Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

No meu Palato

No meu Palato

Lapónia | Em busca do (Pai) Natal

"Às vezes, as coisas mais reais deste mundo são aquelas que não podemos ver.” Chris Van Allsburg

Lapónia e HelsínquiaO Pai Natal, também conhecido como São Nicolau ou Kris Kringle, tem uma longa história, rica em tradições e lendas. Nos dias que correm, ele é imaginado como um homem alegre, barrigudo, de barba branca e comprida, vestido de vermelho e que traz brinquedos para todas as crianças na véspera de Natal. 

Lapónia e HelsínquiaNa verdade, a história do Pai Natal, começa bem lá mais atrás, no séc. III, num sitio que provavelmente não estarão à espera, quando um monge passeava a sua boa vontade pela Terra, tornando-se o santo padroeiro das crianças. A sua história pode ser rastreada até ao ano 280, conduzindo-nos até São Nicolau, nascido em Patara, perto de Myra, na actual Turquia.

3 (24).jpgEste monge era muito querido por toda a comunidade devido à sua piedade e bondade. Essa "boa onda" fez com que São Nicolau se tornasse o epicentro de muitas lendas. Diz-se que São Nicolau doou toda a sua riqueza às crianças e viajou pelas regiões mais pobres do seu pais, ajudando todos os que necessitavam. 

Lapónia e HelsínquiaUma das histórias mais conhecidas relativas a São Nicolau é aquela que nos fala de três irmãs muito pobres que estavam prestes a ser vendidas como escravas pelo seu pai. São Nicolau pagou o dote necessário para que essas meninas se pudessem casar. 

5 (22).jpgPor causa de gestos como este, ao longo de muitos anos, a popularidade de Nicolau espalhou-se por todo o planeta, tendo até sido eleito o protector das crianças. A festa de S. Nicolau é comemorada no aniversário de sua morte, a 6 de Dezembro. Tradicionalmente, esse dia era considerado um dia de muita sorte para quem quisesse fazer grandes compras ou então para se casar. 

Lapónia e HelsínquiaPor alturas do renascimento, São Nicolau era já o santo mais popular na Europa. Mesmo depois da reforma protestante, quando a veneração dos santos caiu em desuso, São Nicolau manteve a sua fama, particularmente nos Países Baixos. 

Lapónia e HelsínquiaSão os imigrantes holandeses os responsáveis pelo transporte da lenda de São Nicolau (Sinterklaas) para a Nova Amesterdão (actual cidade de Nova York), introduzindo também o costume de dar presentes e doces às crianças no dia da sua festa: 6 de Dezembro. 

Lapónia e HelsínquiaA silhueta actual do Pai Natal é sobretudo baseada em imagens desenhadas pelo cartunista Thomas Nast para a Harper's Weekly, em 1863, que por sua vez se inspirou na descrição dada no poema “A Visit from St. Nicholas” (também conhecido como “A noite antes do Natal ”), publicado pela primeira vez em 1823.

Lapónia e HelsínquiaEssa imagem foi posteriormente popularizada pelos anúncios criados para a Coca-Cola em 1931 pelo ilustrador Haddon Sundblum (o mito de que foi a Coca-Cola que definiu os contornos actuais do Pai Natal assim como o seu traje vermelho é apenas isso, um mito, pois existem muitas imagens desse velhinho barrigudo anteriores a 1931). 

Lapónia e HelsínquiaO Pai Natal de Sundblum era um cavalheiro corpulento de barba branca, vestido com um fato vermelho com cinto preto e de pele muito branca, botas pretas e um gorro vermelho. Para aqueles que gostam de "ver para crer" em Outubro de 2017, uma equipa de arqueólogos turcos descobriu um túmulo sob a Igreja de São Nicolau, na província de Antalya, não muito longe das ruínas da antiga Myra, e que tudo indica pertencer ao próprio São Nicolau. 

Lapónia e HelsínquiaSe a Turquia reivindicar (como sugerem alguns rumores) o local do descanso eterno de São Nicolau, os amantes dessa figura paternalista terão um novo destino de peregrinação ... se a Finlândia não tiver algo a dizer sobre isso. Antes de o cristianismo ter chegado à Finlândia na Idade Média, os finlandeses celebravam o Yule, um festival pagão de meados do inverno marcado por um banquete abundante e elaborado.  

Lapónia e HelsínquiaNo dia de São Knut (a 13 de Janeiro), dia em que muitos países nórdicos marcam o fim da temporada de férias, os nuuttipukki - homens vestidos com capas de pele, máscaras de casca de bétula e chifres - iam de porta em porta exigir presentes e roubar restos de comida. Estes nuuttipukki eram espíritos malignos, se não conseguissem o que queriam, faziam barulho e assustavam as crianças.

Lapónia e HelsínquiaQuando o caridoso São Nicolau se tornou conhecido na Finlândia no séc XIX a sua imagem misturou-se com tradição pré-existente do nuuttipukki mascarado, originando o Joulupukki, o Pai Natal. Assim o Joulupukki passou a distribuir presentes em vez de os tirar. 

14 (11).jpgAo contrário do Pai Natal que desce pela chaminé, Joulupukki, vestido com uma túnica vermelha, batia na porta e perguntava “Onko täällä kilttejä lapsia?” (“Há alguma criança bem comportada por aqui?”). Depois de entregar os presentes, Joulupukki voltava para a sua casa em Rovaniemi na Lapónia, num local onde consegue ouvir/ver tudo. 

Lapónia e HelsínquiaEm Novembro de 2017 (coincidentemente, ou não, um mês após as descobertas na Turquia), o Ministério da Educação e Cultura da Finlândia aprovou o Pai Natal para ser incluído no Inventário Nacional de Património Vivo, uma lista que é mantida pelo Conselho Nacional de Antiguidades como um parte da Convenção da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial. 

Lapónia e HelsínquiaMas porque é que nem os Países Baixos, nem a Coca-Cola, nem a Turquia, nem a Finlândia, reivindicam o Pai Natal como totalmente seu? A resposta é simples, porque o Pai Natal é de todos e vai muito além destas noções egoístas de pertença. Tem a ver com o nosso imaginário, tem a  ver com a criança que todos nós já fomos, de há muito tempo e muito longe, que um dia, agarrada ao coração, aguardava atrás da porta, para que algo maravilhoso acontecesse. 

Lapónia e HelsínquiaSe os restos mortais encontrados em Antalya forem mesmo de São Nicolau, isso vai dar um alento enorme à reivindicação da Turquia, no entanto, à Turquia ainda falta a neve, as renas e as auroras boreais, fortemente associadas à casa do Pai Natal. Todas elas podem ser encontradas em Rovaniemi na Finlândia. 

Lapónia e HelsínquiaAssim, preciosismos históricos/religiosos/históricos à parte, todos sabemos, ou deveríamos saber, que o verdadeiro Pai Natal, mora no Pólo Norte com sua esposa, onde passa o ano a fazer brinquedos com a ajuda dos seus incansáveis duendes e elfos. Lá, ele recebe as cartas de crianças de todo o mundo, a pedir presentes de Natal. 

Lapónia e HelsínquiaNa véspera de Natal, ele enche o seu trenó de brinquedos e voa pelo mundo, puxado por oito renas (até sei os nomes de cor: Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão, Relâmpago, Bernardo e claro a Rudolfo), parando na casa de cada criança. 

20 (12).jpgPara entregar as prendas ele desce pela chaminé, reconfortando-se, antes de sair, de novo, pela chaminé, com o leite e as bolachas que as famílias lhe deixaram. Foi esse Pai Natal, embaixador da boa vontade e dos sonhos das crianças, que decidimos procurar há umas semanas, numa das mais bonitas/enriquecedoras viagens que já tive: a viagem à Lapónia, a viagem à casa do Pai Natal. 

Lapónia e HelsínquiaEmbalados pelo cenário encantado do livro "O Expresso Polar" de Chris Van Allsburg (o filme com o mesmo nome também está bem conseguido, ao ponto da Bia e do Gui o terem assistido sem pestanejarem ;)) decidimos que esta aventura teria de contemplar o "Santa Claus Express" da empresa ferroviária estatal finlandesa VR.  

Lapónia e HelsínquiaAntes de apanharmos esse comboio na estação de Helsínquia tínhamos que chegar à Finlândia. Já tínhamos a viagem acertada com a Lufthansa (Porto-Frankfurt-Helsínquia-Frankfurt-Porto) desde Outubro, mas a Ómicron e as restrições às viagens que surgiram na Europa no inicio de Dezembro ainda nos fizeram por em causa a realização desta viagem.  

Lapónia e HelsínquiaApós inúmeros contactos com a Aldeia do Pai Natal, com a My Helsinki (centro de turismo de Helsínquia), com o hotel onde ficaríamos hospedados, com a VR, com a Lufthansa e devido à elevada taxa de vacinação finlandesa, decidimos arriscar, em segurança.  Saímos às 6h30 do aeroporto do Porto, e contando já com os diferentes fusos horários chegamos ao aeroporto de Helsínquia pelas 17h00. 

Lapónia e HelsínquiaÀs 20h00 apanhamos na estação central de Helsínquia (a 20 minutos de metro do aeroporto) o Santa Claus Express, rumo a Rovaniemi. Podem escolher 2 tipos de cabines com cama, as que ficam no piso inferior (mais baratas) e as que ficam no piso superior, mais confortáveis.  Ficamos nas cabines-cama no andar de cima que são como quartos de hotel viajando sob carris. 

Lapónia e HelsínquiaAs cabines são apropriadas para 2 pessoas, têm duas camas (2 metros por 0.8 metros) e uma casa de banho privativa com duche (depois dos dois voos em que eu carregava 80% das malas (;)) não imaginam o bem que me soube o duche quente no comboio). As cabines possuem ainda wi-fi, amenities, toalhas, tomadas e bebidas. Há uma carruagem com bar, outra com restaurante e outra com um parque de diversões para as crianças.

Lapónia e HelsínquiaPor estarmos perto do Natal o clima por todo o comboio era imensamente festivo e alegre, transportando-nos imediatamente para a atmosfera do  livro de Chris Van Allsburg. Depois dos pequenotes terem percorrido quase todo o comboio e de termos jantado, o João Pestana acabou por chegar.

Lapónia e HelsínquiaAcordei a meio da noite e quando olhei pela janela não me apeteceu adormecer mais, o cenário era deslumbrante com aquelas árvores cobertas de neve e que só havia encontrado nos filmes. A partir de Kemi a paisagem muda muito, pois o comboio passa a acompanhar o leito do rio Kemijoki até Rovaniemi.  Chegamos à estação de Rovaniemi às 7h30.  

Lapónia e HelsínquiaSe como nós levarem muitas malas não se preocupem pois a estação possui uns cofres (custam 2 € cada um) onde podem deixar tudo o que não necessitarem para a Aldeia do Pai Natal. Todas as nossas malas couberam num desses cofres (levem já as moedas de 2 € no bolso pois à hora que o comboio chega é quase impossível trocar dinheiro).  Apanhamos imediatamente um táxi (25 €) para a Aldeia do Pai Natal numa viagem que demorou 15 minutos. 

Lapónia e HelsínquiaTínhamos pensado inicialmente entrar num café para tomarmos um chocolate quente enquanto esperávamos que a aldeia abrisse oficialmente (às 9h00),  mas este local encantando dá-nos logo a volta à cabeça com o som dos Huskies latindo e uivando ao fundo misturado com as canções de Natal ininterruptas. Imediatamente embebidos no espírito natalício percorremos, sozinhos, os recantos desta aldeia por mais de uma hora.  

Lapónia e HelsínquiaÀs nove em ponto tínhamos visita marcada com o pai Natal, com o qual havia trocado uns emails nas semanas que antecederam esta visita. Este velhinho mora no edifício central da vila. Depois de entramos e percorrermos um caminho giratório de corredores (que revela alguns dos segredos do Pai Natal), faltava apenas subir umas escadas para termos algum tempo a sós com o mais famoso barbudo do mundo (a visita à casa do Pai Natal grátis). Quanto mais nos aproximamos do Pai Natal mais os degraus vão ficando avermelhados. 

Lapónia e HelsínquiaAtrás de uma porta imponente e após conversarmos com alguns elfos ... finalmente encontramos o Pai Natal. Estava sentado na sua sala de estar, numa cadeira enorme e cumprimentou-nos com uma alegria contagiante. Correspondia a tudo o que sempre tinha imaginado. 

Lapónia e HelsínquiaFalamos sobre as crianças, falamos com as crianças, falamos de comida, falamos de vinho (sobretudo de Portos), falamos de Portugal e falamos de sonhos e da realização dos mesmos. Em nenhum momento o Pai Natal "sai da personagem", nem isso seria possível, não é verdade? Dado que ele é o original... ;) 

Lapónia e HelsínquiaOs 5 minutos de conversa souberam a pouco mas tínhamos de dar a vez a outras crianças... Na casa do Pai Natal não é permitido tirarmos fotos, um elfo faz esse serviço e toda nossa visita/conversa é gravada em vídeo.  A foto custa 30 €, por 40 € têm direito também ao vídeo. É um pouco caro, mas vão querer deixar de registar este marco?   

Lapónia e HelsínquiaDepois de um dos momentos mais altos da viagem (mais à frente já vos revelo o mais alto ;)), regressamos ao exterior para apreciarmos as belas luzes de Natal, para nos aquecermos numa das fogueiras e para brincarmos com as renas. O passeio de trenó puxado por renas, que nos leva a passear pelo bosque encantado, é verdadeiramente digno de um conto de fadas. Uma das renas ficou aflita, provavelmente tinha comido demais, e aliviou-se ali mesmo, de rabo virado para a Bia. 

Lapónia e HelsínquiaEscusado será dizer que durante uma hora a miúda não parou de se rir... ;) Esta é outra das experiências que recomendamos vivamente, os preços do passeio variam entre os 14 € e os 70 € (dependendo do percurso escolhido). Outra experiencia divertidíssima (e grátis), tem a ver com o atravessar do Círculo Polar Árctico, que naquela aldeia mais não é que passar uma linha iluminada que destaca essa linha imaginária. 

Lapónia e HelsínquiaAli, entrar e sair do Polo Norte, está, literalmente, a um passo. Ao lado dessa linha há uma webcam ao vivo para que possam acenar para os vossos amigos em casa. Gastronomicamente recomendámos o Lapland Restaurant Kotahovi. É dos mais bonitos/charmosos restaurantes em que estive, com uma acolhedora sala de jantar, uma enorme lareira ao centro e uma vista privilegiada para a Aldeia do Pai Natal. 

Lapónia e HelsínquiaNão servem bebidas alcoólicas, mas a cerveja (sem álcool) caseira é deliciosa. Experimentem a Sopa cremosa de salmão do Árctico e a tradicional Rena salteada com urze em chutney e pickle de pepino.   Às 15h35 deixamos este lugar encantado em direcção e Helsínquia, numa viagem de comboio que durou 8 horas. 

Lapónia e HelsínquiaComo estes dois dias haviam sido muito densos resolvemos "descansar" 3 dias na capital da Finlândia, aproveitando para a conhecer melhor (já lá tínhamos estado há uns anos, sem crianças, aquando dos trabalhos de pós-doutoramento da Clarisse).  Ficamos no Marriott Hotel Katajanokka, Helsinki, a Tribute Portfolio Hotel que fica apenas 15 minutos a pé do centro da cidade (não precisamos de usar transportes públicos durante a nossa estadia e devido à quantidade de malas apenas usamos um táxi, com um custo de 20 €, para nos transportar entre a estação central de Helsínquia e o hotel).  

Lapónia e Helsínquia O Hotel Katajanokka é um hotel com design requintado, conforto casual chique e serviço personalizado, cujas instalações resultam da renovação da antiga e histórica prisão de Helsínquia. A parte mais antiga do Hotel Katajanokka remonta a 1837 e a parte principal a 1888. Dentro das suas imponentes paredes de tijolos vermelhos é possível encontrar um mundo mágico de contrastes - com conforto sereno, design elegante e um toque de luxo nórdico. 

Lapónia e HelsínquiaFoi concebido para deixar o comum à porta, criando um espaço com um conjunto de regras bem diferentes das do mundo normal. Nesse mundo, os valores fundamentais são o amor, a paz, o privilégio e paradoxalmente a liberdade. Os quartos foram cuidadosamente reconstruídos a partir das originais celas, com design e decoração que não comprometem a funcionalidade e o conforto. 

Lapónia e HelsínquiaProjectado especificamente para oferecer privacidade e paz, as paredes de tijolos de um metro de espessura tornam os quartos muito silenciosos, garantindo uma boa noite de sono.  Este hotel oferece também ginásio e sauna. A sauna é uma obrigação rejuvenescedora para os fãs de um estilo de vida descontraído e combina com o hotel como o sal combina com a pimenta. 

Lapónia e HelsínquiaOs hóspedes do hotel podem desfrutar (uso privativo a qualquer momento) da sauna gratuitamente. Outra das "atracções" é o restaurante... O Linnankellari é definitivamente obrigatório para os adeptos da boa gastronomia e é liderado pele Chefe executivo Thomas Rowe. Remodelado na cantina da prisão na cave do edifício, o Linnankellari oferece o melhor do receituário nórdico, sempre com um toque de inovação.  

Lapónia e HelsínquiaRecomendamos a Sopa de salmão cremosa acompanha com  pão de malte (não sei se já perceberam mas gostamos mesmo deste tipo de sopa :P); a Língua de rena assada lentamente carbonizada com batata confitada, raízes em conserva, salada de aipo e molho de groselha preta (delicioso e provavelmente o melhor prato da viagem!!!); e o Fondant Prision Breack com  molho e sorvete de baunilha caseiros.  O pequeno-almoço é divinal!!! 

Lapónia e HelsínquiaEm Helsínquia se viajarem por altura de Natal não deixem de visitar os mercados com as suas belas cores e aromas. Provem numa das barraquinhas o Glögg: (vinho quente finlandês), uma delicia e muito apropriado para aqueles mercados.  Dêem um salto também às joias da coroa da cidade: a praça do Senado, a Catedral Lutheran (com uma cúpula verde, arquitectura neo-clássica e um interminável escadario),  e a Catedral Uspenski (a maior igreja ortodoxa da Europa Ocidental). Enquanto deambulam pela cidade parem num dos seus bares e bebam uma cerveja Karhu Lager Beer, a melhor da Finlândia ;)

Lapónia e Helsínquia  A Capela Kamppi também merece atenção uma vez que se assume como uma obra-prima arquitectónica, com uma forma única, curvada e suave, totalmente construída em madeira. Ainda nos edifícios religiosos, a ”Rock Church” (igreja de pedra subterrânea) é uma das principais atracções turísticas da capital finlandesa, com um interior moderno e um sumptuoso telhado de arame de cobre. 

Lapónia e HelsínquiaPasseiem também ao longo do Mar Báltico que por aqueles dias se encontrava congelado e deixem-se perder também pela gastronomia local. Recomendamos dois restaurantes: o Sushibar+Wine City com um sushi super fresco e saboroso, acompanhado por alguns dos melhores vinhos franceses, italianos, americanos, alemães e ... portugueses (há uma página na carta de vinhos totalmente dedicada ao nosso país); e o Story Kamppi no qual podem encontrar comida caseira tradicional, sabores autênticos e um dos melhores salmões do país.  

Lapónia e HelsínquiaQuanto a custos uma família como nós (2 adultos e 2 crianças) e se planearem as coisas atempadamente conseguem ter esta experiência por um custo total a rondar os 2000 € (400 para os voos, 400 para os comboios, 750 para as três noites no hotel e 450 para as refeições e táxis). Parece muito mas não se esqueçam que a Finlândia é um dos países mais caros da Europa. E por falar em coisas caras, o que é realmente caro é o vinho. Tem de ser importado (o local não é grande coisa) e é muito difícil encontrarem alguma coisa bebível por menos de 50 €. Tudo o resto é caro, mas aceitável...

Lapónia e HelsínquiaE assim termina a narrativa desta viagem memorável. Escusado será dizer que as crianças adoraram!!! O melhor momento de todos os que passamos foi uma dança natalícia com os pequenotes ao som as musicas de Natal, enquanto estávamos sozinhos na aldeia do Pai Natal, impagável!!! Chris Van Allsburg conta-nos no "Expresso Polar" que às vezes parece ser necessário ver para crer, mas às vezes, o que existe de mais real no mundo é aquilo que não podemos ver e nos faz dançar de alegria....

Lapónia e HelsínquiaHá uns anos, a maioria dos seus amigos ainda ouvia o guizo Natal (metáfora que simboliza o acreditar na magia desta época). Mas, com o passar dos anos, o guizo ficou em silêncio para quase todos eles. Até mesmo a Sarah, uma das que mais acreditava, numa véspera de Natal deixou de ouvir o seu som doce. Embora eu tenha envelhecido, depois desta viagem com estes três, o guizo de Natal jamais deixará de tocar para mim, como acontece com todos aqueles realmente acreditam.

Restaurante Ferrugem | O brilho de uma sombra com memória

"Parece-me que na escala das medidas universais há um ponto em que a imaginação e o conhecimento se cruzam, um ponto em que se atinge a diminuição das coisas grandes e o aumento das coisas pequenas: é o ponto da arte... E o resto é ferrugem e pó das estrelas." Vladimir Nabokov

FerrugemPerguntem a cinco amigos qual a sua "comida de conforto" favorita... Provavelmente receberão cinco respostas diferentes, em que pelo menos uma delas é: mas que raio é a comida de conforto? Isto acontece porque a noção de conforto naquilo que comemos tem a ver sobretudo com nostalgia e com memória.

FerrugemO arroz da avó, a feijoada da mãe, a tarte da madrinha, a azáfama perto do fogão em dias especiais, as reuniões familiares ao redor da mesa, até mesmo um prato que odiávamos em criança e agora, inexplicavelmente, nos faz salivar (olá sopa de nabos :P). Portanto, não é de admirar que quando estamos mais em baixo, doentes ou simplesmente com saudades de casa, nada soe melhor do que alguns desses sabores nostálgicos, que nos fazem aninhar gastronomicamente em busca de aconchego.

FerrugemComeço a achar que os historiadores divergem na opinião em relação às origens de praticamente quase todos os conceitos gastronómicos, a "comida de conforto", não é excepção. O Oxford English Dictionary aponta para um artigo do Washington Post de 1977 sobre comida sulista (camarão com grão, um prato amado nos Estados Unidos da América, particularmente no sul) como a primeira utilização desse termo. 

FerrugemDebates históricos à parte, a maior parte das pessoas (de diferentes países ou culturas) concordam com três atributos desse tipo de comida reconfortante: têm elevado teor calórico, são pratos quentes e fumegantes e, o mais importante de tudo, são comidas que desencadeiam aquelas memórias de infância, quase sempre afectuosas. Dessa forma, a comida de conforto tem a ver com o lugar de onde nós viemos, com aquilo que os nossos pais nos deram e, à medida que o nosso palato se vai educando, com aquilo que fomos provando fora de casa, num contexto também ele repleto de boas memórias. Este último ponto ajuda a explicar como é que o peru recheado do dia de Acção de Graças me remete para esse tipo de sentimentos.

FerrugemÉ o equivalente gastronómico de um cobertor quente, um sofá confortável e uma lareira acesa. É algo familiar e reconfortante, algo que nos injecta uma sensação quase palpável de bem-estar. Muitas vezes, é um prato que nos lembra a segurança e a protecção da infância, o amor pela família ou a importância da amizade. Pode evocar memórias de refeições compartilhadas, entes queridos e eventos felizes, tudo ao mesmo tempo.

FerrugemNuma visão mais cientifica do assunto, Cheryl K. Webster (médica de saúde mental doutorada em Psicologia da Saúde Clínica e Psicologia Neurológica e também autora do blogue The Kashonna Files) concluiu nos seus estudos clínicos que os ingredientes que constam nesse tipo de refeições foram-nos passados pelos nossos ancestrais (sim, esses mesmos, os que caçavam mamutes e perseguiam javalis), e foram esses alimentos, que através dos tempos criaram e mantiveram comunidades, em refeições partilhadas em momentos especiais.   

FerrugemEstejamos nós a seguir receita de sopa da avó para combater uma constipação ou a tentar recriar um "prato de assinatura" da nossa mãe, os benefícios emocionais de preparar e consumir comida de conforto transcendem culturas, ajudando a trazer eustress (pelos vistos é uma espécie de stress positivo, não conhecia o conceito) a longo prazo, que liberta endorfinas que nos ajudam a regular o bom humor e reforçam o sistema imunitário.  

FerrugemAssim, e apesar de todos nós termos ideias diferentes sobre o que pode ser uma comida reconfortante e se esta deve ou não ser saborosa, o sentimento de amor, segurança e familiaridade que chega quando nos atiramos de boca aberta para um prato destes,  é algo verdadeiramente especial para todos aqueles que o saboreiam. Em tempos de incerteza, preocupação e dúvida, como aquele em que vivemos, esse tipo de comida é particularmente retemperador. Quantos de nós, durante o tempo que já dura esta famigerada pandemia, nos entregamos aos tachos e às panelas em busca de conforto, tentando recrear coisas que fomos conhecendo enquanto crianças?

FerrugemA nossa "divida moral" para com este tipo de gastronomia é, assim, colossal e é por isso que fico um pouco triste quando, por vezes, assisto não só a tentativas de menosprezar esse tipo de comida mas também aos esforços de incompatibilizar essa comida com o fine dining.  

FerrugemEm quantos restaurantes estrelados podemos encontrar caldo verde? E rojões? Será que podem servir cabidela? Acho que esse preconceito, algo elitista, advém do facto de se achar que se as nossas avós conseguiam produzir este tipo de refeição, tal não deve de ser muito difícil, desafiante, reconhecido ou valorizado.

FerrugemSou daqueles que acha que o nosso cânone gastronómico tradicional, aquele que abarca quase todas as comidas de conforto, deixa bastante espaço para uma interpretação original na sua confecção/apresentação. Nesse aspecto, há um Chefe português que claramente se destaca: o Renato Cunha do Restaurante Ferrugem.

FerrugemIsto porque o Renato pega nesses pratos e dá-lhes outras texturas, outra apresentação, outras temperaturas e por vezes outros ingredientes. Com todas estas alterações temos uma experiência muito mais complexa e elaborada, mas sem que a memória (quer a organoléptica quer a das emoções, afectos e sentidos) seja comprometida.

FerrugemJá fomos ao Ferrugem inúmeras vezes, na última delas encontrámos um restaurante que se aproximou muito do brilho estrelado que ambiciona, mas sem nunca se desprender das suas origens. Começamos com a Sardinha e cebola em diversas texturas (caramelizada, compota, pickle, areia e jus). A sardinha, levemente braseada, conjugada não só com a acidez e doçura moderada dos acompanhamentos, mas também com a intensidade de cada um dos diferentes sabores fazia deste primeiro momento uma epopeia de descobertas de novas sensações no palato.

FerrugemSeguiu-se a Sopa de peixe com robalo da costa atlântica. Surgiu na companhia da ameijoa, do mexilhão, do camarão e de um caldo delicioso. Conjugava, de forma inesperada, a frescura e maresia do peixe com um picante tão elegante quanto assertivo. Foi das sopas que mais me marcou, no final apeteceu-me mais!!!

FerrugemNa estação gastronómica seguinte encontramos uma sui generis Língua de vaca com compota de nabo de gandra e folhas frescas biológicas (mostarda, rúcula, acelga e alcachofra). Vinha apresentada em forma de naco, crocante no exterior e aprisionando sucos muito intensos e saborosos no interior. A untuosidade no sabor e a delicadeza na textura harmonizavam muito bem com a acidez da compota de nabo. Muito bom!!!

FerrugemO Robalo selvagem da costa atlântica e "à brás" de espargos verdes estava cozinhado no ponto. O "à brás"  parecia querer competir com o robalo pela nossa atenção. Nesta competição quem acaba por ganhar é realmente quem o prova. É um prato simples mas eficaz, em que o foco está todo no produto. Seguiu-se um dos momentos altos do jantar: Bacalhau confitado em azeite virgem extra, puré de batata e colagénio de bacalhau, couve penca, cenoura e cebola em pickle. É uma reinterpretação do bacalhau com todos, tendo o ovo desaparecido para a batata ganhar destaque num puré divinal, portador da mesma untuosidade e sabor do bacalhau. É sobretudo um prato genuíno, generoso e com memória. É daqueles que faz lamber os lábios, só de pensar nele!!!

FerrugemFalo-vos agora do meu favorito: Rojão e "sarrabulho" de cogumelos com secreto de porco alentejano, arroz carolino e trompetas dos mortos. Tinha tudo para não ser equilibrado e harmonioso, mas é-o e com distinção. O arroz chega a ser intrigante, al dente, com cominhos e o unami dos cogumelos. Os secretos estavam selados por fora, com a gordura braseada a dar origem a uma crosta (de) soberba e um sabor muito intenso. Se há pratos voluptuosos sem que se perca a elegância, este é um deles!!! Partilho convosco o que escrevi no meu caderno de apontamentos sobre este prato: "Amei!!! Comia disto todos os dias. Obrigado e parabéns Renato, a viagem valia só por isto..."

FerrugemPara finalizar este repasto, Queijos portugueses, marmelada caseira e amêndoa; e Fondant de Cenoura, com pickle de cenoura, ganache de chocolate branco, chocolate preto, iogurte, gengibre, malagueta e poejo.  Como não poderia deixar de ser estava construído sobre o sabor da cenoura, mas os restantes elementos pincelavam-no com muita originalidade, delicadeza, sentido e uma boa dose de presunção. A confecção e texturas do fondant estavam irrepreensíveis.

FerrugemA comida encheu a sala que estava vazia, numa noite fria de um feriado. Foi o equivalente gastronómico de um cobertor quente, um sofá confortável e uma lareira acesa. A sala tornou-se familiar e reconfortante, injetando-me uma sensação quase palpável de bem-estar. Todo este cenário fez-me teorizar sobre o porquê do Ferrugem do Renato Cunha não ter a estrela e cheguei a uma conclusão. Tirando as sombras negras (ou serão antes contornos Brancos?) apenas vejo um motivo "mais na forma do que no conteúdo" para isso acontecer. E que motivo é esse? Outra sombra...

FerrugemA sombra do sucesso que os pratos de assinatura do Renato mais conhecidos (como o caldo verde, o pastel de nata de bacalhau, o gelado de outono e o tributo ao abade de priscos v. 4.0) tiveram. Dito assim, parece uma contradição, pois se essas criações têm sucesso, isso deveria ser valorizado. O problema é que na visão de quem liga ou desliga uma estrela em Portugal, as cartas têm que ser mudadas pelos menos duas vezes num ano. Ou seja, para o Renato ter a mão na estrela teria de abrir mão desses pratos já (re)conhecidos. Acho que o Renato encontrou uma maneira engenhosa de resolver o problema: o de criar  uma carta com esses best sellers e outra que muda conforme a estação.

Ferrugem Recentemente um passarinho contou-me que se essa intenção for materializada, o desígnio já há muito anunciado para o Ferrugem, pode, enfim, ser concretizado.  Por tudo isto, se noutros restaurantes vejo a hipótese da estrela ficar menos cintilante (por estarem a aparecer cada vez mais casas com filosofias e contextos gastronómicos parecidos) aqui no Ferrugem vejo esse hipotese cada vez maior, porque ninguém faz o que o Renato faz: elevar a categoria de toda a gastronomia regional portuguesa para um nível condizente com fine dining e não apenas aqueles pratos da moda. Pinta as suas obras gastronómicas com poucos elementos no prato mas, paralelamente, aporta a cada um deles, uma densidade de sabor poderosíssima.

Apenas senti falta dos jogos com a temperatura que encontrei há uns tempos no Bacalhau com todos, de resto, por mim, podem dar a estrela ao homem ;)

 

Roadtrip Costa Vicentina | Juramento eterno de sal (II)

"Com todas as tuas ofertas tu oferecerás também a mais valiosa de todas: sal!!!“ Antigo Testamento

Linha do Algarve - Meia Praia

O sal vem dos mares, estejam eles mortos, secos ou vivos. Pode borbulhar na superfície como salmoura, aparecer na forma de salinas ou esconder-se timidamente em cavernas. Abaixo da superfície terrestre os depósitos de sal quase parecem os vasos "sanguíneos" do nosso planeta,  acumulando-se em veias esbranquiçadas, algumas delas com milhares de metros de profundidade. Pode ser obtido através da evaporação da água do mar ou na extracção mineira em poços que se estendem por quase um quilómetro de profundidade.

Lagos

A história da nossa civilização segundo o sal é bastante simples e com poucos capítulos: os animais iam traçando caminhos para obterem o sal indispensável à sua subsistência. Os homens seguiram esses animais na busca de alimento. Esses primeiros trilhos desenhados pelos animais, com o nomadismo humano tornaram-se estradas e algumas povoações começaram a aparecer junto delas. Quando o cardápio humano mudou de caça rica em sal para os cereais, foram necessárias novas estratégias para complementar a dieta salina. 

BelmarComo os depósitos subterrâneos estavam na altura fora de alcance, a única fonte viável eram os mares. Essa escassez manteve o mineral precioso e fez com que as populações se fossem deslocando em direcção aos mares. À medida que a civilização se espalhou pelo globo, o sal tornou-se numa das mais importantes mercadorias comerciais do mundo.

BelmarAssim as rotas do sal começaram a serpentear pelo planeta. Uma das mais importantes ligava Marrocos  a Timbuktu, através do Saara. Partindo de Marrocos o sal chegava ao Egipto transportado em camelos. Depois, os navios que cruzaram o Mediterrâneo e o Egeu faziam-no chegar à Grécia. Heródoto (geógrafo e historiador grego do séc. V a.C.) descreveu minuciosamente essas caravanas que uniam os oásis de sal do deserto da Líbia: milhares de camelos viajavam em fila pelo Saara, do Norte Africano para as savanas do sul e de volta novamente, numa jornada perigosa que podia levar meses.

Belmar

Parando ao longo do caminho em oásis, as caravanas eram amplamente controladas pelos berberes que actuavam como cobradores de impostos, ficando com algum sal, ouro, cobre, peles, cavalos, escravos e outros itens de luxo.  Todo este comércio trazia consigo conhecimentos em arte, arquitectura e religião, levando civilização até às cidades mais isoladas de África.

Belmar

Noutro ponto do globo, a riqueza cintilante de Veneza não se devia tanto às especiarias exóticas que lá eram comercializadas, mas antes sim ao sal, que os venezianos trocavam em Constantinopla pelas especiarias da Ásia. Em 1295, quando voltou da sua famosa viagem à China, Marco Polo deliciou o Doge (o dirigente máximo da República de Veneza) com contos sobre o valor prodigioso das moedas de sal com o selo do grande Kublai Khan (governante do Império Mongol).

Ponta da Piedade

Já no séc. VI, no sub-Saara, o valor do sal igualou o valor do ouro. Na Abissínia (actuais Etiópia e Eritreia), placas de sal-gema, chamadas amôlés, tornaram-se a moeda oficial do reino. Cada uma tinha cerca de 25 centímetros de comprimento e 5 centímetros de espessura. A moda pegou e pequenos blocos de sal começaram também a ser usados como moeda um pouco por toda a África Central. 

Ponta da Piedade

O sal não só servia para dar sabor e conservar os alimentos, como também era um bom anti-séptico, razão pela qual a palavra romana para esses cristais salubres (sal) deriva de Salus, a deusa da saúde. De todas as estradas que levavam a Roma, uma das mais movimentadas era a Via Salária, a rota do sal, sobre a qual os soldados romanos marcharam e os mercadores conduziam carros de bois carregados destes cristais preciosos provenientes das salinas de Ostia.

Ponta da Piedade

O pagamento de um soldado - consistindo em parte de sal - ficou conhecido como solarium argentum, de onde derivamos a palavra salário, muito querida por todos nós. ;) O salário de um soldado era reduzido se ele "não valesse o seu peso em sal", uma frase que surgiu porque quer gregos quer romanos, muitas vezes, compravam escravos com sal. Por ser usado como conservante, o sal tornou-se também um símbolo de resiliência dos judeus do Antigo Testamento. O seu uso nos sacrifícios hebraicos como purificador da carne passou a simbolizar a aliança eterna entre Deus e Israel. Ainda na Bíblia, o sal é também uma metáfora para a graça e a sabedoria de Cristo.

LagosDurante a Idade Média, a santidade do sal transformou-se em superstição, passando o derramamento de sal a ser considerado agourento, um presságio da desgraça. Reparem que n'A Última Ceia de Leonardo da Vinci, o carrancudo Judas é mostrado com um frasco de sal tombado à sua frente. Todos sabemos o que aconteceu depois...

Restaurante o Mexilhão - Lagos

O simbolismo social do sal cresceu na realeza europeia do séc. XVIII. A categoria dos convidados num banquete era avaliada por onde eles se sentavam em relação a um saleiro de prata colocado na mesa. O anfitrião e os "ilustres" convidados sentavam-se à cabeceira da mesa, "acima do sal". As pessoas que se sentavam "abaixo do sal", mais distantes do anfitrião, percebiam então que eram de pouca importância.

Restaurante o Mexilhão - Lagos

Mais perto da nossa latitude, a costa atlântica da Península Ibérica é desde longa data conhecida pela produção de sal, sendo uma das actividades mais antigas do território Português, devido às óptimas condições geográficas e climatéricas: ventos dominantes fortes e quentes durante uma parte do ano e Verões com temperaturas elevadas e constantes. 

Restaurante o Mexilhão - Lagos

Curiosamente, o mais antigo documento conhecido sobre o sal português está datado no ano de 959 e descreve uma doação de terras e salinas de Aveiro, feita pela condessa Mumadona ao Mosteiro de Guimarães. Já no reinado de D. João I (séc. XIV), a quantidade de sal produzida era tanta que o governo facilitava a sua exportação para o estrangeiro (Holanda, Dinamarca, Noruega, França, Suécia o Reino Unido), uma medida com grande proveito económico.

Restaurante o Mexilhão - Lagos

O sal português foi sempre considerado como o de melhor qualidade, tanto em Portugal como no estrangeiro, e assim, era um artigo privilegiado, dispensado de qualquer imposto ou portagem. Apesar de todo este contexto bastante próspero e feliz, a referência mais conhecida a esse sal surge no “Mar Português”, na Mensagem de Fernando Pessoa, o sal que se mistura com as lágrimas de Portugal, aquele que rebenta nas ondas perigosas do mar alto.

Restaurante o Mexilhão - Lagos

No que a mim me diz respeito esta memória feita de cloreto de sódio não é assim tão triste quanto a desta pessoa em Pessoa. Não nos podemos esquecer que o sal desse mar é o mesmo que também entra pela terra, invadindo esteiros e misturando-se com braços de rios, onde depois os portugueses com arte e engenho extraíam esse ouro branco, contribuindo para uma das mais brilhantes páginas da nossa história. 

14 (10).jpg

Esse sal com um sorriso nos cristais é acrescido por memórias olfactivas em que o sal está invariavelmente presente. Há uma que no último ano ganhou um destaque especial: é o cheiro do sal, do cheiro do sal misturado com o do mar, do cheiro do sal a enriquecer o aroma do peixe grelhado, do cheiro do sal a misturar-se com o do eucalipto e do alecrim, do cheiro do sal a misturar-se com o do pó das estradas de terra.

Lagos

Toda esta panóplia de cheiros resumem-se em duas palavras: Costa Vicentina. Foi por tudo isto que achei que o sal deveria ter destaque no segundo capitulo da nossa #roadtrip2021. Curiosamente, numa das estradas de pó da Costa Vicentina e enquanto fazia zapping no rádio do carro, deparei-me com o «Juramento eterno de sal» de Álvaro de Luna que nos conta uma história, também feliz, também nessa costa, também numa viagem e também com o sal com papel de destaque: estava escolhido o titulo para uma das três partes da  nossa aventura por aquelas bandas.

Belmar spa & beach resort

Esse cheiro característico do sal vicentino também se misturou com o da ferrovia. Confusos? :P Se decidirem "fazer" a Costa Vicentina não podem deixar de guardar algum tempo para contemplar a beleza da linha do Algarve perto da foz da ribeira de Odiáxere. Aliás, toda essa zona merece que percamos tempo e ganhemos memórias com ela. 

Belmar spa & beach resort

Fica apenas a 15 minutos de carro do Belmar Spa & Beach Resort. Já vos falei de algumas das mais valias deste hotel na outra publicação, a todas elas acrescento o pequeno almoço. Com a variedade, quantidade e qualidade necessárias para que nos sintamos preparados para percorrer todas estas estradas. O contexto "paisagístico" é o que a imagem de cima faz transparecer.  

Passadiços do Alvor

A 15 minutos de carro da Foz da ribeira de Odiáxere situa-se um dos sítios mais bonitos que tivemos o prazer de contemplar nesta viagem: os passadiços de Alvor, os maiores do Algarve. Estão inseridos numa paisagem de beleza natural invulgar (as dunas, os sapais e o estuário atraem milhares de aves que se passeiam pelas praias douradas), entre a praia de Alvor, banhada pelo Atlântico, e a Ria de Alvor. Materializam-se num percurso circular com 6 km que passam num instante. Guardem uma manhã para estes passadiços, não se vão arrepender.

Passadiços do Alvor

Para recarregarem as baterias ao almoço, até porque o pequeno almoço do Belmar já lá vai (:P), aconselhamos o restaurante Mexilhão do simpatiquíssimo Pedro Guerreiro. Com as mãos nos tachos e panelas surge a esposa, a Chefe Cátia Almeida. O Pedro trata dos vinhos, dos gins e de rejeitar reservas para fazer cumprir o distanciamento físico, muito importante em tempos de pandemia. 

Alvor e Praia da Luz

A comida é genuína, sem maquilhagem e assente em produtos frescos e da máxima qualidade. Destacamos a untuosidade e maresia do lingueirão; a acidez e irreverência do mexilhão com cebolada; o conforto e textura do polvo com batata (o Gui adorou); a confecção perfeita e sabor delicado do atum; e a originalidade do peixe espada com banana, em forma de fish and ships algarvio. 

Praia da Luz

O meu prato favorito foi no entanto o peixe porco na chapa devido ao seu sabor intenso e à sua textura delicada. Para sobremesa experimentem os morangos com chantily, não se vão arrepender ;). Gostamos tanto que voltamos lá no dia seguinte para desfrutar de (parte de) um robalo com 4.5 kg!!!

Casa Velha: Quinta da Lago

A tarde foi reservada  para conhecer a a belíssima cidade de Lagos com a sua imponente cidade velha amuralhada, íngremes falésias (a Ponta da Piedade é de cortar a respiração) e o nada saudoso mercado de escravos. A Igreja de Santo António, uma igreja ornamentada em talha dourada do século XVIII, situa-se do lado oposto ao Castelo dos Governadores e é de uma magnificência indescritível, entra directamente para o top das igrejas mais bonitas que visitamos (não vão encontrar fotos do seu interior nesta publicação uma vez que tal não é permitido).

Marisqueira "O Perceve"

Para o jantar sugerimos o restaurante Casa Velha da Quinta do Lago. Fica a uma hora de Lagos mas vale bem viagem. A Clarisse só "reclamou" na ida... :P Foi o único fine dinning que seleccionamos para esta roadtrip, e em boa hora o fizemos.  Foi o primeiro local gastronómico da Quinta do Lago e conta agora com um novo Chefe de cozinha, Alípio Branco, que refinou o menu à la carte com pratos de autor assentes em produtos frescos, locais e sazonais. O menu de degustação (que entretanto, e como tem de ser, foi mudado para a nova estação) conta com identidade, pertença e originalidade, mas sobretudo conta ... uma história de uma região através dos aromas, das cores, das texturas e dos sabores.

Marisqueira "O Perceve"

Comungando com o principio, cada vez mais importante, de sustentabilidade o restaurante abastece-se de frutas de legumes na Q Farm, a quinta biológica da Quinta do Lago e nos mercados locais de Quarteira, Loulé, Albufeira e Olhão. O sal chega de Castro Marim, o mel de Moncarapacho e as ostras da ria Formosa. 

Praia de Salema

Esta relação com a comunidade envolvente é fortalecida também com o estabelecimento de uma forte ligação com os artesãos locais que foram desafiados para desenvolverem loiças e talheres únicos, que combinassem com a excelência da gastronomia que é servida do restaurante. Esta relação roça a perfeição no prato vegetariano. Tenho quase a certeza que este ano a estrela não lhes escapa... ;) Se estiverem curiosos sobre este restaurante leiam a critica que lhe fizemos. 

SagresParagem seguinte: a Praia da Luz, tristemente conhecida por um acontecimento marcante em Maio de 2007. Mas, felizmente, a Praia da Luz é muito mais que esse desaparecimento.  Foi outrora uma vila piscatória de grande importância, sobretudo entre os sécs. XIII e XVI. Nos dias que correm é uma povoação pitoresca e cosmopolita, com uma calçada na marginal, ladeada por grandes palmeiras, bonitas esplanadas e pelas muralhas da fortaleza que foi originalmente construída para proteger a povoação dos ataques de piratas provenientes do norte de África.

SagresAo fundo eleva-se imponentemente uma arriba muito ravinada pela escorrência das águas. Nesta arriba esbranquiçada, uma estranha formação rochosa mais escura sobressai na paisagem: a Rocha Negra, um filão vulcânico da Serra de Monchique que se estendeu até ao mar. Esta baía de águas calmas é propícia à prática de desportos náuticos como o windsurf, o kitesurf ou a canoagem. Um "simples" mergulho é obrigatório!!!

SagresFaçam esse percurso entre Lagos e a Praia da Luz junto ao mar, assim vão podendo contemplar algumas das mais bonitas praias do Algarve: a praia dos Estudantes, a praia do Camilo, a praia da Balança, a praia do Barranco do Martinho, a praia do Canaval e a praia de Porto de Mós. Antes deste rodízio de praias façam uma paragem na marisqueira o Perceve do Bruno Ricardo dos Reis Dias

Baía da Luz Resort

Com um menu repleto de iguarias preparadas com muito cuidado, qualidade e exigência, os preços são muito mais acessíveis do que seria esperado, dada a qualidade que ali é colocada na mesa. Destacamos a frescura e grande variedade de marisco: perceves, condelipas, gamba da costa, lapas, ostras, búzios, canilhas, bruxas, sapateira, entre outros… A carta de vinhos também merece destaque uma vez que foge ao óbvio e aposta em bons vinhos da região. 

Baía da Luz Resort

Para a estadia na praia da Luz sugerimos o Baía da Luz, a 10 minutos a pé da praia da Luz. Um resort ímpar numa vila graciosa carregada de memórias da vida piscatória, com o mar azul-turquesa como pano de fundo. Possui três piscinas, adequadas a todo o tipo os hóspedes: uma para adultos, a segunda para famílias e uma terceira indicada apenas para crianças (esta última vigiada). 

Baía da Luz Resort

Tem ao dispor apartamentos de luxo, elegantemente decorados e totalmente equipados, dispondo ainda de parque infantil, um campo de ténis e um bar. Ficamos alojados num apartamento com 2 quartos duplex com vista para o mar: provavelmente o melhor desta viagem (a par de outro que falaremos mais à frente ;)). Está decorado com muita elegância e os pisos são em madeira, apresentando todas as comodidades modernas que se esperam numa estadia num resort deste gabarito.

Baía da Luz Resort

Ao entardecer, podemos ainda deleitar-nos com a fantástica gastronomia italiana no restaurante Alloro (a critica fica para o ultimo capitulo desta #roadtrip2021). A 10 minutos de carro do resort Baía da Luz encontramos a povoação do Burgau, muito conhecida pela sua praia. Está situada no limite poente do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. O areal estende-se ao longo de uma pequena enseada que funciona como porto piscatório e onde ainda se praticam formas artesanais de pesca, sendo utilizadas artes como o alcatruz, a rede de amalhar ou o aparelho de anzol.  

Baía da Luz ResortPara lá chegar é necessário descer a localidade para encontrar uma rampa que vai dar à praia e ao porto piscatório, onde ainda estão os famosos e coloridos barcos tradicionais. Com sorte é possível observar o regresso de alguns desses barcos à praia carregados de peixe, que mais tarde podem ser saboreados nos restaurantes do Burgau. A disposição das arribas conjugada com a orientação do areal faz com que a praia do Burgau esteja protegida dos ventos e das intempéries, proporcionando banhos super tranquilos.

Juro-vos, perante o sal, que lá voltarei ;)