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No meu Palato

No meu Palato

Vinum at Graham's | Guerra e Paz: A faísca de um sonho

"O vinho torna a vida mais fácil e suportável, com menos tensões e maior tolerância... Quando o vinho entra, apenas sai a verdade!!!” Benjamin Franklin

Vinum at GrahamsEstamos em 1788 e o que está prestes a acontecer na Sala de Assembleias do Estado da Pensilvânia vai originar acontecimentos extraordinários: a transferência pacífica de poder por 46 vezes; a construção da ferrovia transcontinental, do canal do Panamá e do Sistema Rodoviário Interestadual; o envio do homem à lua; a invenção da Internet, a criação do maior PIB mundial (quase duplicando o do país que ocupa a segunda posição - a China), e a vitória em duas Guerras Mundiais ... num continente que não era o seu. Tudo isto em pouco mais de 200 anos, é obra!!!

Vinum at GrahamsEstou a falar da criação da constituição dos Estados Unidos da América por parte dos "Pais Fundadores".  Sem eles, não haveriam os Estados Unidos da América, Sinatra ou Hemingway. Os "Pais Fundadores" eram um grupo de proprietários/empresários, que uniram 13 colónias díspares, lutaram pela independência da Grã-Bretanha e redigiram uma série de documentos governamentais influentes e que orientam o país até aos dias de hoje. 

Vinum at GrahamsTodos os "Pais Fundadores", incluindo os quatro primeiros presidentes dos Estados Unidos, eram inicialmente súbditos britânicos. No entanto, e em resposta às medidas demasiado restritivas do rei Jorge III, lutaram pela independência, conseguindo uma impressionante vitória militar sobre o que então era a superpotência militar do mundo. Nessa Constituição, um poderoso documento (embora incompleto), existiam dois fortes desígnios: liberdade e igualdade. Desígnios esses que se mantiveram, mesmo quando o país já era independente e estava em paz. 

Vinum at GrahamsQuando o governo federal vacilou sob os Artigos da Confederação, os "Pais Fundadores" reuniram-se de novo para afinar a Constituição, levando a que fossem superados a maior parte dos desacordos entre grandes e pequenos estados, e entre os estados do sul e os do norte, emergindo um sistema político estável, equilibrado e robusto. Mostrando ainda dotes visionários, este grupo incluiu ainda uma Declaração de Direitos, que consagrou muitas liberdades civis em lei e forneceu um modelo para outras democracias emergentes. 

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George Washington, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton e James Madison são os nomes mais conhecidos desse grupo de heróis, que em conjunto nos parecem querer segredar um conselho para encarar os dias em que vivemos actualmente: para ganharmos um guerra não precisam de estar em maioria (nós não estávamos), ter mais meios (nós não tínhamos) ou possuírem armas mais modernas (não era o nosso caso), "basta" serem corajosos, serem inventivos, serem perspicazes e trabalharem como equipa.  Estes "Pais Fundadores" conduziram os Estados Unidos a uma vitória improvável (quase impossível) porque eles respeitaram esses quatro princípios basilares. 

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Washington possuía qualidades de liderança tão incríveis que conseguiu manter o exército unido para que conseguisse sobreviver, não só ao inverno rigoroso de Valley Forge (um refúgio perto de Filadélfia) como também às constantes retiradas diante de um inimigo (muito) mais forte.  Benjamim Franklin tinha inteligência (inventou o para-raios, as lentes bifocais, o fogão Franklin e um hodómetro, formou a primeira biblioteca pública na América e o primeiro corpo de bombeiros na Pensilvânia) e as habilidades de escrita que permitiram a obtenção de um documento tão rico como a Constituição dos Estados Unidos da América. 

Vinum at GrahamsPor sua vez, John Adams tinha as habilidades políticas/oratórias necessárias para defender a Constituição no Congresso, garantir financiamento para a guerra com os holandeses e, mais tarde, negociar um tratado de paz com os britânicos. James Madison, para além de ser um dos parteiros oficiais da Constituição, era um político tão influente quanto inteligente, desenvolvendo um plano para dividir o governo federal em três poderes: o legislativo, o executivo e o judicial. Esse plano, que foi amplamente adoptado por todo o mundo, rendeu-lhe o apelido de “Pai da Constituição”.  

Vinum at GrahamsAlexander Hamilton, um órfão pobre, ilegítimo e que ganhou destaque por ajudar Washington, criou grande parte da economia dos Estados Unidos, que apesar de todos os seus problemas, tem vantagens irrefutáveis para a maioria dos americanos: crescimento, longevidade, estabilidade e conforto. Conhecendo toda esta história, parece bastante óbvio que nenhum destes homens poderia, individualmente, dar à luz o país mais poderoso que alguma vez já existiu. Como equipa, estes quatro heróis materializam, muito provavelmente, a colecção mais formidável de inteligência e talento alguma vez reunida.

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Estes quatro mostraram-nos que para liderar bem não é necessário um poder absoluto, antes sim, saber escolher uma equipa. Acho que como Europa, e sem pretender dar lições de moral/história a ninguém, temos muito a aprender com os Estados Unidos e no modo como souberam conciliar as diferenças para que o bem comum fosse alcançado. Só uma Europa federalista terá tamanho (territorial, económico, financeiro, ideológico, político, social e militar) suficiente para combater dementes que por vezes chegam a chefes de estado. 

Vinum at GrahamsDeixando estes assuntos contemporâneos de lado, voltamos a 1788, logo após o nascimento da Constituição dos Estados Unidos. George Washington, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton e James Madison decidem sair para jantar e comemorar, junto com mais 50 pessoas, o resultado de cinco árduos meses de trabalho.  Comemorar com que? Ora bem, a resposta a esta pergunta vai demorar um pouco a ser escrita. 100 garrafas de vinho, 22 garrafas de Porto, dezenas de Madeira (anos antes, a 4 de Julho de 1776, a independência dos Estados Unidos já havia sido celebrada com um brinde deste vinho), 12 garrafas de cerveja, 8 garrafas de uísque, 8 garrafas de cidra e 7 garrafas de ponche.  Tudo isto acompanhado pelo que de melhor a gastronomia de então tinha para oferecer: marisco, ostras, mousse de salmão, sável, linguado e uma enorme diversidade de tartes, queijos e gelados.

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Por tudo isto, Walter Staib, (conhecido Chef e apresentador do programa “A Taste of History”), afirma que nesse grupo que apresentou a Constituição em 1787 estavam os primeiros foodies da América. Além de seu legado como revolucionários e políticos, os "Pais Fundadores" dos Estados Unidos da América eram, antes de tudo, apreciadores de (boa) enogastronomia. Como muitos dos foodies de hoje, eles procuravam alimentos obtidos através de agricultura e a pecuária sustentáveis, alimentos importados exóticos, cerveja artesanal, vinhos especiais e eram apaixonados por harmonizações. 

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A história destes quatro é polvilhada com textos que mostram o seu amor pela comida e pela arte de comer, amor esse que acabaria por se traduzir na cultura alimentar diversificada que hoje reconhecemos nos Estados Unidos. Acredito que esta base enogastronómica contribuiu, ainda que em pouca medida, para o sucesso dos "Pais Fundadores" enquanto presidentes, pois como postulou Benjamim Franlkim, o vinho e a gastronomia tornam a vida mais fácil,  mais suportável, com menos tensões e mais tolerante. Não é tudo isto que a política, atrevo-me mesmo a dizer a vida, necessita?

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O mote saído desse jantar comemorativo da constituição: "no vinho, um sonho; e no sonho, uma faísca" foi discutido por muitos escritores americanos, um deles, Steven Grasse (autor de Colonial Spirits: A Toast to Our Drunken History) faz um bonito trocadilho acerca da ligação entre a comida, o vinho e a história dos Estados Unidos: "muitas ideias malucas podem surgir de uma noite de conversa bem regada".

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Mas não pensem que esses "Pais Fundadores" ou então aqueles que gostam de harmonizar vinhos com comida (conheço alguns ;)) estão-no a fazer "apenas" por prazer ou para comemorar esta relação história entre vinho-comida-liberdade-verdade-igualdade, fazem-no também, e sobretudo, pela sua saúde (:P), pois ao consumirmos comida na presença do vinho: reduzimos o risco de intoxicação alimentar, combatemos compostos causadores de doenças resultantes da digestão, e melhoramos a nossa própria digestão.

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Foi com todas estas mais valias enogastronomicas em mente que nos deslocamos a um dos locais onde essa combinação entre vinhos e boa gastronomia é particularmente muito feliz: o Vinum at Graham's Restaurant & Wine Bar. Este restaurante é uma das referências gastronómicas do Porto, graças a uma proposta de excelência, centrada no produto e no canône gastronómico do Norte de Portugal.

Vinum at GrahamsResulta da união da história de duas famílias e duas paixões, que se uniram para criar um espaço único. Os Symington (produtores de vinho do Porto e do Douro, que há mais de 130 anos vivem o mundo do vinho e, muito em particular, o Douro como muito poucos) na hora de escolher um parceiro para um arrojado projeto de restauração, que exibisse ideais comuns e partilha na dedicação, compromisso e amor pela gastronomia descobriram Iñaki Lz de Viñaspre García e a sua família, que há mais de 20 anos criaram o Sagardi, que hoje se espalhou por vários pontos do mundo, em mais de 32 restaurantes devido ao rigor e a uma reputação baseada na excelência do produto e numa cozinha de elevada qualidade.

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O Vinum apresenta uma proposta gastronómica de alto gabarito, que traz para a mesa as melhores tradições do Douro, de Trás-os-Montes, do Minho e do Atlântico que banha Portugal: alheira de Mirandela IGP,  peixe do mercado de Matosinhos e a exclusiva carne de vaca velha de Trás-os-Montes são alguns dos clássicos que podem ser provados. Juntamente com estes pratos tradicionais, pode ainda ser provado o melhor da parrilla Basca e pratos contemporâneos de referência internacional, tais como os tártaros, o robalo de linha com cogumelos, os pratos de foie gras e o rabo de boi estufado em vinho biológico. Tudo orquestrado através da batuta gastronómica do chef Francisco Miranda, que procura fazer rimar essa tradição, com inovação, apresentação e superação. 

Vinum at GrahamsAlém de uma garrafeira bem cuidada e de um serviço de excelência em torno do vinho, o Vinum é Vinho, e por isso os pratos do restaurante foram criados especialmente para harmonizar com os vinhos Douro DOC, do Porto e alguns Alentejanos produzidos com mestria pela família Symington, assim como com vinhos produzidos pelos seus amigos, em Portugal e no mundo, com os quais partilham a paixão por um produto tão nobre.

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A sala de refeições do Vinum é a extensão das caves do Séc. XIX onde envelhecem os famosos vinhos do Porto da Graham’s, e por isso respira esse mesmo mundo do vinho, com as históricas vigas de madeira de pinho suportadas por pilares de ferro de 1890 e uma vista única sobre as cerca de 3200 pipas de vinho em envelhecimento nas caves. Uma sala histórica, recuperada para criar uma atmosfera única e apetecível onde somos convidados a viver e sentir a glória do vinho ao lado da melhor comida que a cidade tem para oferecer.

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No prolongamento da sala principal encontra-se o Atrium – o jardim de Inverno, e onde tivemos um almoço memorável e podemos desfrutar, de uma paisagem arrebatadora e de uma das mais belas vistas de Portugal. Debruçado sobre a histórica cidade do Porto (Património da Humanidade pela UNESCO), sobre o rio Douro e a singular Ponte Dom Luís, poucos restaurantes no país podem proporcionar este conforto, ambiente e cenário.

Vinum at GrahamsFalando mais concretamente da enogastronomia, gostamos muito do modo como a frescura, as notas citrinas, o abacaxi e o briche do  BRUMMELL Methode Traditionnelle Brut Blanc de Blancs elevou a riqueza voluptuosa dos Croquetes artesanais do Vinum com presunto ibérico, das Chamuças de Moura e maçã e da Alheira de Mirandela IGP na grelha com pimentos. Já tinha achado isso no Sagardi e reforcei essa ideia no Vinum, esta "malta" são dos que melhor trabalham os enchidos, elevando-os a outro nível sem desrespeitar a tradição. 

Vinum at GrahamsSeguiu-se o melhor tártaro de peixe que provamos até hoje: Tártaro de atum dos Açores com tomate confitado. Uma delicia!!! Conjugava de modo muito harmonioso os aromas, a frescura e a leveza do mar, e contrastando tudo isto com a voluptuosidade e riqueza do atum. Para além de todos estes predicados o tártaro transmitia ainda uma alegria contagiante, nos sabores, nas cores e nas texturas. 

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A "Coca" de rosbife e queijo curado da Serra da Estrela DOP com vinagrete de mostarda era uma verdadeira salada de sabores, muito rica, heterogénea e com uma dicotomia muito engraçada entre acidez e untuosidade. Quer a "coca" quer o tártaro ganharam muito com o hibisco, a casca de laranja cristalizada, o alperce, a framboesa e acidez acutilante do Quinta da Fonte Souto 2020 Rosé 2020. Paragem seguinte: Sopa rica de peixe e marisco do Mercado de Matosinhos. A pescada e o camarão estavam no ponto, e, em conjunto, exibiam um sabor inspirador a mar, único e inconfundível, que combinava diferentes influências, sabores e aromas. Adorei a textura do camarão, a riqueza da ameijoa e a untuosidade do peixe... A harmonia construída na voluptuosidade e frescura marítima é diga de realce.

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Como prato principal Linguado do mercado de Matosinhos. Sem dúvida o momento alto da refeição, momento esse alicerçado quer na excelência do produto quer na mestria da sua confecção.  Como condimentos apenas muito azeite, bastante alho, algum vinagre e Guindilla basca. Ácido, intenso, delicado e carregado de sabor. Este é um daqueles pratos que nos faz  lamber os lábios!!! Destaco ainda a classe, saber e elegância na preparação à mesa do linguado e pela perfeição na harmonização vínica por parte do João (até por ter sido conseguida com um vinho que não conhecia). Um vinho cremoso e com uma estrutura incrível,  que perfumava o peixe com manga, toranja e uma baunilha deliciosa. Sei que ainda estamos no inicio, mas leva para já a distinção de harmonização do ano.

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Nota ainda para o pratos dos miúdos. Lombo de robalo com acelga e batata doce assada, a mostrar que para agradar ao palato dos mais pequenos, a solução fácil (comida rápida e infantilizada) não é sempre a solução vencedora, escusado será dizer que não sobrou nada nos pratos.  Para sobremesa Ananás dos Açores caramelizado no forno, Graham's Tawny 20 years old e gelado de coco. Leveza e elegância são os adjectivos que melhor a caracterizam. O ananás em diversas texturas e a extravagância do coco emprestam uma alegria ao prato que chega a ser contagiante, quase que a poder ser metamoforizada numa piña colada gourmet que pode ser mastigada.

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As nozes, a laranja confitada, doçura qb e enorme equilíbrio do Graham's 20 anos enobreceram a sobremesa, mas preferi os tostados, figos secos, cacau complexidade e diversidade aromática do Graham's 40 anos (sugestão do Paulo ;)), que serviu ainda de anfitrião para uma longa conversa nos jardins da Graham's.  Já ao final do dia ainda houve tempo para visitar as pitorescas Caves Graham's, ali mesmo ao lado, na agradável companhia de Pedro Saraiva. 

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Destaco Graham's Port Vintage 2000 (105.00 €, 95+ pts.), ainda com alguns anos de boa evolução pela frente e ainda carregado de romã, ameixa e eucalipto, mas já com tabaco, couro e flores secas.  Como surpresa realço o rubi Graham's Port Crusted 2013 (30.00 €, 91 pts.) e a sua ameixa, frutos silvestres, alcaçuz, eucalipto e afinado equilíbrio. No entanto e apesar destes destaques prévios, o que mais brilhou na prova foi o Single Harvest Tawny Port 1990 Lodge Edition (130.00 €, 96 pts.). De porte laranja-acobreado exibia orgulhosamente aromas de arbusto, damasco, casca de laranja confitada e baunilha. Mas é na boca que passeia toda a sua classe: frescura, complexidade e equilíbrio e muita aristocracia.

Vinum at Grahams

Por vezes, e por tudo o que hoje vos contei, num copo de vinho após uma deliciosa refeição, para além de alguns dos aromas que hoje vos descrevi, estão também encerrados valores como a liberdade, a igualdade, a tolerância, a paz e a verdade. Brindemos a isso e também a que mais uma vez, a resistência, a sorte e resiliência acompanhem o lado certo, democrata e tolerante da Guerra. Se podermos vencer a tirania com a coragem, a inteligência, a perspicácia e o trabalho de equipa (em oposição à leia da bala), tanto melhor. 

Quinta das Carvalhas | O quinto quarto da laranja

"Ah, como a minha mãe percebia de vinho!!! Ela entendia o processo de amadurecimento das uvas, a fermentação, o envelhecimento que ocorre na garrafa, as mudanças na cor, as transformações lentas, e o nascimento de uma nova safra através do aparecimento de um bouquet de aromas, quase como um mágico faz surgir um ramos de flores de dentro da sua cartola."  Joanne Harris

Quinta das Carvalhas

É isso mesmo, o titulo da publicação de hoje é inspirado no livro de Joanne Harris «Cinco quartos de laranja». A protagonista é Framboise, uma velhinha que nos conta, com suspense e algum segredo, um momento fracturante da sua vida. Enquanto criança de nove anos, que vivia no interior de França durante a Segunda Guerra Mundial, Framboise manteve um relacionamento agridoce com a sua mãe (solteira), Mirabelle. O seu pai havia morrido na guerra, fazendo com que esta pequena família orfa (ela, a mãe e os seus irmãos) lutasse diariamente para estabelecer uma dinâmica mais afortunada, por entre um turbilhão de eventos ao seu redor. 

Quinta das Carvalhas

Framboise, para além de protagonista, assume também o papel de narradora, contando-nos que ela e os seus dois irmãos durante o verão mantiveram uma relação capitalista com Tomas, um soldado nazi, trocando segredos sobre seus vizinhos por chocolates e livros de banda desenhada. Framboise acrescentava sempre a estes subornos o pedido de uma laranja. Mais tarde, Framboise usava a sua casca para atormentar a mãe Mirabelle, que quando cheirava laranjas sofria uma espécie de feitiço em forma de enxaquecas horríveis.  Mirabelle, para além de viver atormentada por estas dores,  era também  uma cozinheira super talentosa, apreciadora de (bons) vinhos e que vivia ainda perseguida por alguns problemas psicológicos bastante graves. 

Quinta das CarvalhasComo acontece com qualquer putativa relação com a extrema direita (;)), o acordo "comercial" das crianças com os nazis corre mal e a família é obrigada a fugir, em segredo, para uma cidade francesa (Les Laveuse). É neste momento que se dá o salto temporal para a Framboise com 60 anos, viúva, e que por um motivo oculto esconde todo o seu passado. Todo este trabalho de se tornar invisível é posto em causa quando o restaurante onde trabalha é avaliado numa revista gastronómica nacional.

Quinta das Carvalhas

É neste momento que o passado e o presente nos parecem inextricavelmente entrelaçados, particularmente num álbum de receitas e memórias que Framboise herdou de sua mãe. É também aqui que Framboise percebe duas coisas: que tem muito mais a ver com a sua mãe do que aquilo que inicialmente pensava e que o diário contém a chave para tragédia que marcou indelevelmente aquele verão da sua infância.

Quinta das Carvalhas

Harris construiu um enredo de várias camadas, pontuado com descrições deliciosas de iguarias francesas e narrações dos efeitos da guerra sobre uma família frágil. Este livro transborda sensualidade e sensibilidade, mas... porquê cinco quartos de laranja? Se pensarmos bem, cinco quartos de uma laranja ... não existem. Bem, essa suposta imprecisão é apenas a autora a ser brilhante, como o havia sido anos antes em «Chocolate». Nesses cinco quartos de uma laranja encontramos a lógica inocente das crianças: se dividirmos uma laranja em cinco, o que obtemos? Cinco quartos... 

Quinta das CarvalhasEstes cinco quartos são também uma excelente metáfora para a capacidade de uma criança misturar realidade com imaginação, capacidade essa que, por vezes, influencia o nosso destino de modo preponderante.  Neste nevoeiro de superstição e realidade surge a Velha Mãe, um peixe (lúcio) que vive no Rio Loire e que concederá a realização de um desejo a quem a conseguir apanhar. 

Quinta das Carvalhas

No entanto, há também o reverso da medalha, se enquanto alguém tenta apanhar a Velha Mãe despertar a atenção do peixe, essa pessoa ou alguém que ame, irá morrer em breve.  A cena em que Framboise finalmente captura a Velha Mãe e faz o seu desejo é arrepiante. Fiquei ofegante ao ler a prosa descritiva desse momento e confesso que quase chorei (porque os homens não choram :P) ao ponto de não querer ler mais uma palavra escrita por Harris.

Quinta das Carvalhas

Depois de me passar a neura literária, percebi que a principal lição deste livro, quer sejamos crianças ou mais adultos, é parecida com aquela que Fernando Pessoa nos deu através de Caeiro, a de que para conhecermos realmente alguma coisa é necessário, primeiro, pensar essa coisa com os olhos e com os ouvidos, com as mãos e com os pés, com o nariz e com a boca. Temos de vê-la, senti-la, cheirá-la. Para que quando lhe comamos o seu fruto, ela nos saiba ao seu sentido.

Quinta das Carvalhas

No livro de Harris este conhecimento embedido de alguma coisa é destacado sobretudo na relação que a mãe de Mirabelle mantinha com o vinho, relação essa que está bem patente na citação com que iniciei esta publicação. É com base nesta filosofia de conhecer verdadeiramente algo, partilhada por Mirabelle, Pessoa e Harris, e perfumado, aqui e acolá, com um bonito aroma a laranja, que vos vou falar da Quinta das Carvalhas e dos seus vinhos. 

Quinta das Carvalhas

A visita que ocorreu no final do ano passado contemplou a prova de 5 vinhos e aproveitei a oportunidade para apresentar a Quinta à família, uma vez que da última vez a Bia ainda era pequenita e não era recomendável que subisse os 550 metros que nos conduzem ao topo das Carvalhas. Curiosamente ao recordar essa visita de 2017 percebi que também ela havia sido marcada por outro aroma característico da propriedade, o de lavanda. 

Quinta das CarvalhasComeço pelo aroma do amarelo-citrino Quinta das Carvalhas Branco 2019 (30.00 €, 94 pts.) carregado de baunilha, flor de laranjeira, damasco, esteva, acácia lima, alguma pedregosidade (pedra molhada) e uns tostados muito sedutores. No palato é largo, intenso, persistente e bastante fresco.  Por sua vez o Quinta das Carvalhas Touriga Nacional 2017 (35.00 €, 94 pts.) exibe um belo violeta quase opaco e emana bergamota, violetas, frutos do bosque e caixa de tabaco. Na boca é rico, elegante, carnudo e possui uma acidez irreverente. 

Quinta das Carvalhas

O Quinta das Carvalhas Vinhas Velhas 2018 (46.00 €, 95 pts.), rubi escuro, tem um aroma muito bonito e complexo com amora, ameixa, limonete, baunilha e pimenta preta. Na boca é riquíssimo, bem estruturado, com bela acidez e com os taninos intensos e redondos. Precisa de garrafa, mas já dá imenso prazer na prova. 

Quinta das Carvalhas

Antes do momento alto (vinicamente falando) da visita, o Quinta das Carvalhas Touriga Nacional 2017 (35.00 €, 94 pts.) de porte rubi, brinda-nos com aromas a frutos silvestres, ameixa, sous-bois, alguns toques de mineralidade e uma madeira muito bem integrada. No palato tem um belo volume, equilíbrio, taninos redondos e uma acidez bastante viva, que o torna super elegante.  

Quinta das CarvalhasFinalizamos a prova com o Royal Oporto Colheita 1977 (180.00 €, 96 pts.). A cor diz logo ao que vem, âmbar com uma auréola esverdeada, passeando-se no nariz, pavoneante, com gengibre, laranja confitada, chá verde,  tabaco, pêssego em calda, amêndoa torrada e algum caramelo. Na boca é viciante, suculento, harmonioso, ponderado e elegante: uma verdadeira aristocracia vínica. 

Quinta das CarvalhasCuriosamente todos os cinco quartos vínicos desta Quinta das Carvalhas permaneceram ligados, de um modo ou de outro, à laranja, seja no seu aroma mais puro, na sua flor, na sua casca, na sua cor e até na sua flor. Que desejo terá pedido a Bia ao cheirar aquela? ;) Informo ainda que a pequena não me comunicou nenhum tipo de enxaqueca.  ;)

Os melhores de 2021 | Palavras ao vento num efeito dominó

"A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido e não na vitória propriamente dita." Mahatma Gandhi

Os melhores de 2021Como neste ano há 36 distinções para fazer (acho que é um recorde do blogue) e para não alongar demasiado o texto, tinha pensado que esta publicação iria debruçar-se apenas no anúncio dos melhores de 2021, no entanto, não resisto a, no inicio, vos contar uma pequena história que tem tudo a ver com estes 36 vencedores.

Os melhores de 2021

Na edição do ano passado adornei a publicação dos melhores de 2020 esmiuçando alguns livros de  Ken Follett (Os pilares da Terra; Kingsbridge: O Amanhecer de Uma Nova Era e Um Mundo Sem Fim). Curiosamente o ano de 2022 iniciou de modo parecido, com outro livro de Ken Follett, Nunca, um thriller que decorre em todo o mundo e no qual um pequeno incidente entre duas nações pode desencadear uma guerra nuclear (qualquer semelhança com o braço de ferro Ucrânia-Rússia, não é pura coincidência). 

Os melhores de 2021Tirando os assuntos enogastronómicos estes foram, sem dúvida, os melhores livros que li durante o último ano. Acrescento a esta lista outro que revisitei em Janeiro de 2022: a obra mais conhecida de Mika Zusak, a Rapariga que roubava livros.  Voltei a lê-lo depois de ter assistido ao filme e da narradora me ter despertado a atenção.  Quando o li pela primeira vez há mais de 10 anos sempre associei a narração a uma voz feminina,   mórbida mas ao mesmo tempo e inesperadamente calma, eloquente e simpática.

Os melhores de 2021No filme a voz é masculina e às características anteriores são ainda adicionadas o bom-humor, a ironia e uma certa integridade, que curiosamente, nos faz pensar na vida.  A narração vais-nos passeando pela história comovente de uma menina chamada Liesel Meminger e a sua paixão pelas palavras, tendo como palco a Alemanha nazi, em plena segunda guerra mundial. 

Os melhores de 2021A todos estes ingredientes acrescentem ainda um judeu escondido, uma família de acolhimento e uma madrasta estilo bruxa (ou terá antes um coração de ouro?), e voilà, chegam a um best-seller internacional!!! Quer o livro, quer o filme, dão-nos 3 lições valiosíssimas.  A primeira tem a ver com o poder das palavras.

Os melhores de 2021Shakespeare menciona muitas vezes que as palavras são as "armas" mais poderosas deste mundo e que nunca podem ser destruídas. A história desta menina alemã acrescenta a esse poder, ingenuidade, sentido e humanidade. Foram as palavras que a ajudaram a lidar com a dor, a partilhar os seus sentimentos e, finalmente, a dar conforto a um judeu sem abrigo. Foi o seu amor pelas palavras que, mais tarde, lhe permitiu contar a todo o mundo a história da sua vida. 

Os melhores de 2021A segunda tem a ver, não com as palavras, mas com o valor da nossa palavra. Uma promessa uma vez feita jamais deve ser quebrada. O livro apresenta-nos Hans Hubermann, pai adoptivo de Liesel, que para manter uma promessa do passado acolheu um judeu na sua cave, arriscando a sua própria vida. Não porque não tivesse outra escolha, bem mais fácil e menos perigosa, mas porque era um homem de palavra.

12 (3).jpgO último ensinamento relaciona as oportunidades que não devemos desperdiçar com um efeito dominó.  Uma das metáforas mais bonitas da obra (mais "detetável" no livro do que no filme) surge quando Rudy (o melhor amigo, quase namorado de Liesel, quase...) e as suas irmãs brincam a criarem filas de dominós para depois as derrubarem. Isso dá a entender que o modo como a história acaba tem muito a ver  como tudo começou, com a chegada de Liesel à Rua Himmel.

Os melhores de 2021 Liesel quase nos parece segredar que não só devemos encarar as nossas acções antevendo as possíveis reacções, mas também que a falta de uma determinada acção pode impossibilitar um reacção que tomávamos como certa (esta última parte fará mais sentido para quem tiver lido o livro ou visto o filme, para os outros não acrescento mais informação para não ser spoiller).   

Os melhores de 2021É importante que alinhemos as nossas peças de dominó de modo a que possamos aproveitar todas as oportunidades que a vida nos dá ... antes que seja tarde demais. Foi neste saber alinhar de peças, na luta, na tentativa e no sofrimento, num contexto desafiante como a pandemia, que todos estes 36 nomes que hoje anuncio se comprometeram com a alegria da vitória. E os vencedores são...

Os melhores de 2021Os grandiosos espelhos, os candeeiros exuberantes, as alcatifas com desenhos únicos, o ferro forjado, todos eles escolhidos em diversos antiquários, que no seu conjunto compõem o glamoroso ambiente dos anos 30, são óbvios pontos em comum entre o Maison Albar – Le Monumental Palace e o Expresso do Oriente.Os melhores de 2021Li as últimas páginas do "A adega de Estaline" aquando da visita ao The Vintage House Hotel. Aparentemente estes dois acontecimentos isolados nada têm a ver um com o outro, com este prémio perceberão que há algo que os une quase umbilicalmente ... ;)

Os melhores de 2021O Monte Santo Resort encontra-se situado na aldeia piscatória do Carvoeiro, perto do Algar-Seco (que foi o palco principal da lenda que vos contei), e a escassos minutos das maravilhosas praias do Algarve, das misteriosas grutas da costa algarvia e dos melhores campos de golfe da Europa.

Os melhores de 2021Caríssimos (e atentos) leitores, se bem se lembram as duas primeiras publicações relativas à #roadtrip2021 do blogue na Costa Vicentina  começaram com uma pergunta e com um juramento. Nas próximas semanas, a terceira (e derradeira) vai levar-nos de encontro melhor hotel rural do ano: o Hotel rural da Barrosinha

Os melhores de 2021Como diz Saramago, o tempo que envelhece, gasta, destrói e mata, é também o mesmo que vai purificar as águas, povoá-las pouco a pouco de criaturas, até que cinco anos passados o rio ressuscite da fossa comum dos rios mortos, para glória e triunfo da vida. Mas será que esse tempo "passado", num caso e noutro, é o mesmo? Para mim esse tempo quase que parou, por uns dias, às 18 horas, seis minutos e 44 segundos na Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo.

Os melhores de 2021Este hotel foi construído no local onde em 1930 existia o mais famoso café da cidade, o Café Monumental, oferecendo desde a sua inauguração (finais de 2018) um local tranquilo, criado com bom gosto e que nos brinda com uma intimidade aristocrata e nos convida a passear pela sua biblioteca, a tomar um chá à beira da sua reconfortante lareira, a jantar no seu soberbo restaurante, a acordar com um brunch principesco e a embarcar numa viagem revitalizante no conceituado e retemperador (quase terapêutico) Spa Nuxe ... o melhor do ano!!! 

Os melhores de 2021A água mostra-nos que é importante criarmos momentos para celebrarmos esse amor, de modo a que este se torne à prova de reis mouros, adagas, guerras entre famílias rivais italianas ou punhais. E para isso, nada melhor que uns dias passados no Resort do Ano e que foi também considerado pelos World Travel Awards (e pelo sexto ano consecutivo!!!) o "Resort mais romântico da Europa": o Monte Santo Resort.

Os melhores de 2021O sal português foi sempre considerado como o de melhor qualidade, tanto em Portugal como no estrangeiro, e assim, era um artigo privilegiado, dispensado de qualquer imposto ou portagem. Apesar de todo este contexto bastante próspero e feliz, a referência mais conhecida a esse sal surge no “Mar Português”, na Mensagem de Fernando Pessoa, o sal que se mistura com as lágrimas de Portugal, aquele que rebenta nas ondas perigosas do mar alto. A terceira publicação relativa à #roadtrip2021 do blogue vai levar-nos a descobrir um sal mais alegre no  NAU Salema Beach Village

Nova Imagem (1).jpgNa minha opinião, o pequeno almoço ajuda a definir muito a qualidade de um determinado hotel. Como é óbvio, o do Le Monumental Palace sofreu alterações nesta altura de pandemia, em que quem sai beneficiado é o cliente, servido à la carte é possível deliciarmo-nos com deliciosas propostas como a tosta de abacate, torradas francesas, mousse de iogurte, mel e noz e, como não poderia faltar, ovos Benedict e ovos mexidos com bacon grelhado acompanhados por um belo espumante português ;)

Os melhores de 2021Este vinho seduziu-me logo na sua cor acastanhada (quase metálica) cristalina com uma auréola esverdeada. Entra no nariz cheio de si, exótico, intenso e complexo, pavoneando-se com notas balsâmicas a cedro, casca de laranja cristalizada, canela, gengibre, noz e avelã. No palato é muito intenso, exuberante e denso. A sua acidez é assombrosa!!!

Os melhores de 2021Já tive o privilégio de o provar duas vezes e a conclusão é a mesma: um monstro vínico!!! . Traja um vermelho-sangue muito denso e o que me chamou inicialmente à atenção no nariz foi algo que também encontrei noutros Barca-Velha mais novos: os aromas deliciosamente sedutores a cedro, caruma, resina e charuto. A fruta parece-me mais presente que em edições anteriores com ameixa vermelha e cereja bem maduras. A mineralidade rochosa (xisto/argila), pimenta preta, baunilha, ligeiro picante vegetal (gengibre) e madeira muito bem integrada completam a experiência olfactiva deste vinho. No palato confirma as inebriantes notas do nariz e exibe taninos aguerridos e sólidos, harmonia e uma acidez "alegre" e cheia de vigor, quase electrizante. É complexo, elegante, equilibrado e ... interminável. 

Os melhores de 2021acácia-lima, baunilha, pimenta branca, pedregosidade, frescura, precisão, finesse e profundidade do Mirabilis Branco 2019 garantiram-lhe o reconhecimento como branco do ano.  

Os melhores de 2021De cor salmão profunda, tem um nariz muito complexo com morangos, frutos silvestres, violetas, jasmim e uma leve baunilha que lhe fica muito bem (só é pena que os morangos tenham um pouco de destaque a mais, caso contrário a nota seria outra). Na boca é um vinho seco, levemente mineral (granito molhado) e a acidez é muito vincada e alegre. É um vinho que pede, incessantemente, por comida. ;)

Os melhores de 2021Falar de vinho e criar/reforçar laços com as pessoas que celebram o enorme legado desta bebida histórica, nascido da inspiração da natureza e do engenho do Homem, parecem ser os motes que fazem com que um grupo de pessoas tenha a necessidade (quase umbilical) de se reunir, frequentemente, para beber juntos. Existem muitos eventos que promovem esta bonita comunhão, mas há um em especial, com alma própria, e que por isso já ganhou o prémio de "Evento revelação", "Melhor evento" e "Evento com a melhor prova", aqui no blogue: o Enóphilo Wine Fest Porto. Foi lá que me deparei com a cor amarela-palha com auréola esverdeada do Raríssimo 2006. Um vinho cheio de noz, amêndoa, cereal tostado, brioche e anis. O palato garantiu-lhe a distinção: complexo, cremoso e fresco. 

Os melhores de 2021Rubi-grená, carrega fruta muito pura (frutos silvestres) e tem um lado floral muito vincado (violetas, esteva e flor de limoeiro). Na boca é quente, fresco e carnudo. O vinho com melhor relação preço-qualidade (RPQ) deste ano portou-se muito bem com uma Perna de coelho com o seu fígadocogumelos, batata assada e salteado de legumes.

Os melhores de 2021Não tenho problema algum em dizer que foi o vinho que neste ano mais me surpreendeu no espaço #cáporcasa.A bela cor rubi-grená faz-nos levar, quase que imediatamente, o copo ao nariz. Cheiramos e ... nada. Com o tempo o vinho vai-se apresentando com notas balsâmicas (cedro, resina e pinheiro), sous-bois, ameixa preta, amora preta,  baunilha, pimenta, alguma pedregosidade e uns ligeiros fumados. Na boca é muito fresco, com taninos austeros mas a arredondar, volumoso e complexo.  A sua frescura faz com que não nos cansemos dele e garante-lhe um futuro auspicioso. 

Os melhores de 2021Este é um vinho rubi opaco e com notas ainda muito discretas, quase escondidas, a ameixa preta seca, compota de frutos silvestres, esteva, noz-moscada, pimenta preta e gengibre. No palato exibe uma dicotomia muito engraçada entre poder/taninos raçudos/estrutura e elegância/finesse/equilíbrio. É muito complexo, penetrante, equilibrado, harmonioso, mas ainda muito tímido.

Os melhores de 2021A época festiva do Natal é uma autêntica explosão nos nossos sentidos. Uma batalha épica entre o "não, eu não deveria comer tanto" e o "que se lixe, é apenas mais um e estamos no Natal!!!". Para mim o Natal também tem muito a ver com vinho (quer na escolha para a ceia, quer nos presentes que se possam receber :-P), e por esse motivo entro verdadeiramente no espírito Natalício aquando do anúncio do Christmas Wine Experience do The Yeatman Hotel. Foi lá que conversei com a noz, a ameixa seca, o cedro, a complexidade, a elegância, a pujança e a acidez "vinagrinho" do Porto Messias 1952 Limited Edition. Tem um enorme final que dura quase para sempre. 

Os melhores de 2021O trabalho incrível que tem feito com os tintos, a democratização da excelência dos Porto da Noval para que cheguem a um número maior de narizes, a aventura por novas quintas e a excelência consolidada dos Porto Vintage garantiram a Carlos Agrellos a distinção como melhor enólogo. 

Os melhores de 2021

Na sequência do prémio anterior chega-nos o produtor do ano. A última visita que fiz à Quinta do Noval fez com que a minha curiosidade sobre o que verdadeiramente faz a grandeza dos vinhos da Noval se transformasse na compreensão de que essa excelência advém não só da complexidade e profundidade dos seus vinhos mas também da verdade lapalissada de que para que as vinhas possam fazer grandes vinhos, necessitam de quem perceba a sua história e a carregue até ao próximo vinho, até à próxima quinta, até ao próximo proprietário. Ali memória e identidade rimam com história e responsabilidade. Para mim é este o segredo na Noval.

Os melhores de 2021Num dos mais conhecidos livros sobre o Natal, o “Um Conto de Natal” do britânico Charles Dickens, o protagonista Scrooge é visitado pelo fantasma de Jacob (um antigo sócio, morto há sete anos) que o repreende e lhe anuncia que Scrooge será visitado por três espectros do seu próprio passado, presente e futuro, que lhe vão mostrar o verdadeiro significado do Natal, tentado que este volte a "ouvir os guizos". Por vezes, um copo de vinho (de um bom vinho) e uma companhia (uma boa companhia), fazem-nos viajar por esses espectros... Foi isso que aconteceu no Christmas Wine Experience 2021. Um evento que nos faz recordar, agora de copo na mão, a criança, de há muito tempo e muito longe, que um dia, agarrado ao coração, aguardava atrás da porta, para que algo maravilhoso acontecesse.

Os melhores de 2021Os poetas sempre foram um pouco "chalupas", alguns chegam mesmo a reconhecê-lo, como William Shakespeare por volta de  de 1590:  "O lunático, o amante e o poeta são constituídos apenas por imaginação", escreveu. Algumas décadas antes destas palavras terem sido pensadas por Shakespeare, já se materializaram na vida de um jovem chamado Luís Vaz de Camões, hoje venerado como um dos maiores poetas do nosso país. Poetas esses que me ajudaram a explicar a singularidade  da Casa de Chá da Boa Nova.

Os melhores de 2021

Estamos a 12 de Outubro 1492, e o que está prestes a acontecer vai alterar para sempre os nossos jantares. O modo como os preparamos, os ingredientes que seleccionamos e a diversidade de sabores que neles encontramos. Nada será como dantes. Mas o que raio estará prestes a acontecer? A resposta a esta pergunta foi dada no restaurante  Casa Velha. O menu de degustação (que entretanto, e como tem de ser, foi mudado para a nova estação) conta com identidade, pertença e originalidade, mas sobretudo conta ... uma história de uma região através dos aromas, das cores, das texturas e dos sabores.

Os melhores de 2021De acordo com a foodtimeline.org e a Le grand Larousse gastronomique, a relação entre Diana e a gastronomia foi eternizada na confecção de carne com molhos, especialmente no Molho Diana. Segundo a Larousse Gastronomique, esse molho Diana era tradicionalmente feito com trufas e servido com carne de veado (Diana era também a deusa da caça), nos dias de hoje é normalmente feito com vegetais, manteiga, brandy, molho inglês, mostarda, natas e o suco da carne. Também podemos encontrar esta relação entre Diana e boa gastronomia em Portugal, mais concretamente na cidade dos arcebispos, no Diana Restaurant.

Os melhores de 2020O Chefe Julien Montbabut afinou detalhes num menu já de si marcante (que nos conta as suas histórias, aventuras e descobertas pelo nosso país através de um menu de 14 momentos), juntando aos clássicos (é impossível não nos encantarmos, como se fosse a primeira vez, para mim já foi a terceira :P, com a genialidade, frescura, aristocracia e textura da Sapateira) novas propostas que tornam esta viagem gastronómica pelo nosso país ainda mais memorável.

Os melhores de 2021Sou daqueles que acha que o nosso cânone gastronómico tradicional, aquele que abarca quase todas as comidas de conforto, deixa bastante espaço para uma interpretação original na sua confecção/apresentação. Nesse aspecto, há um Chefe português que claramente se destaca: o Renato Cunha do Restaurante Ferrugem.

Os melhores de 2021Para mim o prémio gastronómico com maior. significado. O André renovou a sala onde funciona o Auge (tornando-a numa das mais elegantes, harmoniosas e com mais bom gosto do país), desprendeu-se de algumas correntes do passado, cresceu muito e criou um menu de liberdade e … verdade. Nela, não vai de modas, piruetas ou fogos de artifícios, entregando um produto de qualidade, sustentável e com um certo orgulho bairrista. Foi a melhor experiência gastronómica que tive este ano (bastante próxima da que tive uns dias antes no Belcanto). 

FotoJet - 2022-02-05T142226.568.jpgEste prémio, deve-se, em boa parte, à materialização do talento num pratoRobalo de mar com puré de cenoura assada raiz de lótus, legumes salteados, caviar de arenque, telha de pele de robalo e espuma de espumante. O prato estava muito bem concebido a nível estético mas, no entanto, o sabor supera o efeito visual, com uma autêntica erupção de texturas, influências e sabores, com o poder de nos transportar umas centenas de metros, em direcção ao mar, que naquela noite se encontrava bravo. O robalo estava cozinhado no ponto e os acompanhamentos serviam "apenas" para engrandecer a sua nobreza gastronómica.  

Os melhores de 2020O peixe estava cozinhado no ponto e com um inebriante fumado, os acompanhamentos pensados ao pormenor, a apresentação desafiante e imaginativa, sempre com uma boa dose de surpresa nos sabores. Ali vivem as mais puras recordações do mar português e das suas gentes. Fez-me fechar os olhos e abrir novos horizontes. É uma criação deliciosa!!!

Os melhores de 2021Qualquer pessoa que seja Chefe, que ama a comida, sabe que lá no fundo, tudo o que importa é aquilo que é genuinamente bom e nos dá prazer. Na grande maioria das vezes, boa comida é isto mesmo, comida simples mas tratada pelas mãos predestinadas de quem sempre a soube respeitar. 

Os melhores de 2021

“Doce Teixeira, mel e pólen”, um prato em cujo elevar da tradição só está ao alcance de alguns predestinados. Por incrível que pareça foi este último momento que acabou por dar coerência, sentido e harmonia ao menu, ao mesmo tempo que invocava o legado, a história e a carreira brilhante do Chefe André Silva. É também uma bonita maneira de homenagear as origens da Sous-chef Jéssica, verdadeira comparsa desta nobre jornada em busca pela verdade perdida. 

Os melhores de 2021Depois de 30 anos emigrado em Londres onde os seus restaurantes gozavam de grande fama e estavam sempre repletos de celebridades e comensais exigentes (imaginem só que deixou mais que uma vez "pendurado" o grande empresário Jorge Mendes por ter a casa completamente cheia), o Chefe Fernando Caridade decidiu mudar-se para Braga onde é Chefe da cozinha do Diana Restaurant. Criou recentemente (em pareceria com o Chefe Victor Felisberto) o Fondant Abade Priscos, uma delicia!!!

Os melhores de 2021O Canto XXI Azeite (de velhas oliveiras) é uma desconstrução com sabores da quinta e composta por maçã verde, queijo de cabra e azeite. É um prato que provoca no palato uma explosão de sabores, texturas imensas e uma acidez estonteante. É complexo, equilibrado, longo e persistente. Parece que estou a falar de um vinho. ;) Curiosamente e por falar em vinho, foi harmonizado com o Favaios 1980 Edição Especial Siza Vieira (que também foi o arquitecto da Casa de Chá da Boa Nova) que emprestou ao Canto XXI frescura, cacau, avelã e que se uniu de forma muito bonita à fruta cristalizada.

Os melhores de 2021Foi das maiores surpresas que tive este ano. Tinha tudo, complexidade, doçura, acidez, fumados, adstringência e uma alma enorme trazida pelo molho de milho e pimento assado avinagrado. Poderá um vegetariano ser "carnudo"? Pelos vistos sim!!! ;) Muito bem. Parabéns pela originalidade e dedicação na confecção, no empratamento, na loiça e nos talheres.

Os melhores de 2021Aconselho a começarem pelas deliciosas panquecas com leve sabor a baunilha, e um pouco mais altas que o costume, que as tornam bastante mais fofas e prazerosas. Da última vez que as experimentamos o difícil foi "fazer" com que a Bia as parasse de comer. ;) Mais tarde estejam atentos ao modo como todas as criações do Chefe Juien Montbabut (estrela Michelin em Paris) sublimam o essencial do brunch, deixando fluir a sua inspiração com novos e inusitados sabores.

Os melhores de 2021A distinção não se deve apenas ao serviço de excelência que promove na Casa de Chá da Boa Nova mas também ao dinamismo, primor e empenho que transporta para a relação com o cliente. 

Obrigado a todos vós pelas emoções que nos proporcionaram durante o ano difícil que findou. Infelizmente e devido ao contexto pandémico não podemos corresponder a todas as solicitações que tivemos. Neste novo ano, daremos prioridade aqueles com quem "falhamos" em 2021. Estamos ávidos de voltar a colocar convosco algumas peças de dominó... ;)