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No meu Palato

No meu Palato

Essência, Dalva e Kopke | A lágrima de um dogma

"Encontrei uma preta que estava a chorar, pedi-lhe uma lágrima para a analisar... Mandei vir os ácidos, as bases e os sais, as drogas usadas em casos que tais. Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume: Nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo) e cloreto de sódio." António Gedeão
Essência, Dalva e KopkeImaginem-se num almoço de amigos num daqueles dias de calor no auge do Verão. Para ajudar a combater as elevadas temperaturas, um dos vossos amigos pede um pouco de fruta e vocês oferecem-lhe uma fatia de melão: fresca, doce e suculenta. No entanto, o vosso amigo, com toda a cordialidade, informa-vos que não come fruta branca e que prefere comer cerejas ou mirtilos. Por mais bizarra que essa situação vos possa parecer, isso acontece no mundo do vinho ... a toda a hora.

Essência, Dalva e KopkeSeja em casamentos, reuniões de amigos ou outro tipo de eventos familiares, há sempre alguém que não bebe vinho branco. A razão evocada para este tipo de preconceito vínico? "Quem percebe de vinho sabe perfeitamente que o tinto é bem melhor que o branco, é por isso que são sempre mais caros e melhor pontuados". Escrevo-vos esta crónica, após um desses eventos em que bebi "apenas" branco. Porquê? Porque era francamente melhor que os tintos disponíveis. Não só era melhor como também harmonizava super bem com a comida (marisco, polvo e bacalhau). 

Essência, Dalva e KopkeTalvez esta situação seja semelhante ao modo como algumas pessoas veem a política. Há um partido político do vinho branco e um partido político do vinho tinto, com muita "cartilha" e preconceitos, e pouca informação e diálogo. Isso também acontece com os 100% conservadores e com os 100% liberais, pois muitas pessoas votam sempre na mesma linha ideológica (por vezes dogmática) que sempre seguiram, não se informando sobre o que o partido rival vai propondo.  Encurraladas no seu raciocínio por estarem sempre num desses lados apenas "porque sim", estas pessoas, "políticas" ou "vínicas", perdem muito em não abrirem os seus horizontes. 

Essência, Dalva e KopkeComo não é verdade que a direita tenha, sempre, melhores propostas para o país, também não é verdade que o tinto seja, sempre, melhor que o branco. Apostaria que alguns de vós estão a pensar que eu também estou a ser um pouco preconceituoso ao afirmar taxativamente que o vinho branco da comunhão do meu afilhado, era bem melhor que os tintos, pois isso depende do gosto pessoal. Vou-vos falar de uma prova que tive há uns tempos para refutar essa infundada acusação de putativo preconceito. :P

Essência, Dalva e KopkeNessa prova, os participantes foram inicialmente vendados, sendo-lhes então pedido  que identificassem dois frutos que lhes foram apresentados à mesma temperatura, com o mesmo tamanho e com a mesma forma: pêssego e cereja. Apenas uma pessoa, entre 20, conseguiu identificar a cereja e 9 o pêssego. Metade destas pessoas eram "provadores profissionais". O momento mais revelador surgiu depois, quando nos foi colocado na mesa, um copo preto e opaco, com vinho dentro. Seria um tinto do Douro, um tinto da Bairrada, houveram algumas certezas quanto a ser um tinto do Alentejo, tendo sido até referido um produtor em particular. Mas afinal, o que estava no copo? 

Essência, Dalva e KopkeUm Riesling da Alemanha, com 8 anos e servido a 15ºC. Apenas 2 acertaram na casta, os mesmos que garantiram que se tratava de um branco servido acima da temperatura.  As diferenças entre os sabores do vinho branco e do vinho tinto definitivamente existem, mas estudos científicos recentes mostram que essas diferenças de sabor representam meramente 25% do sabor total. Tudo o resto é dogma... Escrever sobre este assunto fez-me relembrar as minhas primeiras experiências de degustação de vinho, cerveja e café que conduziram ao modo como relaciono com estas bebidas hoje em dia. A primeira vez que bebi cerveja, parecia exageradamente amarga.

Essência, Dalva e Kopke O sabor do vinho na minha adolescência parecia um sumo estragado e adstringente. O café? Algo extremamente amargo e só bebível na companhia de açúcar ou leite.  Talvez vocês tenham iniciado este percurso com algo mais fácil, como um panaché ou uma sangria. De qualquer forma, há uma fase em que começamos a treinar o nosso palato para apreciar alimentos com sabores mais vincados (ou apenas diferentes) do que aqueles que estamos acostumados, principalmente em termos de adstringência e amargura. É nesse momento que criamos uma nova zona de conforto, que ao contrário da anterior, é bastante menos dogmática. Sou defensor da ideia, que para além de vinhos bons e vinhos menos bons, há os vinhos que nos dão maior ou menor prazer, sendo esta ultima categorização a mais importante. Ainda assim, devemos abrir a mente e não criticar sem experimentar (pelo menos algumas vezes). 

Essência, Dalva e KopkeÉ certo que ninguém gosta de ser acusado de preconceito, no entanto, com que frequência todos nós relegamos o vinho branco para o status de mero "aquecimento" para a estrela da refeição, normalmente um tinto? É claro que até podemos perceber a valorização recente dos vinhos brancos; podemos até beber mais brancos e brancos mais caros. No entanto, quando os nossos pensamentos se focam no acto de comprar ou abrir uma garrafa verdadeiramente especial, quando queremos impressionar um amigo enófilo, ou quando queremos celebrar uma data importante com a nossa cara-metade, muitas vezes, quase sempre, é um tinto o eleito.

Essência, Dalva e KopkeNão são apenas os consumidores os responsáveis por tal preconceito com os brancos. Tirando as honrosas excepções de produtores situados em regiões predestinadas para brancos (Chablis, Mosel e Verdes), os vinhos topo de gama, são invariavelmente tintos. Os críticos, sem dúvida, também desempenham um papel, embora subconsciente, na valorização preconceituosa dos tintos. Comparem o número de 100 pontos tintos com o numero de 100 pontos brancos (retirando da equação a região de Champanhe). Vão chegar à conclusão que os 100 pontos brancos correspondem a apenas 10% do total. Os vinhos brancos são assim tão inerentemente inferiores aos tintos?

Essência, Dalva e KopkeEste tipo de preconceito, mais ou menos consciente, também ocorre com o vinho do Porto. Foi contra este "xenofovinismo" que, quando surgiu o programa da Essência do Vinho do Porto 2022, e dada a falta de disponibilidade temporal devido a outros compromissos, escolhi duas provas em que o Porto Branco era uma das estrelas da noite e não apenas um mestre de cerimónias, antecessor dos tintos:  Dalva: Vinhos do Porto Brancos e A idade é uma virtude: Kopke Idades, dos 20 aos 50.

Essência, Dalva e KopkeFoi o enólogo da Dalva, José Manuel Sousa Soares, que conduziu a primeira dessas provas, no primeiro dia de Essência, e que nos mostrou que são inúmeras e sempre encantadoras as formas de expressão dos vinhos do Porto brancos. O perfil oxidativo e as nuances de melaço, o fumo e o mel, o bailado entre doçura e acidez, tudo surge conjugado. A Dalva é detentora de uma das mais invejáveis colecções desta categoria.  

Essência, Dalva e KopkeNos brancos com indicação de idade,  o dourado Dalva Dry White 10 anos (18.00 €, 84 pts.) trouxe-nos  casca de laranja, menta, nozes e uma bela frescura; o âmbar Dalva Dry White 20 anos (48.00 €, 89 pts.) presenteou-nos com notas meladas, amêndoa torradas, doce de laranja, cedro, limonete e elegância; e o Dalva Dry White 40 anos (149.00 €, 94 pts.), com um âmbar um pouco mais escuro mas cristalino, brindou-nos com tangerina confitada, amêndoa, resina, pinheiro, intensidade, concentração e densidade.

Essência, Dalva e KopkeNos colheitas mais recentes destaco o limonete, caramelo e surpreendente complexidade (dada a idade) do Dalva Colheita White 2007 (27.00 €, 89 pts.) e da baunilha, melaço, alperce e frescura aguerrida do Dalva Colheita White 2011 (37.00 €, 89pts.). Nos Golden White, começo pelo Dalva Golden White Colheita 1989 (149.90 €, 95pts.), dourado cobre no traje, e com deliciosos aromas a nozes, figos, canela e melaço. Na boca é  longo, complexo e fresco. 

Essência, Dalva e KopkePor sua vez, o âmbar-acobreado escuro Dalva Golden White Colheita 1963 (249.00 €, 96pts.) exibia pavoneantemente arandos desidratados, casca de tangerina, baunilha, café, caramelo e tabaco, surgindo camada após camada. No palato é super longo, delicado, fresco e concentrado. Apesar destas duas bombas vínicas, o meu preferido desta prova foi outro.

Essência, Dalva e KopkeO laranja-cobre Dalva Colheita Dry White 1968 (349.00 €, 98pts.). É um vinho enorme, cheio de tudo, de toffe, de toranja, de resina, de iodo, de cacau e de caril. No boca é cheio de si e tem uma acidez extraordinária. É complexo, intenso, concentrado e rico. Se fosse preconceituoso diria que tinha uvas tintas na sua origem... :P 

Essência, Dalva e KopkeSaltando do primeiro para o último dia do evento, Carlos Alves (enólogo da Sogevinus) trouxe para o Palácio da Bolsa do Porto alguns dos maiores tesouros da Kopke, a mais antiga casa de Vinho do Porto. Em patamares crescentes de densidade e complexidade, foram sendo apresentados, provados e comparados, brancos e tintos com a mesma indicação de idade, incluindo os estreantes 50 Anos. O Carlos revelou-nos que, ainda antes de haver a demarcação da região do Douro, já existia a Kopke. Fundada em 1638, esta casa tem construído uma reputação imaculada, assente em princípios de elevada qualidade. 

Essência, Dalva e KopkeLíder na produção de vinhos do Porto Tawny Colheita, incluindo brancos, a Kopke possui um portefólio invejável de Portos de categorias especiais. Foi esse portefólio que lhe permitiu a concepção de uma prova ímpar (se bem que os vinhos estavam aos pares ;)), grandiosa e didáctica como a que foi apresentada. Prova essa que fez cair vários dogmas...

Essência, Dalva e KopkeOs 20 anos eram o par com as diferenças mais evidentes, com o dourado-alaranjado Kopke 20 anos Tawny (50.00 €, 92pts.) a evidenciar nozes, caramelo, figos secos, canela, elegância, intensidade e equilíbrio; e o âmbar-dourado Kopke 20 anos White (90.00 €, 94pts.) a transbordar nozes, amêndoa, figos secos, casca de laranja, canela e uma acidez suculenta. 

Essência, Dalva e KopkeViajando uma década, o âmbar-esverdeado Kopke 30 anos Tawny (100.00 €, 95 pts.) exibia damasco, baunilha, melaço, canela, untuosidade e finesse; contrastando com o crème brûlée, avelã, casca de laranja cristalizada, noz-moscada, figos secos, bela acidez e equilíbrio do amarelo-palha Kopke 30 anos White (150.00 €, 95 pts.). 

Essência, Dalva e KopkeNa ternura dos quarenta, o âmbar-esverdeado Kopke 40 anos Tawny (180.00 €, 96 pts.) passeava nozes, caramelo, figos secos, arandos secos, maçapão, caixa de tabaco, intensidade e um final longo e especiado; e o Kopke 40 anos Branco (230.00 €, 96 pts.) exibindo figos secos, damascos, casca de laranja, amêndoa e acidez viciante (gostei muito do acrescento de secura quando comparado com o tinto).

Essência, Dalva e KopkePor último, surgiram em primeira mão os cinquentões... O castanho avermelhado Kopke 50 anos Tawny (224.00 €, 97 pts.) cheio de figos secos, cravo da Índia, caixa de tabaco, nozes e uma ameixa seca (deliciosa!!!). No palato é enorme, especiado, untuoso, complexo, rico e muito fresco.

Essência, Dalva e KopkeO dourado-esverdeado Kopke 50 anos Branco (300.00 €, 98) encerrou a prova com pompa, circunstância, damasco, avelã, baunilha, limonete e uma salinidade super sedutora. Na boca é muito elegante, ponderado, fino e equilibrado.  A menor doçura e a acidez mais vincada deram-lhe um ponto extra ;)

Essência, Dalva e KopkeTirando a acácia lima e notas limonadas, transversais a quase todos os brancos da Kopke, pouca diferença encontramos ao nível da intensidade, elegância e complexidade entre brancos e tintos (na maior parte dos casos a nota até foi a mesma para a mesma indicação de idade). Essa pouca diferença organoléptica fica cada vez mais ténue com o aumentar da idade do vinho. 

Essência, Dalva e KopkeEm todos, deste os brancos da Dalva até aos tintos e brancos da Kopke, encontrei qualidade, finesse e identidade. Ambas as provas foram uma excelente demonstração prática da evidência (quase cientifica) de que quando partimos para uma experiência sem preconceitos, alargamos os nossos horizontes de conhecimento e acabamos por ter belas surpresas no palato.

Essência, Dalva e KopkeSe realizássemos o teste da lágrima de Gedeão, nas lágrimas de tintos e de brancos (já agora ... muito parecidas no copo), não encontraríamos nem sinais de dogmas, indícios de preconceitos ou vestígios de ódio. Água (quase tudo),  também álcool, ésteres, aldeídos, cetonas, compostos fenólicos e ... cloreto de sódio. Jamais me esquecerei do requinte do Dalva Colheita Dry White 1968 e da acidez aristocrata do Kopke 50 anos Branco.

Essência, Dalva e KopkeQuanto ao Essência do Vinho do Porto 2022, os sorrisos que encontrei entre produtores e consumidores no primeiro dia do evento, num espaço lotado a uma quinta-feira,  acredito que se assumiram como a maior recompensa para quem teve o privilégio de presenciar esse ambiente reconfortante. As pessoas estavam com saudades do Essência e isso transpareceu...  Esses sorrisos regressarão a 23 Fevereiro de 2023, na nova edição que se prolongará até ao dia 26, e que afirmará a cidade do Porto como o ponto de encontro do mundo do vinho e do enoturismo mundiais. No próximo ano, o evento culminará a primeira edição de uma feira internacional de enoturismo, que trará a Portugal representantes dos principais destinos de enoturismo do mundo e de uma comitiva internacional de compradores.

Até lá, nada de dogmas, preconceitos ou snobismos, o vosso palato, agradecer-vos-à  ;)