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No meu Palato

No meu Palato

Quinta da Gricha Porto Vintage 2019 | O tempo perguntou ao vinho quanto tempo o vinho tem

"Momentos de tensão antecedem a harmonia. Acreditem que o melhor ... está ainda para vir." Irlei Hammes WieselGricha Vintage 2019Não arrisco muito ao dizer que todos nós já ouvimos a lengalenga que inspirou o trocadilho com que baptizei esta publicação (O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem!!! O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem..). É uma frase, em forma de trava-línguas, que nos remete para temáticas relacionadas com o tempo e nos leva a tentar conceber uma ponte mental entre o "onde nos encontramos no presente" e o "onde estaremos no futuro"...

Gricha Vintage 2019Esta relação entre presente e futuro, tem vindo a ser muito discutida no mundo vínico devido ao novo perfil de vinhos do Porto Vintage e que surgiu nos últimos 10 anos (mais coisa, menos coisa). Até 2011, os Porto Vintage eram vinhos exclusivamente pensados para envelhecerem nas garrafeiras e apenas eram abertos em ocasiões especiais, quando já tivessem uns valentes anos em cima. De 2012 para cá, começaram a surgir Porto Vintage que (aproveitando a melhoria evidente das aguardentes usadas na sua vinificação) se tornaram mais elegantes, mais apelativos, mais "prontos" a beber enquanto jovens. 

Gricha Vintage 2019A estalada tânica que os tornava uns monstros austeros quase imbebíveis desapareceu, dando também origem a um novo tipo de consumidor, menos paciente, e que pode desfrutar desses Porto Vintage mal estes sejam lançados para o mercado. Tudo isto não invalida que a capacidade de envelhecimento (relacionada com o açúcar, os taninos, a graduação alcoólica e a acidez) também possa estar garantida (há coisas que só mesmo o tempo pode responder). Assim, este novo perfil, procurar assegurar o melhor de dois mundos separados pelo tempo, na mesma garrafa.

Quinta da Gricha Porto Vintage 2019Um dos bons exemplos desta capacidade bivalente é o Churchill’s Quinta da Gricha Vintage Port 2019 (65€, 92 pts.), que no copo traja um rubi escuro denso, quase opaco. No nariz exibe notas de mirtilo, ameixa seca, esteva, cravinho e pimenta preta. No palato é muito fresco, mostrando uma acidez aguerrida, uns taninos tensos e muita delicadeza. Gricha Vintage 2019Ainda no palato, é um vinho que nos provoca certos momentos de tensão que o tornam muito interessante desde já, mas que também lhe fazem antever um envelhecimento harmonioso. Acompanhou muito bem um Cheesecake de ameixa

Deixo no entanto a ressalva de continuar a achar que continua a haver espaço, mercado e tempo para os monstros austeros do passado ... e que já me deram muitas alegrias ;)

Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo | Breve História do Tempo

"Se alguém me perguntar o que é o tempo, declaro logo a minha ignorância: não sei. Agora mesmo ouço o bater do relógio de pêndulo, e a resposta parece estar ali. Mas não é verdade. Quando a corda se lhe acabar, o maquinismo fica no tempo e não o mede: sofre-o. E se o espelho me mostra que não sou já quem era há um ano, nem isso me dirá o que o tempo é. Só o que o tempo faz..." José Saramago

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoNão se assustem, a breve história do tempo que vos vou contar hoje, não tem a ver com Stephen Hawking, o Big Bang, com buracos negros, com cones de luz, com universos paralelos ou com a teoria das Supercordas. Na verdade, e pensando melhor, se calhar tem a ver, um pouco, com isto tudo... 

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoComo diz Saramago, o tempo que envelhece, gasta, destrói e mata, é também o mesmo que vai purificar as águas, povoá-las pouco a pouco de criaturas, até que cinco anos passados o rio ressuscite da fossa comum dos rios mortos, para glória e triunfo da vida. Mas será que esse tempo "passado", num caso e noutro, é o mesmo?

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoUma das coisas que mais muda com o envelhecimento é a percepção que vamos tendo do tempo. Quando somos crianças, a mola do tempo parece que se estica quase infinitamente: uma semana pode parecer um ano, e um ano pode parecer uma vida inteira (que saudades daquelas férias de Verão, que pareciam não acabar!!!).

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoMas à medida que vamos envelhecendo, o tempo parece querer acelerar desalmadamente. Claro, que um dia de trabalho mais cansativo fura esta regra empírica, mas se olharmos para o quadro mais global, os anos começam a suceder-se a uma velocidade tão vertiginosa que passamos dos 30 para os 40, enquanto tomamos um café...

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoMas, porque é que o tempo passa tão rápido à medida que envelhecemos? A resposta é a rotina. Quando somos jovens, as novas experiências, a confrontação com uma novidade ou a descoberta de um sentimento novo acabam por deixar marcas na nossa memória, deixando-nos com a percepção de uma "vida cheia" e de um tempo prolongado.

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoPelo contrário, quando fazemos uma mesma coisa repetidamente, o nosso cérebro consolida as ações repetidas numa só memória, deixando-nos com uma sensação de tempo contraído. Desta forma, a rotina vai compilando a nossa memória em "pastas de acontecimentos parecidos".

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoSe nada de significativo e novo acontece, não temos nada que nosso cérebro possa processar e o tempo diminui subjetivamente. A este propósito, o Dr. Marc Wittmann, psicólogo da Universidade de Friburgo, sugere-nos um jogo mental para nos testarmos.

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoTentem lembrar-se, das quase 260 viagens, que em média, fazem para o trabalho num ano. A tarefa é bastante difícil, provavelmente só se recordam de duas ou três (aquelas em que algo inesperado aconteceu: um furo no pneu, uma mini-saia com um tecido muito sedoso :P ou então uma surpreendente descida dos combustíveis), porque o nosso cérebro tenta arrumar todas essas deslocações numa única memória.

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoEste fenômeno, como é óbvio, piorou com a pandemia. Para aqueles que trabalharam (ou pelo menos tentaram) a partir de casa, os dias pareciam querer ser exatamente iguais, no mesmo local, com as mesmas pessoas e sem nenhum dos "dilatadores temporais" habituais: as viagens, os restaurantes, os amigos e a família mais alargada, que até aí apimentavam a rotina.

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoDepois de um período de confinamento quase interminável (muitas vezes carregado de perdas, dor, medo e tristeza) e com a ajuda das vacinas, as pessoas começam agora a sair das suas casas para descobrirem que passou mais de um ano, sem que elas se tenham apercebido ... verdadeiramente.

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoEssa sensação do "tempo passado demasiado rápido" chega mesmo a ser emocional, pois acaba por interferir com a nossa noção de existencialismo enquanto espécie: a do tempo linear e de uma vida com uma quantidade finita de tempo disponível, que decorre numa direção nada agradável, em que uma das "estações" mais rápidas é a velhice e ... a última paragem ninguém quer lá chegar, pelo menos demasiado cedo.

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoCabe-nos enquanto seres emocionais que somos, abrandar essa viagem enriquecendo a nossa vida com coisas novas, com coisas surpreendentes, com coisas que façam o nosso cérebro dizer: "fdx, não tenho nenhuma pasta para incluir esta memória, lá vou eu ter de perder tempo a criar uma".

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoEsse tempo gasto pelo nosso cérebro é tempo ganho que se estende nas nossas memórias.   Hoje falo-vos de um sitio, que sem margem para dúvidas, vos pode ajudar nessa bonita tarefa de dilatar o tempo: a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo Winery House - Relais & Châteaux.

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoO edifício encontra-se imaculadamente preservado, tendo mantido o legado histórico através dos móveis antigos de madeira escura que se encontram espalhados um pouco por todo o sereno hotel.

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoDo lado de fora existe uma espécie de ramada que permite que os almoços/jantares possam também ser preenchidos com a vista arrebatadora para o rio. Por falar em vista, acho que as imagens da piscina falam por si próprias. ;)

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoCom um enquadramento único voltado para o rio Douro, os 11 quartos da antiga casa senhorial do século XIX oferecem, todos eles, vistas sobre os socalcos de vinha centenária e para o Douro, num enquadramento paisagístico, literalmente, de cortar a respiração. 

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoAlguns deles (como o que a Bia ficou) têm até uns curiosos degraus de madeira que as antigas senhoras do Douro usavam para subir para as camas. A estes detalhes vintage são acrescentados mimos modernos como amenidades Claus Porto e uma casa de banho requintada.  

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoOs visitantes têm ainda à disposição uma Wine Tour (muito completa e que termina na bela sala de barricas), um museu (onde há muito para aprender sobre a riquíssima história da região e da Quinta)  e uma loja/sala de provas (onde é possível degustar os vinhos da propriedade, ao mesmo tempo que se desfruta de alguns deliciosos petiscos durienses). 

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoPara último, as duas coisas que, quanto a mim, melhoraram, imensamente, desde a nossa última visita. Em primeiro e a mais evidente, o serviço, que ficou muito mais eficaz, competente, preciso, dedicado e elegante, tudo aquilo que um Relais & Châteaux tem de ter. 

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoDepois o restaurante, que com algumas/pequeníssimas "afinações" (mais ao nível da forma do que do conteúdo) atingirá o nível que o hotel já alcançou.  Nele, a equipa do Chef André Carvalho, está a tentar reescrever a paisagem culinária do Vale do Douro, mantendo o sabor (influenciado pela sua herança duriense), acrescentando uma roupagem mais apelativa, mais fresca e com inúmeras/complementares texturas. 

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoAdorei o contraste fumo-doçura-adstringência da Truta fumada com junco da ribeira da Pisca, puré de abacate, pepino, espargos brancos ovas de truta e laranja da Quinta Nova; a delicadeza, requinte e ligeira untuosidade da Raia confitada com citrinos, cevadinha de legumes da horta e molho holandês de limão e estragão, a irreverência da Galinha do mato recheada com pistachio , trufa e cogumelos, puré de aipo, crocante da galinha e molho de vinho Grainha branco, a riqueza e complexidade da Esfera de chocolate com morangos salteados em Cointreau , morangos frescos, mousse de cereja e ganache de chocolate, e a frescura quase érvacea de um dos melhores pannacotta que comi até hoje: o Panacotta de lima e maçã verde, espuma de hortelã manjericão e crocante de pistachio

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoComo não poderia deixar de ser, apaixonei-me pelo "exagero gastronómico" que celebra a vida através do Pudim Abade de Priscos sorvete de romã e favo de mel!!! Após todos estes destaques, não ficaria bem com a minha consciência sem dizer que o restante menu está muito bem conseguido, honrando, sem mácula, o cânone gastronómico duriense.  Foi uma das maiores/melhores surpresas gastronómicas que tive este ano... 

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoO Enólogo Jorge Alves complementa a experiência gastronómica com alguns dos melhores vinhos durienses (em que outro restaurante encontraríamos no menu de degustação o Mirabilis Tinto, o Mirabilis Branco, o Grande Reserva Tinto e o Vintage 2000?). 

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoDesses vinhos falaremos mais detalhadamente depois, mas não posso de deixar de destacar a toranja, acácia-lima, baunilha, pimenta branca, pedregosidade, frescusa, precisão, finesse e profundidade do Mirabilis Branco 2019 (45.00€, 93 pts.); o fumo, pimenta preta, ameixa preta, baunilha, complexidade, harmonia e mineralidade (xisto) do Grande Reserva Tinto 2016 (60.00€, 94 pts.); e as amoras, cassis, pimenta preta, esteva, acidez, estrutura e densidade do Mirabilis Tinto 2017 (120.00€, 97 pts.).

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoVoltando a Saramago, esse génio da literatura portuguesa mundial disse-nos em Todos os Nomes que o tempo, ainda que os relógios queiram convencer-nos do contrário, não é o mesmo para toda gente. Atrevo-me a cometer o sacrilégio cultural de completar a ideia, acrescentando que não é só para as pessoas que o tempo não é igual, também para os sítios ele parece querer ser diferente. 

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoPorque é da conjugação de sítios com pessoas, que resulta a verdadeira matéria do tempo, a pedra de cima e a pedra de baixo, a gota de água que é sangue e é também suor. Porque são eles a paciente coragem, e a longa espera, e o esforço sem limites, a dor aceite e recusada - duzentos anos, se assim tiver de ser, necessários para criar um lugar encantado como este.

Quinta Nova de Nossa Senhora do CarmoPara mim o tempo quase que parou, por uns dias, às 18 horas, seis minutos e 44 segundos... ;) Por tudo isto, penso que a renovada Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo Winery House - Relais & Châteaux veio elevar indelevelmente o nível da proposta enoturística do Douro, tornando-a mais charmosa, mais requintada, mais exclusiva, sem deixar de ser, honradamente, identitária e regional.   

Le Monument - Restaurant | A origem do que (ainda) acredito

“A comida, para nós, vem de seres semelhantes, tenham eles asas, barbatanas ou raízes. É assim que vemos a comida. Comida essa que tem cultura, carrega história, relembra estórias e cultiva relacionamentos.”  Winona LaDukeLe Monument RestaurantDe entre todos aqueles restaurantes que me marcam num determinado momento, há uma pequena minoria que incluo na minha "lista para estrela Michelin", sendo nessa análise, sobretudo exigente com aqueles que ainda não a têm (defender uma estrela num restaurante que já a conseguiu, nem teria grande novidade, nem estaria a arriscar muito não é verdade?). 

Le Monument Restaurant É por isso que recorrentemente vou falando desse "sistema de estrelas". Será que nunca se perguntaram como é que essa lista estrelada surgiu? Bem, as suas origens remontam ao inicio do século XX, tendo sido inspirada por uma sequência, tão aleatória quanto surpreendente, de acontecimentos, que pouco (na verdade ... nada) têm a ver com gastronomia.

Le Monument RestaurantAssim, o primeiro Guia Michelin foi compilado em 1900 pelos irmãos empresários Michelin (André e Édouard) na tentativa de popularizarem/intensificarem a compra de automóveis e consequentemente aumentarem as vendas dos pneus que a sua empresa produzia. Para terem uma noção da tarefa hercúlea a que estes irmãos se dedicaram, na época existiam apenas 300 carros em França, o que como é obvio não era suficiente para o desenvolvimento de um negócio viável.

Le Monument RestaurantCom o objectivo de alterar este cenário pouco promissor, os irmãos Michelin lançaram o primeiro Guia com 35.000 exemplares impressos e que incluía mapas rodoviários, instruções sobre como reparar/trocar pneus, uma lista com mecânicos, outra com postos de gasolina, outra com hotéis e outra com ... restaurantes.

Le Monument RestaurantFoi distribuído gratuitamente e, em menos de uma década, já "passeava" pelo mundo com edições em todos os países da Europa ocidental, no norte da África, no sul de Itália e na Córsega. A eclosão da primeira guerra mundial, a 28 de Junho de 1914, foi um duro revés para o guia, que "desapareceu" durante 6 anos... Em 1920 ressurgiu, revigorado, pois os irmãos Michelin aproveitaram a "pausa forçada" para melhorarem a sua qualidade: eliminaram a publicidade e começaram a cobrar por ele.

Le Monument RestaurantHá um rumor (que confesso que não consegui confirmar) de que os irmãos abandonaram a ideia da distribuição gratuita no momento em que visitaram uma oficina mecânica e se depararam com uma pilha dos seus guias a servirem de base para uma mesa de trabalho completamente suja e carregada de óleo!!! A inovadora classificação por estrelas surge então na edição de 1926, na qual  os restaurantes franceses recebiam uma única estrela caso fossem considerados “restaurantes finos”. 
Le Monument RestaurantEm 1931 o sistema de classificação alargou-se: uma estrela (um restaurante muito bom na sua categoria, do qual não sairíamos defraudados); duas estrelas (um restaurante com um cozinha excepcional e que merecia que fizéssemos um desvio na nossa viagem); e três estrelas (um restaurante com cozinha excepcional que merecia uma viagem propositadamente realizada para o conhecer).

Le Monument RestaurantCom a Segunda Guerra Mundial (entre 1939 e 1945) a classificação reduziu-se para um sistema de 2 estrelas devido à escassez de alimentos. A qualidade da oferta gastronómica baixou em toda a Europa e os parâmetros de avaliação tiveram de ser ajustados a esse novo cenário. Já agora e ainda no contexto desta guerra, o guia foi também bastante útil para as Forças Aliadas devido ao facto dos seus mapas serem bastante pormenorizados. Entre as duas grandes guerras os dois irmãos falecem, André em 1931 e Édouar em 1940, não sem antes deixarem bem claro que este guia nunca poderia deixar de respeitar a sua origem sob pena de perder a identidade: a de indicar aos leitores os melhores restaurantes, estratificados e respeitando a originalidade de cada um. Se houvesse um motivo económico associado, esse seria, apenas, o de fazer gastar mais pneus na viagem até esses restaurantes... :P

Le Monument RestaurantEm 1955, o guia passa a incluir um vasto leque de restaurantes que serviam pratos de elevada qualidade a preços moderados:  o Bib Gourmand reflectia assim padrões económicos para além dos gastronómicos, funcionando quase como um "meia estrela" e que é "personalizado/normalizado" não só por país ou região mas também com base no custo de vida, permitindo assim que as pessoas tenham a  oportunidade de comer bem, sem terem a obrigação de vender um rim.

Le Monument RestaurantEntre 2007 e 2008, Tóquio, Hong Kong e Macau foram também adicionados ao guia, que hoje em dia cobre 23 países, com 14 edições vendidas em 90 nações, distribuídas pelos quatro cantos do planeta. Apesar de todo este legado, tem existido uma certa tendência, recente e crescente, de rejeitar as estrelas Michelin, aquém e além fronteiras, devido essencialmente a 3 motivos. 

Le Monument RestaurantO primeiro tem a ver com a adulteração da filosofia inicial do sistema com 3 estrelas; o segundo (relacionado com o primeiro) advém do novo sistema de avaliação restringir a criatividade/originalidade dos Chefes (isto é particularmente evidente em Portugal e vai desde a gastronomia em si até aos talheres e loiça, passado pelo tipo de serviço); o terceiro e último (e relacionado com os 2 anteriores) tem a ver com a parte (cada vez menos) oculta do negócio com as estrelas (um dia destes pode ser que faça uma publicação totalmente dedicada a este assunto), que mancha um pouco o romantismo do guia e não respeita a vontade dos seus criadores. 

Le Monument RestaurantAcredito (e aqui já não estou a falar de factos mas de opinião), no entanto, que 2/3  dos estrelados, merecem efectivamente o reconhecimento por não mancharem a história dos irmãos Michelin. Em conversa com alguém por dentro da "avaliação Michelin" em Portugal (vamos deixar de fora o 1/3 que não interessa) confirmei o que já achava: a estrela exige muitos "sacrifícios", desde visitas a mercados, aos pequenos produtores e aos centros de abastecimentos, até compreender como os antropólogos, historiadores e filósofos relacionam a comida com a cultura e com as pessoas. 

Le Monument RestaurantCozinhar é muito mais do que alterar um alimento através do frio, do corte ou do fogo, mas sim de o perceber, de o pensar, de o interpretar e o de servir segundo um novo olhar, uma nova roupagem, uma nova experiência. Sempre com qualidade, verdade, identidade. Quando isto passa para o avaliador (há várias maneiras de o fazer, por exemplo, através de um pequeno livro :P) o resto é relativamente fácil: uma harmonização vínica sem mácula, um serviço sem falhas e um ambiente requintadamente confortável.

Le Monument RestaurantHoje vou falar-vos de um restaurante que, quanto a mim, cumpre, com distinção, todos esses requisitos e que me fez dar um novo sentido à frase da conhecida escritora/ambientalista americana Winona LaDuke, com a qual iniciei esta publicação: o Le Monument - Restaurant do eclético Maison Albar Hotels - Le Monumental Palace

Le Monument RestaurantO Chefe Julien Montbabut afinou detalhes num menu já de si marcante (que nos conta as suas histórias, aventuras e descobertas pelo nosso país através de um menu de 14 momentos), juntando aos clássicos (é impossível não nos encantarmos, como se fosse a primeira vez, para mim já foi a terceira :P, com a genialidade, frescura, aristocracia e textura da Sapateira) novas propostas que tornam esta viagem gastronómica pelo nosso país ainda mais memorável.

Le Monument RestaurantComeço por destacar o Sentir-se Português: Pão folhado com flor de sal e azeite (não, não é apenas mais um pão, é um pão requintado, na textura, no aroma, na temperatura e no sabor, que nos reconforta e nos relembra que ao leme desta viagem se encontra um Chefe muito especial). O Despertar dos sentidos (cogumelo e café; telha de spirulina e pizza com anchovas) é o momento mais "cerebral" do menu pois tem como objectivo preparar o nosso palato para a grandiosidade da proposta gastronómica que se segue, através do umami do cogumelo, da vegetalidade da spirulina e da acidez/maresia das anchovas.

Le Monument RestaurantConfesso que a minha nova "obsessão" é a Grande Lata: Sardinha em óleo de limão e caviar de beringela fumada. Quando vou a um restaurante deste nível tenho sempre a esperança de encontrar algo assim: risco, irreverência, uma história e sabor, muito sabor. Se houvesse um foie de sardinha não deveria ser muito diferente disto, paradoxalmente transportou-me imediatamente para atmosfera descontraída, festiva e bairrista do S. João. É uma criação intrigante em que a falta (aparente) de uma textura mais crocante acaba por dar ao prato identidade, risco, irreverência e sobretudo respeito pela origem da sardinha. É preciso mesmo uma grande lata para apresentar algo assim. Acho que só agora, enquanto o descrevia, percebi completamente o prato.

Le Monument Restaurant
Passadiço: Ostra, arroz Centauro, eucalipto e caviar, desta vez e para dar algum descanso à sapateira, foi o meu prato favorito. Transporta aromas inusitados e tentadores, que juntam a maresia com a vegetação. Na boca dá-nos uma experiência muito pura, elegante e rica, pincelada, aqui e acolá, com pequenas explosões/surpresas salgadas. A ostra XXXL é super saborosa e está enobrecida por todos os outros elementos. Acima de tudo é genuína, bem pensada e melhor executada. Liga na perfeição com a clássica Aula de Surf, com Água de sabor marítimo, marisco e algas, servida numa garrafa de vidro tipo message in a bottle, que continua a transportar-me, imediatamente, para a beira-mar, numa manhã de tempestade. Quase que apetece retirar a água do mar do nariz!!! :P

Le Monument Restaurant
Gostei muito dos sabores contrastantes dO meu mercado favorito com Salmonete, molho de fígado e alho branco pois o trabalho com os molhos e o detalhe com que o peixe é preparado (quer no tempo de confecção, quer na textura e fumado da pele) são exímios; do mar, da terra, da originalidade e das inesperadas conjugações do Ex-líbris com Lavagante azul cozido em rama de videira, alface e molho de vinho tinto do Douro; da untuosidade fresca que nos remete para uma quinta do Campo: Agnolotti de requeijão de leite de cabra da Quinta da Rigueira, ervilhas e manteiga de salva; da simplicidade nobremente cativante da Poupança de água: Alface hidropónica grelhada, toucinho (cujo foco está todo no sabor, que é tão rico quanto descomplicado); e do respeito pela tradição elevado pelos contrastes de Trás-os-Montes: Presa de porco bísaro, tomate fermentado, azeitona e estragão cheio de voluptuosidade, ponderação e complexidade.

Le Monument RestaurantContinuo fã da maneira como a Chefe pasteleira, Joana Thöny-Montbabut, apresenta as sobremesas (Morango do Douro e lúcia-lima; Banana da Madeira, noz de coco e lima e; Chocolate 66% e pimenta-longa), em forma de menu final, em crescendo de intensidade e pinceladas com exuberância, alegria e texturas complementares. A harmonização vínica desta trilogia é extremamente desafiante, mas o sommelier Marco Pereira esteve à altura da tarefa. Neste caso escolheu um Madeira, o generoso português menos adocicado, como forma de enobrecer as diferentes propostas. 

Le Monument RestaurantVinho que no inicio casava muito bem com a acidez do morango e no final emprestava frutos secos, caramelo, café e baunilha ao Chocolate.  Pelo meio, a casca de citrinos deste Blandy´s 10 anos Bual fez matching perfeito com a lima da banana. Gostei muito... Apesar de tudo isto, o que me continua verdadeiramente a surpreender é o modo como um Chefe parisiense (ainda que estrelado) chega a Portugal, percebe o nosso cânone gastronómico e o reinterpreta recorrendo à excelência do seu savoir-faire francês, elevando-o, não o mascarando. Esta é a identidade que cultiva no Le Monument - Restaurant.

Le Monument RestaurantEsta é uma viagem não só pelos sabores e aromas, mas também pela origem dos produtos, pela produção e pelo produtor, pela cultura, pela história, pelas pessoas com as suas estórias, e pelos relacionamentos que nos criam saudosas memórias. Quase que metaforicamente, este passeio ocorre também no restaurante, iniciando-se na sua fachada glamorosa, passando pela azáfama da cozinha,  tendo os seus momentos mais altos na charmosa sala de jantar e podendo terminar, a pedido, na bela e acolhedora biblioteca.

Le Monument RestaurantEstive recentemente num evento em que o Chefe Julien Montbabut também participou (conjuntamente com outros Chefes e diversos produtores) e aquilo que vi (preocupação de manter a excelência ainda que num evento para massas, sede de conhecer o que os colegas estavam a apresentar e ânsia por descobrir novas origens para os seus produtos) deu-me a certeza de estar na presença de um Chefe com uma personalidade gastronómica, filosofia e identidade muito próprias, assentes na qualidade do produto, sem fogos de artifícios desnecessários (os imprescindíveis estão lá todos), quase que a mostrar que não são necessárias auto-estradas para as estrelas...

Le Monument RestaurantDo serviço, reforço o que já escrevi noutra ocasião, é exemplar, profissional, conhecedor, preocupado, muito próximo e com um espírito de missão quase tão grande como os laços afectivos que mantêm unida a equipa na vontade conjunta de fazer bem, de fazer diferente, de fazer com elegância e de fazer com orgulho. Parabéns Diogo, Mariana e restante equipa.

Le Monument Restaurant Sei que às vezes arrisco um pouco (se calhar demasiado) com o tipo de afirmações como a que deixo para o final, mas como o blogue foi sempre, (sempre!!!), desde o início, um local onde teço comentários isentos, pessoais e verdadeiros, vou continuar a fazê-las,  atrevendo-me mesmo a dizer o que não disse a respeito de qualquer outro restaurante que visitei com o blogue.

Le Monument Restaurant Não foi o restaurante mais caro onde estive, nem foi o restaurante onde me apresentaram os vinhos mais XPTO, também não foi o restaurante onde tive mais "mordomias", mas foi, indubitavelmente, o restaurante onde esteve mais vincada a origem da parte mais romântica das estrelas Michelin, aquela dos irmãos André e Édouard, aquela em que (ainda) acredito e cuja história vos contei hoje. Se o Le Monument - Restaurant não conseguir uma este ano, significa uma de duas coisas (se calhar até significa ambas): ou que algo vai muito mal na área; ou então que eu não percebo mesmo nada disto e que a "minha lista para estrela Michelin" não tem razão para existir... :P

Sabores da Vida 2021 | Eça alma de Pessoa

 “É incrível o modo como um bom pedaço de carne assada e um generoso copo de vinho encorpado podem restaurar as nossas energias. E o modo como um segundo copo te faz rir com todo o teu coração. E como o terceiro copo te faz procurar um lugar suficientemente discreto para namorares com a tua esposa.” Ferenc Máté 

Sabores da VidaA comida é um elemento importante de qualquer celebração que ocorra em qualquer parte do mundo, independentemente da latitude, da cultura ou da religião, pois esta pode não só fortalecer os laços comunitários como também ajudar a manter uma identidade comum entre esse grupo de pessoas, que se reúne para celebrar. 

Sabores da VidaDiferentes grupos têm diferentes maneiras de usar os alimentos para celebrar ocasiões especiais como o Natal, o Ano Novo, os casamentos e os aniversários. Se pensarem bem, quando recordam o vosso passado, poucos são os momentos de celebração aos quais não estão associados a comida (ou o vinho).  

Sabores da VidaAo celebrar esses momentos, marcantes, através da gastronomia, celebramos, na verdade, ... a vida. Se nos esquecer-mos ou corroer-mos essa relação, estamos a diminuir a importância quer da comida, quer da vida... Quando comemoramos uma ocasião especial, quando comemoramos a vida, estamos essencialmente a colocar um marcador mental nas nossas memórias, fazendo com que seja mais fácil lembrá-las no futuro.  

Sabores da VidaAs fotografias, os vídeos e outras formas de registo dessas ocasiões servem como gatilhos mentais, que podemos usar para reviver aquelas experiências agradáveis. Para mim, há uma espécie de "disco rígido palateano" através do qual essas memórias, relacionadas com bons momentos, ficam ainda melhor preservadas: os sabores que lhes associamos.  

Sabores da Vida  É para celebrar esses sabores da nossa vida, que o Sabores da Vida, Cuisine & Wine Tasting Sunset 2021 vai promover um momento ímpar de lazer com troca de experiências e contactos entre profissionais ligados aos vinhos, gastronomia, turismo e comunicação social. Pela primeira vez, 11 das 12 regiões vínicas de Portugal vão estar presentes nos jardins do Pestana Palácio do Freixo, no Porto, dia 5 de Julho, a partir das 18 horas. No total, vão participar neste encontro 46 produtores de vinhos e 20 Chefes, cada um com a apresentação de dois vinhos e duas criações gastronómicas. 

Sabores da VidaEntre os produtores participantes estão a Pico Wines (Açores), a Herdade Vale D’Évora (Alentejo), Herdade da Lisboa (Alentejo), Makro/Casa Relvas (Alentejo), Casa Relvas (Alentejo), Vicentino (Alentejo), Adega Mayor (Alentejo), Symington (Alentejo), Quinta dos Vales (Algarve), Quinta das Bageiras (Bairrada), Caves do Solar de São Domingos (Bairrada), Manuel dos Santos Campolargo, Herdeiros  (Bairrada), Quinta da Biaia (Beira Interior), Quinta do Mondego (Dão), Magnum Carlos Lucas (Dão), Carvalhão Torto (Dão), Soito Wines, Lda (Dão), Julia Kemper Wines, S. A. (Dão), Lua Cheia em Vinhas Velhas (Douro), Muxagat (Douro), Esmero (Douro), Quinta do Crasto (Douro), Symington (Douro), Palato do Côa (Douro), Infinitude (Lisboa/Colares), Quinta do Brejinho da Costa (Setúbal), Murganheira (Távora- Varosa), Companhia das Lezírias (Tejo), Quinta da Lagoalva (Tejo), Falua (Tejo), Quinta Valle de Passos (Trás-os-Montes), Quinta Serra d’Oura (Trás-os-Montes), Quinta dos Curvos (Vinhos Verdes), Quinta de Soalheiro (Vinhos Verdes), Quinta de Paços (Vinhos Verdes), Falua (Vinhos Verdes) e Vinhos Norte (Vinhos Verdes).

Sabores da VidaOs responsáveis pelas criações gastronómicas que vão maridar com os vinhos, serão os Chefes Arnaldo Azevedo (Vila Foz Hotel), António Vieira (Wish - Uva by Calém - Segreti do Chefe, Gelado Artesanal), Tony Salgado (Palácio do Freixo), Renato Cunha e Sandro Meireles (Vinha Boutique Hotel, o primeiro também do restaurante Ferrugem), todos do Porto e Vila Nova de Gaia. De Braga, estará João Pupo Lameiras e Luís Machado (Casa de Pasto das Carvalheiras) e, de Lisboa, João Sá (Sala) e Justa Nobre (Nobre). Júlio Pereira virá do Funchal (Kampo). 

Sabores da VidaNeste encontro vai ser possível igualmente provar as propostas gastronómicas de Angelica Salvador (Indiferente), Duarte Eira (Salpoente), Joaquim Sousa (Oitavos), Julien Montbabut (Le Monument restaurant), Júlio Pereira (Kampo e Akua), Justa Nobre (Nobre), Paula Peliteiro (Senhora Peliteiro), Pedro Dias (Faz Figura), Pedro Mendes (Narcissus Fernandesi), Rui Martins (Paparico/Brasão/Texto), Tânia Durão (Atrevo) e do estrelado Tiago Bonito (Casa da Calçada).

Sabores da VidaOrganizada pela Alivetaste, um dos portais de gastronomia, vinhos e turismo mais vistos em Portugal, liderado por Mário Rodrigues, e que tem vindo a potenciar sinergias entre Chefes de cozinha, produtores de vinhos, enólogos, empresários e comunicação social, esta nobre iniciativa conta com o apoio da Viniportugal, do Turismo do Porto e Norte e da Escola de Hotelaria e Turismo do Porto.

Sabores da VidaSerá, com certeza, mais uma oportunidade para (com tempo, partilha e amizade) celebrar o que a vida tem de melhor, através de um conjunto de palavras e sentimentos esdrúxulos, o tal amor ridículo de Fernando Pessoa, amor esse, que é o que, afinal de contas, acaba por juntar um conjunto de amigos a "uma mesa" encostada ao Douro. 

Sabores da VidaPorque é apenas com amor, com sentimentalidades e com orgulho, que estes vinhos, que esta gastronomia, que este convívio amigo podem ser pincelados. A alma, essa, parecida com a de Eça (onde cada sabor tinha o seu encanto diferente e cada gole de vinho condizia a um êxtase) de certeza que se cobrirá com um luxo radioso de sensações!!! Será o primeiro evento "comunitário" de celebração que participaremos neste ano, o portal, o Mário, a Celeste e a vida merecem isso. ;)