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No meu Palato

No meu Palato

Diana Restaurant | O temp(l)o entre vários deuses e uma menina

"Quando fala o amor, a voz de todos os deuses deixa o céu embriagado de harmonia." William Shakespeare.Diana RestaurantO Templo de Artemis, também conhecido por Templo de Diana, em Éfeso (actual Esmirra na Turquia) foi uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Ocupava o espaço deixado em vago após a destruição de um templo menor devido a uma inundação no séc. VII a.C. Este novo templo foi construído totalmente em mármore (uma novidade/excentricidade naquela altura) por Creso, rei da Lídia, por volta de 550 a.C., ficando famoso não só pelo seu enorme tamanho (cerca de 110 metros de comprimento e 55 metros de largura), mas também pelas magníficas obras de arte que o adornavam minuciosamente. 

Diana RestaurantEra usado tanto para adoração religiosa quanto para o comercio, sendo citado em quase todos os textos gregos antigos como um edifício único, magnífico e glorioso. Mais tarde, o Templo, foi destruído no ano 356 a.C. após uma tragédia histórica, que desde então se tornou parte da memória colectiva dos países ocidentais. Um homem louco que vivia em Éfeso, chamado Herostratus, ateou fogo ao Templo para ganhar notoriedade e cunhar o seu nome na História.

Diana RestaurantO Templo ficou completamente destruído com as chamas. Após o incidente, os cidadãos de Éfeso sentenciaram Herostratus à morte e proibiram qualquer pessoa de pronunciar seu nome. No entanto, apesar dessa proibição, os historiadores da época registaram o seu nome, que com o tempo se tornou parte da cultura europeia. Como continuação do seu legado, Herostratus vive na literatura europeia como alguém que comete um crime pela fama. Curiosamente, hoje em dia, o nome do destruidor do Templo é mais conhecido do que o seu construtor Creso, rei da Lídia.

Diana RestaurantMuito historiadores defendem que o dia da destruição do Templo coincidiu com o do nascimento de Alexandre, o Grande. Por esse motivo, Alexandre ofereceu-se para reconstruir o Templo, mas os cidadãos de Éfeso recusaram a sua oferta e mais tarde começaram a reconstruí-lo eles próprios a 323 a.C.. Este último Templo tinha 137 metros de comprimento, 69 metros de largura e 127 colunas com 18 metros de altura e que sustentavam o telhado.

Diana RestaurantFoi decorado com estátuas de bronze e mármore esculpidas pelos escultores mais famosos da época; também hospedou muitos objectos valiosos e obras artes, tornando-se um dos centros de atracção mais importantes da altura, onde os mercadores mais ricos e os reis mais importantes gostavam de dar as suas festas mais exclusivas. Antípatro de Sídon, um poeta grego antigo que viveu no século II a.C. foi um dos primeiros a fazer uma lista com as maravilhas do mundo. 

Diana RestaurantQuando se deslocou a Éfeso, ficou tão impressionado com o que viu que escreveu o seguinte sobre o Templo de Diana: "Eu coloquei os olhos na parede da elevada Babilónia, na qual há uma estrada para carruagens, e a estátua de Zeus perto de Alfeu, e os jardins suspensos, e o Colosso do Sol, e o enorme trabalho das altas pirâmides, e o mausoléu de Halicarnasso; mas quando eu vi a casa de Artemis que subia às nuvens, todas aquelas outras maravilhas perderam seu brilho, e eu disse: Olha, além do Olimpo, o Sol nunca olhou para algo tão grandioso".

Diana RestaurantInfelizmente esta maravilha voltou a ser destruída, desta vez por invasores godos em 262 d.C. e nunca mais foi reconstruido. Nos dias de hoje, pouco resta do Templo original, embora existam muitos fragmentos, especialmente de colunas esculpidas, "recolhidas" no Museu "Britânico". 

Diana RestaurantA deusa de Artemis, Diana, que deu nome ao Templo, tem certas características distintas da deusa de Artemis da mitologia grega antiga. Na Grécia, Artemis, era reverenciada como a deusa da lua, dos animais, da natureza e da caça. Era também considerada a divindade protectora dos caçadores. Já em Roma reconheciam Diana principalmente como a deusa da fertilidade e da maternidade, acredita-se que é por isso que algumas mulheres a continuam a invocar no parto.

Diana RestaurantÁrtemis/Diana de Éfeso era também a deusa da fertilidade e alguns historiadores apontam que ela tem grandes semelhanças com a deusa-mãe da Anatólia, Cibele. A estátua de Artemis encontrada na antiga cidade de Éfeso, construída em ouro, ébano, prata e pedra preta, representa a deusa com uma figura com muitos seios sobre uma coluna e com as pernas/quadris cobertas por um tecido decorado com animais. É por causa destes detalhes que os locais a associam com a alimentação e a gastronomia.  

Diana RestaurantDe acordo com a foodtimeline.org e a Le grand Larousse gastronomique, esta relação entre Diana e a gastronomia foi eternizada na confecção de carne com molhos, especialmente no Molho Diana. Segundo a Larousse Gastronomique, esse molho Diana era tradicionalmente feito com trufas e servido com carne de veado (Diana era também a deusa da caça), nos dias de hoje é normalmente feito com vegetais, manteiga,  brandy, molho inglês, mostarda, natas e o suco da carne. 

Diana RestaurantTambém podemos encontrar esta relação entre Diana e boa gastronomia em Portugal, mais concretamente na cidade dos arcebispos, no Diana Restaurant. Descobri-o numa conversa com o Chefe Victor Felisberto, em que me "queixava" de já não ser fácil descobrir restaurantes que valham a pena sem que as "luzes da fama" já recaiam sobre eles, pois uma das coisas que mais gosto na "vida de blogger" é a de descobrir sítios especiais em locais inesperados.

Diana RestaurantNão há grande novidade em vos dizer que se come bem num estrela Michelin, não é verdade? O não óbvio e consensual é o que me atrai mais, e por isso o Chefe Victor Felisberto aconselhou-me a passar num restaurante de um velho amigo seu, o Chefe Fernando Caridade, por possuir todas estas características.

Diana RestaurantDepois de 30 anos emigrado em Londres onde os seus restaurantes gozavam de grande fama e estavam sempre repletos de celebridades e comensais exigentes (imaginem só que deixou mais que uma vez "pendurado" o grande empresário Jorge Mendes por ter a casa completamente cheia), o Chefe Fernando Caridade decidiu mudar-se para Braga onde é Chefe da cozinha do Diana Restaurant. Essa decisão de trocar Londres por Braga teve muito a ver com a procura de uma vida menos atribulada, por amor, após o nascimento da sua filha.

Diana Restaurant

No Diana procura aliar a qualidade à diversidade e o tradicional à inovação, numa sala super acolhedora, com uns quadros endeusados super originais que funcionam como candeeiros,  que pincelam o ambiente com um certo misticismo e que nos transportam, ainda que mentalmente, para o interior da capela Sistina em Roma. Tudo isto é completado com um serviço próximo, empenhado e personalizado.

Diana RestaurantO que nos chega à mesa está cheio de tradição, sabor, alegria, originalidade e muita harmonia. Nas entradas a "Alheira à Brás" traz conforto, intensidade, sabor e uma apresentação com criatividade;  as "Costelinha de porco com molho barbecue" brindam-nos com um bonito contraste entre doçura e acidez alicerçado numa carne untuosa e delicada; a "Bruschetta al pomodoro Basílico e camarões" pincela o palato com uma acidez salivante e sabores puros e alegres; e a "Salada de peixe com velouté de camarão e pitaya" é tão fresca quanto surpreendente, conciliando vegetalidade com maresia de maneira muito equilibrada e saborosa. 

Diana RestaurantNos peixes "O bacalhau à casa com camarão e batata a murro" enche a sala com uma brisa marítima, untuosidade e harmonia. A generosa "Posta do Barroso"  possuía uma textura incrível e estava muito saborosa, harmoniosa e rica (o suco que brotava incessantemente do seu interior era delicioso). É um prato de conforto em que o foco está todo na qualidade do produto, para ser apreciado devagar, com atenção e dialogando com um vinho com boa madeira, frescura e fruta madura como o Brites Aguiar Tinto 2017

Diana RestaurantNas sobremesas e apesar da "Pannacotta com frutos vermelhos" estar confecionado conforme as melhores práticas da região italiana do Piemonte, carregado de acidez, delicadeza, sabor e uma textura perfeita, o destaque vai todo para o "Fondant à Diana com gelado de baunilha". Assente no sabor da abóbora, a confecção estava irrepreensível, os sabores transportavam muita intensidade, delicadeza e uma boa dose de soberba. A apresentação é a que a foto comprova: bom gosto, finesse e alegria. 

Diana RestaurantEsta foi uma noite surpreendente, daquelas que anseio quando visito um espaço desconhecido. Sei que não vai ganhar uma estrela Michelin, também não é para isso que está aberto, mas é uma vergonha (não, o André Ventura não se apoderou de mim .P) que não tenha lugar de destaque nos principais guias gastronómicos nacionais (eu faço disto um hobby, há quem faça da critica gastronómica profissão).  Foi, sem margem para dúvidas, a melhor refeição que tive em Braga!!!

Diana RestaurantVoltei, mais tarde, já com esta publicação quase pronta, algumas vezes ao Diana Restaurant. Duas delas ao almoço com um menu executivo (composto por entrada, prato principal, sobremesa, bebida e café, por um preço indecentemente baixo: 10 euros) nas quais desfrutei numa vez de uns belos  secretos de porco preto grelhados e de outra de um cachaço de porco confitado. Na terceira ocasião, ao jantar, o fondat voltou a "sair" irrepreensível. A harmonia na confecção, nos sabores e no serviço manteve-se em todas estas refeições, provando que a excelência é um acto que se pratica diariamente... Parabéns a todos: ao Fernando, à esposa Irene e à filha ... Diana por tamanha qualidade a tão baixo preço... Que bela homenagem às duas Dianas, a da mitologia e a da genealogia!!! :P