar, que pretende ser um espaço holístico e que promove a saúde física e mental, através de um conjunto de experiências como as massagens de relaxamento e tratamento (à base de óleos essenciais e cremes de elevada qualidade), o banho turco e a sauna, que tornam este espaço ideal para momentos de puro descanso.
Todo este requinte, sossego e legado histórico encontram-se suficientemente longe para evitar as confusões e suficientemente perto para tornar a viagem agradável e prazerosa. Há lá uma espécie de encanto, um certo charme, que fui encontrando em cada canto.
Algo muito parecido com pós de perlimpimpim, os mesmos que a menina teve a negociar com o velho proprietário, ali bem perto, há uns séculos atrás por debaixo de um grande tremoceiro. E se tem isso, convenhamos, não precisa de mais nada!!! ;)
A pequena Alice está sentada numa cadeira na sua sala de estar, em frente a um espelho enquanto conversa com a sua gata Kitty, até que se apercebe do mundo alternativo que existe do outro lado do espelho. Como em todas as boas histórias, a menina decide explorar esse outro mundo desconhecido, encontrando um lugar fisicamente muito parecido com o real, mas muito diferente nos "acontecimentos". É nesse mundo encantado que descobre um relógio sorridente, peças de xadrez divertidas e um livro com o texto invertido e que apenas pode ser lido num espelho.
Depois de deixar a sua sala, passar para o outro lado do espelho e de um breve/atribulado passeio pelo jardim, algumas flores falantes encaminham a Alice para a Rainha Vermelha, que a informa que vai passar a fazer parte de um jogo de xadrez gigante. O objectivo deste jogo é fazer de Alice uma rainha. Para isso vai contar com a ajuda da rainha Vermelha que a instruí enquanto lhe explica a natureza retrógrada do mundo daquele lado do espelho.
É assim que o livro Alice do Outro Lado do Espelho de Lewis Carroll começa. Uma obra publicada em 1871 e que brinca com a noção de tempo, discute os diferentes eus e introduz questões muito contemporâneas como a luta pela igualdade (real) por parte das mulheres ou a problemática das fake news. O livro retoma ainda uma velha questão, introduzida em Alice no País das Maravilhas, o de quem nós somos e o que define o que somos?
Quando Alice encontra a Lagarta, uma das primeiras coisas que ela lhe faz é perguntar quem ela é (de uma forma bastante exigente e agressiva, devo acrescentar...). Se eu vos fizesse a mesma pergunta, provavelmente responderiam com os vossos nomes. Mas é isso o que vos define? Quem são vocês realmente? Como vos descreverias a outra pessoa? Essas não só questões fáceis de responder, uma vez que é importante darmo-nos a conhecer da melhor maneira possível, mas é também igualmente importante não nos limitarmos a rótulos e a ideias pré-definidas.
Alice, por ter passado por tantas coisas e por ter mudado física/mentalmente um sem número de vezes, desde que entrou no seu País das Maravilhas, não sabe como responder adequadamente à pergunta introspectiva da Lagarta. Tal como a Alice, também nós mudamos com o tempo. A pessoa que somos hoje não é a mesma que éramos ontem, e isso, ao contrário do que possa parecer, é algo realmente bom. Quando não mudamos, não crescemos. Uma das razões pelas quais algumas pessoas parecem não mudar é porque muitas vezes se limitam a uma definição do que deveriam ser (ou foram).
É por tudo isto, que a Alice aprendeu que devemos promover um eu diferente para cada contexto em que estejamos (não devemos dançar a Macarena enquanto dá-mos uma aula, nem ensinar Física quando estamos numa festa de aniversário animada). No entanto, esses diferentes eus devem confluir num conjunto de valores e atitudes que não mudam em função da circunstância. Caso contrário corremos o risco de por um lado sermos uma seca/monótonos e por outro não termos identidade. Isto também é particularmente importante quando falamos de vinhos.
Por um lado, não se pode ficar preso a "receitas de sucesso" que apesar de vencedoras podem tornar os vinhos demasiado homogéneos, por outro não se deve exagerar na heterogeneidade que pode levar à perda do "fio condutor identitário" que, na minha opinião, caracteriza um bom produtor/enólogo. Um bom exemplo desta capacidade de fazer diferente fazendo congruente são os vinhos com a chancela Alves de Sousa. Neles existe o respeito pela vinha velha mas também pela inovação com a optimização de vinha nova, consegue-se fama em vinhas especificas (Vinha do Lordelo e Abandonado) mas também em lote (Quinta da Gaivosa) e promove-se a excelência em parcelas abandonadas como a do .... Abandonado - Quinta da Gaivosa mas também em vinhas "adoptadas" - Quinta da Oliveirinha.
A presente publicação vai esmiuçar vinhos dessas duas quintas, começando pelo Branco da Gaivosa 2019 (10.90 €, 86 pts.) proveniente de uma vinha com mais de 20 anos. De cor amarela-citrina-palha exibe um nariz muito aromático com lima, damasco, maçã, acácia-lima, cera de abelha, fumo e um anis muito ligeiro. Na boca é muito fresco, ligeiramente untuoso, tem bom volume e uma mineralidade muito vincada (xisto molhado). Foi muito bem com uma Terrine de foie gras e pera bêbada.
Por sua vez, o Gaivosa Primeiros Anos 2017 (13.90 €, 88 pts.) é resultante da primeira produção da vinha nova, com 13 castas misturadas e mostra-se num rubi-purpura denso muito atraente. No nariz tem uma fruta bastante madura com amoras, framboesas, groselha e morangos. Tem também apontamentos mais discretos a especiarias, cedro e alcatrão que lhe ficam muito bem. Na boca é carnudo, redondo e equilibrado.
O rubi denso Quinta da Oliveirinha Grande Reserva 2017 (21.90 €, 93 pts.), proveniente de uma vinha velha com mais de 60 anos, foi uma bela surpresa. Fez-me, por momentos, recordar alguns grandes do Douro a um preço bem mais acessível. O nariz é muito complexo com amoras, ameixa preta, mirtilos, sous-bois, cedro, resina, caixa de tabaco, alcaçuz, café, gengibre e algumas notas arbustivas (os balsâmicos são super sedutores). No palato passeia-se com uma notável frescura e mostra uns taninos bem integrados, persistência, complexidade e harmonia (ainda que com algumas arestas intrigantes).
Pensava que seria o que combinaria melhor com a Perna de cabrito assada (daí a fotografia), mas, com o decorrer do tempo, o Primeiros Anos saiu-se (bastante) melhor. No entanto, o Quinta da Oliveirinha deu-me a conhecer um "outro eu" de Alves de Sousa que gostei bastante. Tenho a certeza que num par de anos este vinho terá muito mais reconhecimento. Qualidade, identidade e originalidade já não lhe faltam.
Às 6h31 do dia 21 de Dezembro de 1968, um sábado, o mundo susteve a respiração no momento em que a NASA lançava a sua primeira missão tripulada à lua. Quando os astronautas William Anders, Frank Borman e Jim Lovell se afastaram em direcção ao espaço, deixaram para trás um planeta "em chamas".
Martin Luther King e Robert Kennedy tinham sido assassinados; quase toda a África passava fome; a Guerra do Vietname intensificava-se; o conflito civil/estudantil começava a espalhar-se por toda a América do Norte, especialmente a partir dos confrontos relacionados com a convenção do partido Democrata em Chicago (já agora vejam o filme "Os 7 de Chicago" que vale bem a pena ;)); e os tanques soviéticos esmagavam a esperança da Primavera de Praga.
É neste cenário que a NASA põe "as fichas todas na mesa" para vencer a corrida espacial aos russos, com a missão Apollo 8, uma missão tão repentina quanto controversa. Felizmente e contra alguns maus agouros, os 3 astronautas conseguiram dar a volta à lua, 10 vezes, regressando em clima de celebração para a tumultuosa Terra. Pela primeira vez, havíamos conseguido viajar para fora do nosso berço planetário, mas o verdadeiro legado desta missão revelou-se apenas passados três dias, a 30 de Dezembro, quando a NASA divulgou uma
Com a Apollo 8 partimos em direcção ao espaço mas, paradoxalmente, o que nós verdadeiramente encontrámos foi ... a Terra e a oportunidade de remodelarmos a forma como nos víamos e de unirmos aquilo que nunca deveria ter sido separado. Há quem conheça esta fotografia pela expressão "o nascer da Terra", que entretanto se tornou lendária e uma das mais publicadas, uma espécie de selfie com 2.5 biliões de pessoas. Toda a gente estava nela, ainda que implicitamente, pois parte estava "do outro lado".
É verdade que nessa missão já haviam sido tiradas fotografias belíssimas, mas esta, em particular, tinha algo de diferente, algo epifânico, algo que roçava o poético. Foi tirada por um humano (e não pela lente calculista de um super-computador),
Graças a esta imagem, os humanos puderam ver, pela primeira vez, a sua casa comum, não como um conjunto de continentes ou oceanos, mas como um mundo que era inteiro, inseparável, belo, redondo, pequeno e vulnerável. Foi também por tudo isto que quando a Claire Aukett, a nossa amicíssima anfitriã aquando da visita às Caves Taylor's me disse para escolher um vinho para provar (e que ainda não tivesse provado) a minha eleição recaiu no Taylor’s Single Harvest de 1968. Mas antes do vinho, falemos das caves...
Estas caves albergam a maior parte das grandes reservas de vinho do Porto envelhecidos em madeira da empresa, bem como as suas garrafeiras de vinho do Porto Vintage. São armazéns misteriosos, longos, frescos e escuros, com as suas grossas paredes de granito e tectos altos, que ajudam a manter uma temperatura uniforme durante todo o ano, permitindo que os vinhos envelheçam lentamente e que gradualmente adquiram os sabores e aromas sublimes/complexos da maturidade.
Perfazendo já quatro séculos de existência, a Taylor’s procedeu recentemente à renovação das suas caves tricentenárias, por forma a incluir um programa de visitas no seu novo e inovador museu onde a história do vinho do Porto e da Taylor’s surge interligada através de um áudio-guia, de filmes, de material documental, de exposições, de fotografias e de pinturas. Acho esta estratégia muito interessante pois permite a obtenção de informação mais detalhada a quem o pretender, ao mesmo tempo que evita a "seca" de quem quer apenas uma visita menos pormenorizada.
Gostei particularmente do modo como a visita às caves está articulada com o museu, dando-nos a oportunidade de viajar até ao passado e aprender mais sobre as histórias do vinho do Porto e da casa Taylor’s, histórias essas que muitas vezes são indissociáveis. Tudo isto em clima de máxima segurança, mas para quem conhece a Taylor's, isso já não é grande novidade. Passando aos vinhos...
Depois do amarelo-palha Taylor's Chip Dry White Porto (16.50 €, 85 pts.) e as suas notas muito frescas a maçã e alperce, embaladas por uma tosta muito bem integrada e uma acidez crocante; e do violeta-purpura Taylor's Late Bottled Vintage 2014 (16.90 €, 89 pts.) com morangos, amora, groselha, casssis, hortelã-pimenta, acidez aguerrida, complexidade e elegância, chegávamos a dois assuntos muito sérios...
Já com uma evolução evidente na cor grená-tawny escuro o Taylor's Vintage 1985 (90.00 €, 95+pts.) só agora começa a perder a sua fruta primária (cassis, cereja e ameixa seca) dando origem a notas de couro, figos, chocolate, pimenta preta, cravo-da-índia e algum café. Posso estar enganado, acho que não estou, mas acho que temos vinho para pelo menos mais uma década. Nada anormal para as coisas bonitas nascidas em 1985 e que só melhoram com o decorrer do tempo... ;)
O castanho-aloirado Taylor's Single Harvest 1968 (399.00 €, 98+ pts.) parece-me muito mais fino e "gabarolas",(quase como um pavão) que as edições anteriores e está cheio de camadas, com noz, alcaçuz, caramelo, pimenta, canela, maçapão e cravo-da-Índia, tudo muito ponderado, equilibrado e harmonioso. O palato é sustentando por uma elevada densidade, textura aveludada, uma elegância vincada e uma acidez muito bem integrada. O final é sedutoramente interminável...
Tido por muitos como o ano que mudou o mundo, 1968 aprisiona um conjunto muito denso de acontecimentos, uns bons, outros maus, mas todos eles marcantes. De um modo ou de outro, não é possível dissociarmo-nos desses episódios enquanto apreciamos um vinho deste gabarito. Ao prová-lo, por acaso não pensei no que significaria para as outras pessoas, apenas pensei no que significava para mim. Neste berlinde vínico para além de uns terciários avassaladores também cheirei a ironia da missão Apollo 8, as notas do My Way de Frank Sinatra e o sonho de harmonia e igualdade de Martin Luther King.
Na #notasolta de hoje "falo-vos" de um vinho da Beira Interior, produzido pela Casa Agrícola Cova Da Raposa e cuja enologia pertence à Patrícia Santos. O Pombo Bravo Síria 2017 (4.50 €, 81 pts.) resulta de uma vinificação em “bica aberta”, prensagem, decantação em cubas inox, fermentação a temperaturas ente os 14ºC e os 16ºC e armazenamento em cubas inox.
Apresenta-se com uma primaveril cor amarelo-citrina e aromas primários muito puros com laranja, ananás, pêssego, loureiro, acácia-lima e alguma mineralidade (xisto molhado). Na boca é fresco, tenso e elegante. Dá-nos muito mais do que aquilo que o preço faz antever e pede comida ... e uma tarde de sol ;)
A arruda comum, Ruta graveolens L., também conhecida por erva da graça, é um arbusto que cresce de modo selvagem na Grécia, em Itália e também em Portugal (sobretudo nas zonas do centro e do sul, contudo, também a podemos encontrar no Minho). É também conhecida pela palavra grega πήγανον e pelo latim ruta, embora essas denominações, num sentido mais amplo, incluam espécies que não correspondam às que existem em Portugal.
Devido ao seu cheiro pungente, a arruda é desagradável para algumas pessoas, no entanto é bastante apreciada por outras, que gostam de aromas exuberantes e "amargo-frescos", não apenas na cozinha mas também nas bebidas, necessariamente refrescantes. Esses gostos, variam não só de pessoa para pessoa, mas também de acordo com a época, com o lugar e com o clima. A arruda é, aliás, um caso muito particular da subjectividade olfactiva/supersticiosa que às vezes existe, já deste a antiguidade greco-romana.
Comecemos pela parte negativa. A arruda era muito cultivada perto de mosteiros cristãos uma vez que se acreditava, na altura, que a sua ingestão funcionava como uma injecção de anti-libido, ajudando assim os monges e os frades a cumprirem a sua promessa de castidade. Existe ainda outro atributo, desta vez muito pouco cristão, o de potenciador de abortos. Relativamente ao seu uso como tempero há quem não aprecie a sua fragrância exuberante e que nos deixa o palato com uma sensação semelhante a termos ingerido limão.
Passando para a perspectiva "copo meio-cheio", o uso da arruda enquanto substituto de fármacos data, pelo menos, da Grécia clássica. Na altura, era plantada nos templos e utilizada como forma de prevenção para doenças contagiosas (reparem no "jeitaço" que ela não dá agora? ;)). A mesma civilização chegou a fazer dela uma acompanhante dos mortos para Outro Mundo, por acreditarem que a arruda afastaria todos os maus espíritos que bloqueassem o caminho dos defuntos.
Pensamento parecido tiveram os romanos em relação às propriedades protectoras da arruda, muito provavelmente por influência helénica. Desde a Antiguidade que a arruda é também associada a Diana, deusa romana da lua e da caça. Quer na antiga Grécia, quer no antigo Egipto era também muito usada para fortalecer a visão. Mais tarde, na Idade Média, era usada pelas parteiras que nessa época eram consideradas "bruxas", é por isso que em Portugal há quem a conheça como a erva das bruxas.
Uma crença popular de raiz africana, que remonta aos tempos coloniais, diz-nos que se os homens a usarem na orelha ou a colocarem à entrada de casa, a arruda vai ajudar a espantar os maus espíritos. Também os escravos africanos a usavam contra o "mau-olhado". Há ainda que destacar o seu papel de repelente de insectos, maioritariamente dos que se alimentam de outras plantas, daí ser considerada uma "guarda-costas" de plantas mais sensíveis. Existem ainda relatos de Leonardo da Vinci e Miguel Ângelo, que terão afirmado que esta planta lhes aumentava as visões interiores, estimulando a sua criatividade e introspecção.
Outros relatos, desta vez eno-gastronómicos, evidenciam que a arruda era usada quer por gregos quer por romanos para temperar a carne (mais ou menos com o mesmo objectivo da utilização da salsa) e também os vinhos. No caso dos vinhos o seu uso tinha a ver com a tentativa de colmatar a falta de acidez/vegetalidade/fragrância que alguns vinhos italianos possuíam nessa altura. São estas últimas características, aliadas às particulares condições de solo/clima/exposição solar que a arruda necessita, que me levou a utilizá-la para vos falar dos vinhos
Bem no coração da região dos Vinhos Verdes, esta quinta encontra-se num triângulo super-protegido (funcionando quase como uma "caixa torácica" que protege o coração) potenciador de um microclima específico, com a Serra da Galiza a Norte, o rio Minho/montanhas a norte-poente e com a cadeia montanhosa do Vale do Minho a fechar a sul. Esta particularidade faz com que não sofra a típica influência dos ventos atlânticos. Bebe também notas de diferenciação do seu solo de origem franco-argiloso e com exposição predominante de nascente-sul com 2-5% de inclinação.
Por último, a presença de um conjunto significativo de superfícies de água (rio Minho e principais afluentes) induz amplitudes térmicas menores. Todos estes factores quando conjugados na mesma equação, dão origem a vinhos frescos, bastante aromáticos e com um corpo nada comum para a região dos Vinhos Verdes. A juntar a tudo isto há ainda a enologia da Joana Santiago que engrandece essas particularidades através de uma bonita relação entre a modernidade (onde "nada falta" à vinha e aos vinhos) e a tradição (de deixar o terroir/viticultura sustentável/coração se expressarem). Esta relação que por vezes "vai de modas", na Quinta de Santiago é sinónimo de criatividade, genuinidade e identidade.
Os vinhos que vos falo hoje evidenciam, todos eles, esse bom trabalho de joalharia (que tira o melhor partido da pedra preciosa sem acrescentar "fogos de artificio" desnecessários) que os Santiago promovem. Começo pelo
Para acompanhar um Bacalhau confitado, redução de Porto com cebola roxa e couve romanesco nada melhor que o
Já o Rascunho by Quinta de Santiago 2018 (25.00 €, 91 pts.) traja um tom dourado com auréola verde e brinda-nos com notas expressivas a querosene, maçã, lichias, damasco, pimenta branca, cravinho e um fumo muito discreto. No palato há uma certa e intrigante desordem. É persistente, inebriantemente/viciantemente fresco, tenso, crocante, mineral (rocha marítima molhada), elegante e ligeiramente arbustivo. Acompanhou, superlativamente, um Polvo assado com puré de batata doce e damasco.
Nota ainda para as palavras sempre assertivas da Bia, enquanto eu tentava "fugir dela" para fotografar estes vinhos: "Papá, estes vinhos cheiram diferente, o que é?". Quando até um nariz inexperiente como o da minha filha percebe que há qualquer coisa de inusitada nos Quinta de Santiago, acho que está tudo dito. Respondi-lhe que essa diferença advinha do terroir privilegiado e de uma viticultura de excelência assente numa enologia de precisão e com umas "pitadas de arruda". Ao que ela respondeu: "Ah???!!!???" :P
O primeiro vinho alentejano da Sogrape surge em 1991, produzido com uvas seleccionadas adquiridas a produtores da zona da Vidigueira e vinificadas numa adega local, alugada para o efeito, sob a orientação da equipa de enologia da Sogrape. O Vinha do Monte, um vinho que é hoje um clássico da região, foi a marca de lançamento, abrindo a porta à aquisição da Herdade do Peso, também na Vidigueira, em 1996. Em 2014 é lançada a marca Trinca Bolotas, destinada a um consumidor urbano, mas que não está desligado das suas origens.
Apesar desta história muito recente, a Trinca Bolotas é já uma das 3 marcas mais reconhecidas nos vinhos alentejanos, afirmando-se pela irreverência e actualidade da sua comunicação. São precisamente esses dois pilares (origem e urbanidade), até agora trabalhados de forma separada no mercado de vinhos alentejanos, que a Trinca Bolotas quer explorar em homenagem à planície encantada.
Hoje, no espaço #notasoltas, falo-vos de dois vinhos Trinca Bolotas: O Trinca Bolotas Tinto 2019 (5.99 €, 81 pts.) e o Grande Trinca Bolotas Tinto 2019 (9.00 €, 83 pts.). O primeiro tem uma bonita cor vermelho-rubi com auréola violeta e emana aromas muito marcados a ameixa vermelha, groselha, mirtilos, violeta, cedro e leve abaunilhado. Na boca é elegante, encorpado, seco, fresco e muito expressivo.
Por sua vez, o Grande Trinca Bolotas Tinto 2019 (9.00 €, 83 pts.) traja um vermelho-rubi intenso e exibe um nariz complexo com ameixa preta, cereja, azeitona, pimenta preta, sous-bois, grafite e tosta bem integrada. No palato é elegante, fresco e possui uns taninos arredondados/super equilibrados. Pareceu-me ainda mais seco que o Trinca Bolotas e isso até lhe ficou bem.
Curiosamente, estes são vinhos que procuram fazer no copo, o que Eça de Queiroz fez no seu livro "A cidade e as serras", uma simbiose entre a vida urbana, módica e agitada de uma cidade (no caso de Eça, Paris) e a vida cheia de origens, tranquila e pacata de uma aldeia rural, tudo isto, tal como no livro, com um sentimento de pertença e uma componente gastronómica muito vincados.
Para vos falar da Enoteca Cartuxa vamos primeiro embarcar na armada de Pedro Álvares Cabral, enviada pelo rei D. Manuel à Índia, preparada logo após o regresso de Vasco da Gama e que por "acidente" "descobre" o Brasil. No início estes "dois mundos" podem nada parecer ter a ver um com o outro, mas no final vão perceber (como não poderia deixar de ser quando estão a ler um blogue deste gabarito ;)) que estão umbilicalmente ligados.
Há 521 anos, o navegador português e sua tripulação enfrentaram tormentas, percalços e pragas durante a sua viagem. Dos 1500 homens que deixaram o porto do Restelo, apenas um terço conseguiu voltar, sãos, salvos e com uma boa história para contar, estando incluido nesses 500 o seu capitão-mor, Pedro Álvares Cabral, um fidalgo de origem nobre e com apenas 33 anos de idade.
A viagem épica estava inicialmente prevista para 8 de Março de 1500, um Domingo, mas devido ao mau tempo, ocorreu apenas no dia seguinte. A frota era constituída por 13 navios (nove naus, três caravelas e uma naveta que carregava mantimentos) e oficialmente tinha como missão confirmar as informações, os contactos e os acordos com o rei de Calecute, feitos na viagem anterior por Vasco da Gama.
Há quem ache, que tudo isto não passou de uma manobra de diversão que escondia o verdadeiro objectivo da viagem: materializar/registar/assumir a descoberta do Brasil. Mas essa história fica para outra altura. Depois de deixar Belém, passar pelas Canárias e Cabo Verde (tudo em duas semanas), afastar-se da costa africana e passar o equador, a armada portuguesa deparou-se com indícios de terra (correntes e pássaros), que se confirmariam a 22 de Abril, quando a armada atingiu a costa das terras de Vera Cruz.
Pedro Álvares Cabral manda então um pequeno batel de reconhecimento para a praia onde já se encontravam alguns índios munidos de arcos e flechas, alertados por tamanha algazarra no mar. Nesta altura os portugueses tiveram um pouco de sorte, uma vez que no local onde decorreu esta acção de reconhecimento apenas existiam povos não antropófagos (canibais).
A maioria dos ameríndios que habitavam o Brasil nessa atura eram antropófagos. Se os bravos navegadores lusitanos tivessem escolhido outro local, ter-se-iam metido, literalmente, numa bela caldeirada portuguesa. :P Após os navegadores que se dirigiram à praia na missão de reconhecimento terem pedido aos índios para baixarem as suas armas, os nativos brasileiros anuíram em sinal de paz.
Para demonstrarem a sua gratidão por esse gesto, os portugueses em vésperas do 25 de Abril de 1500 oferecem um barrete vermelho (há coincidências históricas que não deixam de ser deliciosamente engraçadas ;)) aos nativos. Em contrapartida recebem um toucado de índio com penas (Pero Vaz de Caminha, escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral
Nesta "competição transatlântica" de quem tem a melhor oferenda, os portugueses remataram o assunto, até porque já estava a ficar tarde e tinham de ir para a Índia, com ... vinho!!! É a esse vinho que Pero Vaz de Caminha se refere no excerto da carta com que iniciei esta publicação.
A história associa esse vinho que foi levado pela armada portuguesa aos monges do Convento de Espinheiro, em Évora (actualmente transformado num belo hotel). Frades esses que foram donos, entre os séculos XV e XVI, de vinhas situadas num lugar com muitas pedras de granito soltas que “mancavam” (balanceavam). E das “pedras mancas” surgiu o nome Pêra-Manca, hoje em dia, vinho icónico da Fundação Eugénio de Almeida - Adega da Cartuxa.
Estão a ver como a Enoteca Cartuxa está relacionada com a descoberta do Brasil? Só não sabia, quando lá me desloquei, que havia a "nobre e antiga tradição" de trocar barretes vermelhos por "Pêra-Manca", caso contrário teria honrado tamanho legado histórico de um modo completamente "vinicamente desinteressado"... ;)
Não há melhor local para começar a conhecer Évora que esta Enoteca!!! Um local onde ao património cultural e vitivinícola da Fundação Eugénio de Almeida se junta à riqueza da gastronomia alentejana, em pleno centro histórico de Évora. Com uma arquitectura de linhas depuradas, sublinhada pelo branco das paredes e pelos tons pasta da madeira e avermelhados do mobiliário, a Enoteca Cartuxa evoca o ambiente informal de uma taberna, trazendo-o para a contemporaneidade através de uma harmonia perfeita entre os vinhos da Adega Cartuxa e a cozinha regional interpretada e reinventada de forma bastante actual.
Lá é possível deliciarmo-nos com a frescura vegetal levemente untuosa do Gaspacho com presunto, com a simplicidade, conforto e cremosidade das Lascas de bacalhau, batata palha e ovo frito, com a intensidade, elegância e acidez do Lombo de bacalhau, puré de grão, cebola roxa avinagrada e azeite de salsa, com a densidade, suculência e rusticidade dos Lombinhos de porco de vinha d'alhos, e com a excentricidade voluptuosamente fresca do Pudim de azeite, salada de laranja e azeitonas.
É claro que a acompanhar todo este belo repasto estiveram os vinhos da Fundação Eugénio de Almeida. O espumante Cartuxa Rosé Bruto 2014 (25.00 €, 88 pts.), possuidor de uma linda cor rosada é o ideal para as entradas com os seus aromas a frutos silvestres, violetas, ligeiro brioche e palato elegante, equilibrado e crocante.
Para os pratos com peixe mais untuosos de que é exemplo o Lombo de bacalhau, puré de grão, cebola roxa avinagrada e azeite de salsa aconselho um dos meus brancos favoritos do país: o Pêra-Manca Branco 2017 (40.00 €, 94 pts.). Trajado de um amarelo-citrino carregado e muito sedutor transporta uma forte mineralidade (pedra de isqueiro) e notas tão intensas quanto elegantes a papaia, lima, toranja, casca de laranja, noz-moscada e avelã. No palato é seco, fresco, longo, muito complexo e super equilibrado. Já tinha o Pêra-Manca Tinto 2011 na mesa e ainda me deliciava com este branco. Delicioso!!!
Para os pratos de carne ou mais intensos, o Cartuxa Reserva Tinto 2015 (45.00 €, 92 pts.) encaixa como uma luva, se bem que neste caso assentaria mais como um toucado índio ou um barrete vermelho. ;) De cor rubi bastante densa, brinda-nos com aromas elegantes a canela, cravo-da-Índia, ameixa preta, cedro, pinho e ligeiro fumo. Na boca passeia-se com concentração, elegância, persistência, complexidade e taninos aveludados, apesar de aguerridos.
Como seria fácil de prever, a estrela deste almoço foi o Pêra-Manca Tinto 2011 (350.00 €, 99 pts.). Vermelho-grená vivo e denso no traje é um vinho enorme. No nariz exibe ameixa seca, uvas-passas, caixa de charuto, cassis, sous-bois, pinho, tosta e um leve fumo. Na boca é encorpado, super fresco, complexo, elegante, aveludado e intenso. Deixa-nos, no final, com uma sensação balsâmica simplesmente encantadora.
Depois do "estalo vínico" anterior ainda houve tempo para uma surpresa muito agradável e que combinou na perfeição com o Pudim de azeite, salada de laranja e azeitonas: o Cartuxa 50 anos Licoroso Reserva Tinto 2011 (40.00 €, 91 pts.). Rubi profundo na cor, exibe aromas intensos a ameixa seca, compota de frutos silvestres, figos secos, pimenta, canela e chocolate. A boca é incrivelmente fresca, complexa, equilibrada, gulosa e subtilmente austera. Tem tudo para melhorar em garrafa.
Costuma-se dizer que o hábito não faz o monge, neste caso isso não é bem verdade. Os monges de Évora criaram uns vinhos com um certo "hábito". O hábito da complexidade, da harmonia, da frescura, do enobrecimento dos aromas balsâmicos e sobretudo da identidade assente na qualidade. Para mim é esse "hábito" que sempre associei à fama dos vinhos Cartuxa e da Fundação Eugénio de Almeida, associação essa que saiu reforçada com esta visita a uma taberna de antigamente com as "mordomias" dos nossos dias: a Enoteca Cartuxa.
Há quase 40 anos, a Quinta de Soalheiro nascia da visão conjunta de pai e filho que levou à criação da primeira marca de Alvarinho de Melgaço. Hoje em dia, a terceira geração, Luís e Maria João Cerdeira, dão continuidade ao sonho, sempre com a ambição de valorizar o território e as suas tradições. Por isso, neste Dia do Pai, o Soalheiro preparou três experiências, disponíveis na
O primeiro kit foi pensado para o “Pai Enófilo” (55€), que faz da abertura de cada garrafa um verdadeiro ritual de prova, do nariz ao fim de boca, acompanhada de uma explicação detalhada do terroir, castas e notas aromáticas. Para esses, o Soalheiro sugere três vinhos de perfis diferentes, acompanhada por um vídeo de prova comentada pelo enólogo, Luís Cerdeira: o Clássico Alvarinho 2020, ícone do produtor e de Monção e Melgaço, o Granit 2019, um Alvarinho de montanha, o que lhe traz uma mineralidade surpreendente, e ainda o Terramatter 2019, um dos vinhos biológicos produzidos no Soalheiro, de vinificação minimalista, sem filtração.
E para que depois o pai possa comprovar na primeira-pessoa todas as particularidades do território do Alvarinho, o kit inclui um voucher para uma “Prova de Vinho Origem” na Quinta de Soalheiro para duas pessoas, válido até ao final do ano. Este kit inclui ainda um saca-rolhas Premium Sommelier e doseadores Soalheiro.
Para o “Pai Bom Garfo” (55 €), que anseia pelas jantaradas entre amigos ou pelas viagens motivadas pelas especialidades regionais da gastronomia portuguesa o Soalheiro sugere dois vinhos, Clássico Alvarinho 2020 e Granit 2019, o vale e a montanha, acompanhados por um Salpicão de porco bísaro, criado em regime de produção ecológica na Quinta da Folga, vizinha do Soalheiro, bem como um Queijo de Cabra da Prados de Melgaço curado com pimentão e Alvarinho, feito localmente seguindo as técnicas artesanais da queijaria portuguesa.
Dois petiscos que prometem aguçar o apetite para uma visita a Melgaço, terra de tradições à mesa, pretexto para visitar a Quinta de Soalheiro e usufruir do voucher para uma “Prova de Vinho Origem” para duas pessoas, também incluída na oferta, até ao final do ano.
Por fim, para o “Pai Aventureiro” (55€), que olha saudoso para a bicicleta parada na garagem e suspira pelo ar puro da montanha, o Soalheiro sugere um pack de três vinhos e uma experiência no Parque Nacional Peneda-Gerês. A viagem começa pelos vinhos, com o Clássico Alvarinho 2020, nascido em pleno vale de Monção e Melgaço, junto ao Rio Minho, conhecido pela prática de rafting, o Allo – Alvarinho & Loureiro 2020, que conjuga duas castas e transporta para a frescura dos ventos atlânticos, e o Sauvignon Blanc & Alvarinho 2019, um blend arrojado que conjuga na perfeição com personalidades aventureiras.
O kit inclui ainda um voucher “Aventura”, que dá acesso a várias atividades com corda (arvorismo, slide, rapel e escalada) em Lamas de Mouro, no Parque Nacional Peneda-Gerês, para uma pessoa, válido até ao fim do ano. O valor dos kits Dia do Pai inclui os portes de envio, que é realizado até 72 horas, em dias úteis, após a encomenda.
O Dory Tinto, o primeiro vinho da AdegaMãe (edição de estreia na vindima de 2010), celebra a sua décima edição, com a nova colheita de 2019. Já disponível no mercado, dá sequência ao percurso daquela que se tornou a mais simbólica marca da casa, “Dory”. Um tributo aos antigos pescadores portugueses da faina do bacalhau. Com referências de grande elegância, marcadas pela frescura atlântica, os vinhos Dory tem vindo a impor-se pela versatilidade e potencial gastronómico, construindo reputação de grande qualidade e valor no segmento. O novo Dory Tinto 2019 (4.99 €, 81 pts.) evoca esse caminho, apresentando uma importante novidade: a introdução da casta Pinot Noir, que lhe confere um perfil ainda mais fino. Exibe uma cor vermelha-rubi cristalina e um nariz com ameixa preta, amoras, violetas, cassis, pimento vermelho e pimenta preta. No palato é elegante, equilibrado, redondo e sumarento.
Como bem sabemos a restauração foi um dos sectores mais atingidos durante esta famigerada pandemia. Primeiro foram os fechos e os confinamentos, depois os elevados encargos financeiros que iriam permitir a reabertura, incluindo a redução da capacidade dos espaços, depois novos fechos e recorrentes confinamentos. E, quando isto melhorar, vai haver a desafiante tarefa de voltar a atrair os comensais para as salas de jantar.
É neste cenário que muitos restaurantes lutam, diariamente, para se manterem "à tona". Uma das soluções (se calhar a única) que permite proteger os empregos, manter negócios e preservar clientes nestes tempos incertos é o take-away. Esta "receita" não é nova. Quando as cidades surgiram, há cerca de 6 000 anos, o nosso anseio ancestral por comida para levar cresceu tanto até ao ponto de quase se tornar uma
Na antiga Pompeia, existiam centenas de lojas/restaurantes que vendiam comida já pronta para os transeuntes, com as panelas tentadoramente abertas/expostas em pequenos balcões ao longo das principais ruas. A adornar essas refeições existiam frescos coloridos para atrair a clientela, era o Instagram de então. ;)
Também na antiga capital azteca de Tenochtitlan existiam vastos mercados com uma diversidade de refeições take-away que incluíam tamales (uma espécie de massa) de carne, tamales simples, tamales grelhados, tamales de peixe, tamales de frutas, tamales de ovo de peru, tamales de coelho ... e para os palatos mais delicados, adivinhem lá o que havia? ;)
Tamales!!! Desta vez feitos com cera de abelha , flores de mel e milho. (Já agora, quem não gostasse de tamales comia o quê? ;)) Hoje em dia, mais da metade da população mundial vive em cidades que têm mais em comum com esses antigos centros urbanos do que aquilo que possam pensar, e tal como então os take-away são um negócio rentável, sobretudo em tempos de confinamento.
Mas será possível compatibilizar este género de serviço com a excelência, identidade e experiências gastronómicas (que vão muito mais além que o "simples" alimentar o corpo) que procuramos num restaurante fine dining? Comecei a encontrar a resposta para esta pergunta, há umas semanas aquando do dia de S. Valentim. Gosto de comemorar esse dia sempre com um pouco de "pompa e circunstância", mas neste ano as opções para o enriquecer diminuíram bastante.
Após algumas pesquisas deparei-me com o menu take-away do DOP desenhado pelo Chefe Rui Paula. (Para não desrespeitar os confinamentos o DOP é bastante flexível e dinâmico nas entregas, a minha foi na saída da A3 ;)) O menu era assente em produtos frescos e que não perdiam qualidade com o tempo decorrido entre a confecção e a entrega (entradas frias e pratos principais/sobremesas que ficavam no "ponto" com um pequeno aquecimento no micro-ondas).
A terrina de foie-gras, pêra-rocha e café estava deliciosa e fez-me transportar imediatamente para um dos restaurantes do Chefe. A inteligência na escolha dos ingredientes, tipo de confecção, texturas e apresentação, compatíveis não só com o take-away mas também com a identidade de Rui Paula, fez-me querer conhecer o restante menu do DOP, e é sobre ele que vos falo hoje.
O Bife tártaro é entregue numa espécie de sandwich gourmet com uma carne super suculenta e enriquecida com uma emulsão de mostarda e gema de ovo, chalotas, alcaparras, cornichons e pão tramezzino torrado. É super saboroso, fresco e untuoso. Por sua vez, o Queijo Brie com compota de 3 pimentos é alegre e vem com um divertido jogo organoléptico entre doçura, acidez e voluptuosidade.
Gostei imenso dos Ovos rotos. Um prato simples mas carregado de conforto. É descomedido, daqueles pratos que foram criados para celebrar a vida e as melhores pessoas, aquelas que gostam de comer. ;) A cremosidade do ovo, o amargo adocicado do caldo e o umami dos cogumelos fazem uma combinação surpreendentemente harmoniosa.
A untuosidade e sal do presunto ibérico enriquecem o prato, tornando-o muito cheio, heterogéneo e nada cansativo. Está assente em ingredientes descomplicados mas carregados de sabor e intensidade. No entanto, o meu prato preferido foi o Tamboril com puré de trufa e molho de lagostim. Um prato que nos remete para a riqueza e notas fumadas do tamboril, para a acidez adocicada e aromas terrosos do puré e para a cremosidade marítima e riqueza do molho de lagostim. Delicioso!!! Combinou muito bem com a mineralidade, frescura, acácia-lima, toranja e tosta bem integrada do Rebolar Branco 2017.
A Bochecha de vitela com gnocchis e cogumelos estava bastante rica, intensa, macia e sublimemente condimentada com um toque de caramelização. Tradicional mas com pitadas evidentes de irreverencia e modernidade, de que é exemplo a finesse dos gnocchis de couve, tão delicados quanto prazerosos. Este prato dançou harmoniosamente com a ameixa preta, trufa, pimenta preta, cacau, taninos sedosos e bela acidez do Rebolar Tinto 2016.
Nas sobremesas Crème brûlée de chocolate branco e Tarte de amendoim e caramelo. A primeira é um clássico francês com um toque de petulância dado através da adição do chocolate branco (do qual não sou grande fã, mas que neste crème brûlée resultou muito bem).
É cremoso, suave e doce. No entanto, também é ácido, suntuoso e sedoso. Coberto por uma camada crocante de caramelo (que podem realçar em casa com a ajuda de um maçarico) é difícil conter a gula na altura de quebrar essa "protecção". A ligeira untuosidade está super balanceada com a frescura do molho de framboesa. É viciante.
Relativamente à segunda sobremesa, esta parecia engrandecer a já vencedora relação entre amendoim e caramelo, digo "parecia" porque a Bia apoderou-se totalmente dela, atribuindo-lhe a classificação de "muitos fixes", a nota máxima a que qualquer Chefe pode aspirar. Relembro aos mais distraídos que esta "escala Bia" vai de um fixe (cozinha de grande nível) a muitos fixes (uma cozinha única). ;)
Relativamente ao preço, que também é um factor a ter em conta, quer os pratos quer os vinhos Rebolar (exclusivos dos restaurantes de Rui Paula) custam menos de metade daquilo que custariam normalmente no restaurante. Fernando Pessoa, através de Ricardo Reis, ajuda-me a dar a resposta à minha questão inicial, se seria possível compatibilizar o take-away com o fine dining: "Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes."
E é isso que Rui Paula faz no serviço take-away do DOP. Colocar a excelência, criatividade e memória em cada coisa que faz, e que mais tarde nos chega a casa numa embalagem. Tudo isto com foco no sabor, nas sensações e nas emoções que este género de comida nos deve transmitir.
Esse foco é claramente DOP (denominação de origem protegida) por Rui Paula, quer seja nas salas dos seus requintados restaurantes quer neste serviço que recomendo vivamente. Ele é inseparável dessas coisas ... desde o princípio e isso nota-se a cada prato/embalagem.
Destaco ainda e novamente o modo resiliente, dinâmico, comprometido, multifacetado e dedicado (quase abnegado) com que o Chefe tem tentado "fazer frente" aos constrangimentos trazidos pela pandemia, este menu take-away é "apenas" mais uma expressão da sua superação. E como defendia Cervantes, ela é a mãe da boa sorte.