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No meu Palato

No meu Palato

Enoteca Cartuxa | O hábito faz o monge

“Alguns deles traziam arcos e setas; e deram tudo em troca de carapuças e por qualquer coisa que lhes davam. Comiam connosco do que lhes dávamos, e alguns deles bebiam vinho." Pero Vaz de Caminha 

Enoteca CartuxaPara vos falar da Enoteca Cartuxa vamos primeiro embarcar na armada de Pedro Álvares Cabral, enviada pelo rei D. Manuel à Índia, preparada logo após o regresso de Vasco da Gama e que por "acidente" "descobre" o Brasil. No início estes "dois mundos" podem nada parecer ter a ver um com o outro, mas no final vão perceber (como não poderia deixar de ser quando estão a ler um blogue deste gabarito ;))  que estão umbilicalmente ligados. 

Enoteca CartuxaHá 521 anos, o navegador português e sua tripulação enfrentaram tormentas, percalços e pragas durante a sua viagem. Dos 1500 homens que deixaram o porto do Restelo, apenas um terço conseguiu voltar, sãos, salvos e com uma boa história para contar, estando incluido nesses 500 o seu capitão-mor, Pedro Álvares Cabral, um fidalgo de origem nobre e com apenas 33 anos de idade.

Enoteca CartuxaA viagem épica estava inicialmente prevista para 8 de Março de 1500, um Domingo, mas devido ao mau tempo, ocorreu apenas  no dia seguinte. A frota era constituída por 13 navios (nove naus, três caravelas e uma naveta que carregava mantimentos) e oficialmente tinha como missão confirmar as informações, os contactos e os acordos com o rei de Calecute, feitos na viagem anterior por Vasco da Gama. 

Enoteca CartuxaHá quem ache, que tudo isto não passou de uma manobra de diversão que escondia o verdadeiro objectivo da viagem: materializar/registar/assumir a descoberta do Brasil. Mas essa história fica para outra altura. Depois de deixar Belém, passar pelas Canárias e Cabo Verde (tudo em duas semanas), afastar-se da costa africana e passar o equador, a armada portuguesa deparou-se com indícios de terra (correntes e pássaros), que se confirmariam a 22 de Abril, quando a armada atingiu a costa das terras de Vera Cruz.

Enoteca CartuxaPedro Álvares Cabral manda então um pequeno batel de reconhecimento para a praia onde já se encontravam alguns índios munidos de arcos e flechas, alertados por tamanha algazarra no mar.  Nesta altura os portugueses tiveram um pouco de sorte, uma vez que no local onde decorreu esta acção de reconhecimento apenas existiam povos não antropófagos (canibais).

Enoteca CartuxaA maioria dos ameríndios que habitavam o Brasil nessa atura eram antropófagos. Se os bravos navegadores lusitanos tivessem escolhido outro local, ter-se-iam metido, literalmente, numa bela caldeirada portuguesa. :P Após os navegadores que se dirigiram à praia na missão de reconhecimento terem pedido aos índios para baixarem as suas armas, os nativos brasileiros anuíram em sinal de paz.

Enoteca CartuxaPara demonstrarem a sua gratidão por esse gesto, os portugueses em vésperas do 25 de Abril de 1500 oferecem um barrete vermelho (há coincidências históricas que não deixam de ser deliciosamente engraçadas ;)) aos nativos.  Em contrapartida recebem um toucado de índio com penas (Pero Vaz de Caminha, escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral descreve belissimamente esse toucado numa das suas cartas.)

Enoteca CartuxaNesta "competição transatlântica" de quem tem a melhor oferenda, os portugueses remataram o assunto, até porque já estava a ficar tarde e tinham de ir para a Índia, com ... vinho!!! É a esse vinho que Pero Vaz de Caminha se refere no excerto da carta com que iniciei esta publicação. 

Enoteca CartuxaA história associa esse vinho que foi levado pela armada portuguesa  aos  monges do Convento de Espinheiro, em Évora (actualmente transformado num belo hotel).  Frades esses que foram donos, entre os séculos XV e XVI, de vinhas situadas num lugar com muitas pedras de granito soltas que “mancavam” (balanceavam). E das “pedras mancas” surgiu o nome Pêra-Manca, hoje em dia, vinho icónico da Fundação Eugénio de Almeida - Adega da Cartuxa.

Enoteca CartuxaEstão a ver como a Enoteca Cartuxa está relacionada com a descoberta do Brasil? Só não sabia, quando lá me desloquei, que havia a "nobre e antiga tradição" de trocar barretes vermelhos por "Pêra-Manca", caso contrário teria honrado tamanho legado histórico de um modo completamente "vinicamente desinteressado"... ;)

Enoteca CartuxaNão há melhor local para começar a conhecer Évora que esta Enoteca!!! Um local onde ao património cultural e vitivinícola da Fundação Eugénio de Almeida se junta à riqueza da gastronomia alentejana, em pleno centro histórico de Évora. Com uma arquitectura de linhas depuradas, sublinhada pelo branco das paredes e pelos tons pasta da madeira e avermelhados do mobiliário, a Enoteca Cartuxa evoca o ambiente informal de uma taberna, trazendo-o para a contemporaneidade através de uma harmonia perfeita entre os vinhos da Adega Cartuxa e a cozinha regional interpretada e reinventada de forma bastante actual.

Enoteca CartuxaLá é possível deliciarmo-nos com a frescura vegetal levemente untuosa do Gaspacho com presunto, com a simplicidade, conforto e cremosidade das Lascas de bacalhau, batata palha e ovo frito, com a intensidade,  elegância e acidez do Lombo de bacalhau, puré de grão, cebola roxa avinagrada e azeite de salsa, com a densidade, suculência e rusticidade dos Lombinhos de porco de vinha d'alhos, e com a excentricidade voluptuosamente fresca do Pudim de azeite, salada de laranja e azeitonas.

Enoteca CartuxaÉ claro que a acompanhar todo este belo repasto estiveram os vinhos da Fundação Eugénio de Almeida.  O espumante Cartuxa Rosé Bruto 2014 (25.00 €, 88 pts.), possuidor de uma linda cor rosada é o ideal para as entradas com os seus aromas a frutos silvestres, violetas, ligeiro brioche e palato elegante, equilibrado e crocante. 

Enoteca CartuxaPara os pratos com peixe mais untuosos de que é exemplo o Lombo de bacalhau, puré de grão, cebola roxa avinagrada e azeite de salsa aconselho um dos meus brancos favoritos do país: o Pêra-Manca Branco 2017 (40.00 €, 94 pts.). Trajado de um amarelo-citrino carregado e muito sedutor transporta uma forte mineralidade (pedra de isqueiro) e notas tão intensas quanto elegantes a papaia, lima, toranja, casca de laranja, noz-moscada e avelã. No palato é seco, fresco, longo, muito complexo e super equilibrado. Já tinha o Pêra-Manca Tinto 2011 na mesa e ainda me deliciava com este branco. Delicioso!!! 

Enoteca CartuxaPara os pratos de carne ou mais intensos, o Cartuxa Reserva Tinto 2015  (45.00 €, 92 pts.) encaixa como uma luva, se bem que neste caso assentaria mais como um toucado índio ou um barrete vermelho. ;) De cor rubi bastante densa, brinda-nos com aromas elegantes a canela, cravo-da-Índia, ameixa preta, cedro, pinho e ligeiro fumo. Na boca passeia-se com concentração, elegância, persistência, complexidade e taninos aveludados, apesar de aguerridos. 

Enoteca CartuxaComo seria fácil de prever, a estrela deste almoço foi o Pêra-Manca Tinto 2011 (350.00 €, 99 pts.). Vermelho-grená  vivo e denso no traje é um vinho enorme. No nariz exibe ameixa seca, uvas-passas, caixa de charuto, cassis, sous-bois,  pinho, tosta e um leve fumo. Na boca é encorpado, super fresco, complexo, elegante, aveludado e intenso. Deixa-nos, no final, com uma sensação balsâmica simplesmente encantadora. 

Enoteca CartuxaDepois do "estalo vínico" anterior ainda houve tempo para uma surpresa muito agradável e que combinou na perfeição com o Pudim de azeite, salada de laranja e azeitonas: o Cartuxa 50 anos Licoroso Reserva Tinto 2011  (40.00 €, 91 pts.). Rubi profundo na cor, exibe aromas intensos a ameixa seca, compota de frutos silvestres, figos secos,  pimenta, canela e chocolate. A boca é incrivelmente fresca, complexa, equilibrada, gulosa e subtilmente austera. Tem tudo para melhorar em garrafa. 

Enoteca CartuxaCostuma-se dizer que  o hábito não faz o monge, neste caso isso não é bem verdade. Os monges de Évora criaram uns vinhos com um certo "hábito". O hábito da complexidade, da harmonia, da frescura, do enobrecimento dos aromas balsâmicos e sobretudo da identidade assente na qualidade. Para mim é esse "hábito" que sempre associei à fama dos vinhos Cartuxa e da Fundação Eugénio de Almeida, associação essa que saiu reforçada  com esta visita a uma taberna de antigamente com as "mordomias" dos nossos dias: a Enoteca Cartuxa.

Se encontrarem por aí alguém que queira trocar gorros vermelhos por Pêra-Manca, falem aqui com o vosso blogger favorito, terei todo gosto em vos "auxiliar" ;)