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No meu Palato

No meu Palato

Quinta do Noval | O súbito espanto de uma nova primeira vez

"O mistério gera curiosidade e a curiosidade é a base do desejo humano para compreender." Neil Armstrong

Quinta do Noval Afinal o que torna algo verdadeiramente "grande" (no sentido americano da palavra) e que o leva a ser o cume qualitativo de um determinado sector? Como noutras perguntas que aqui já vos deixei, as respostas mais reveladores chegam-nos da filosofia. Aristóteles defendia que essa grandeza advinha de uma prática quotidiana de diferentes virtudes. Kant acreditava que para alcançar esse pináculo muito superior de reconhecimento seriam necessárias regras éticas tão rigorosas que nenhum mortal as seria capaz de cumprir. 

Quinta do Noval O utilitarismo de Bentham relaciona esse símbolo inquestionável da qualidade mais alta com a felicidade. Marx postulou que a grandeza mais importante de todas, a colectiva, seria assente na soma das grandezas individuais, sem individualismo. Os liberais "moderninhos" (muito na moda hoje em dia :P) não dissociam essa grandeza comum da liberdade pessoal e do lucro. Essas diferenças filosóficas, culturais e políticas, realçam o facto, mais ou menos evidente, de que a grandeza de algo parece ter o tamanho dos horizontes a que se propõe.

Quinta do Noval Antes de podermos responder com maior certeza à pergunta com que iniciei esta publicação, convém restringir alguns parâmetros. Se estivermos a falar da nossa grandeza enquanto indivíduos, quem deverá avaliar essa grandeza? Nós ou os outros? E se estivermos a falar de algo inanimado como um objecto, uma empresa ou uma ideologia? Será possível definirmos critérios que avaliam eficazmente a sua grandeza? 

Quinta do Noval Atentemos ao mito de Narciso e de Eco, que na minha modesta opinião se deveria intitular "Como perderes a tua grandeza" ;)  Eco era uma ninfa que habitava e protegia as montanhas, as cavernas e as grutas. Esta ninfa era reconhecida pelo seu encanto, juventude e beleza, ficando também famosa por ter acompanhado a deusa Hera quando esta se casou com o todo poderoso Zeus.

Quinta do Noval Zeus incumbiu Eco de distrair a atenção de Hera, com conversas e cantos, sempre que este se ausentava nas suas aventuras erótico-amorosas, com outras deusas e algumas mortais. Assim que descobriu esta artimanha, Hera castigou Eco, retirando-lhe a voz e fazendo-a repetir sempre a última sílaba das palavras que eram proferidas na sua presença. 

Quinta do Noval Certo dia enquanto Eco passeava por uma floresta encontrou o jovem Narciso enquanto ele caçava, apaixonando-se imediatamente pela sua beleza. Sem voz própria, Eco não conseguiu chamar por Narciso. No entanto, o jovem caçador teve a sensação de estar a ser observado, levando-o a perguntar: "quem está aí?" Eco apenas podia responder "aí". (Já agora, foi por isto que um eco se passou a chamar eco!!!)

Quinta do Noval Após mais algumas tentativas de comunicação falhadas, Eco acaba por deixar o seu esconderijo, ficando cara a cara com Narciso. Narciso como era incapaz de amar outras pessoas, rejeitou cruelmente Eco, levando a que esta se refugiasse nas florestas da montanha, deixando para trás apenas restos da sua voz.

Quinta do Noval Nêmesis, a deusa grega da Retribuição, que assistiu a esta e a outras rejeições de Narciso, resolveu intervir fazendo com que o belo rapaz se apaixonasse por si próprio. Certa tarde, enquanto caçava, Narciso encontrou um lago no qual poderia saciar a sua sede. Foi este o momento que Nêmesis escolheu para lançar o seu "feitiço". Ao inclinar-se para beber, o jovem caçador deparou-se com o seu próprio reflexo, apaixonando-se imediatamente pela sua imagem. Paradoxalmente, a única pessoa por quem se apaixonou era também aquela que jamais poderia ter: ele próprio. Desta forma, e tal como havia acontecido com tantas outras pretendentes do belo rapaz, o amor Narciso fora também rejeitado.

Quinta do Noval Face a este destino cruel, Narciso morre nas margens do lago, infeliz e auto-apaixonado, isto apesar das súplicas e propostas de amor eterno por parte de outras ninfas. Alguns dias depois, ao perceberem que Narciso havia morrido, essas ninfas vão procurar um caixão onde pudessem colocar o seu corpo. Quando regressam às margens do lago, repararam que a única coisa que lá restava era uma flor, a flor de Narciso.

Quinta do Noval Esta flor absorveu algumas das características do belo Narciso: a de ter seu eixo inclinado para baixo (como que a beber e a contemplar a sua beleza) e a de crescer perto de locais com água (o que a deixa à mercê do seu reflexo). A flor de Narciso, desde então, simboliza o egoísmo, o amor frívolo e uma lição: a de que o que torna algo verdadeiramente grandioso é a capacidade de engrandecer tudo o que se encontra em seu redor, em detrimento do auto-engrandecimento. 

Quinta do Noval É devido a esta lição dada por uma flor que, se analisarmos o mito com detalhe, percebemos que os grandes líderes do nosso mundo não foram aqueles que tomaram, necessariamente, as maiores decisões, as mais populares ou as mais reconhecidas (olá Winston Churchill), ou que as maiores invenções da história não sejam o iPhone, o Tesla, os robots, ou outra coisa necessariamente cara (olá habitante anónimo da Mesopotâmia que inventou roda). 

Quinta do Noval É também por isto que autores, poetas, músicos, artistas, políticos e bloggers (:P) sempre souberam que uma pessoa verdadeiramente grande é aquela que torna ainda maior aquilo que se encontra ao seu redor. O que talvez vocês não saibam é que esta bitola avaliadora de grandeza, também pode, e deve, ser usada para medir os vinhos.

Quinta do Noval Já todos nos deparamos com aquela frase lapalissada “os grandes vinhos fazem-se vinha”, o que aprendi na última visita à Quinta do Noval é que apesar de certa, esta afirmação está também incompleta. Para a completar acho que seria útil  enquadrarmos-la não só no mito de Eco e de Narciso, como também enevoarmos-la com algum mistério, característico dos terroirs grandiosos.  

Quinta do Noval Na última vez que estive na Quinta do Noval, disse-vos que um dia destes vestia minha capa de Vespúcio Ortigão e iria procurar resolver o mistério da estrada de Mendiz, em pleno local onde decorrem estranhos acontecimentos que fazem dos vinhos da Quinta do Noval, principalmente os Porto, os mais grandiosos deste país. Mais tarde perceberão que o "principalmente" da frase anterior é injusto.

Quinta do Noval Visitei a Quinta do Noval, desta vez em família, no inicio das vindimas do ano passado, e percebi que a grandiosidade das suas vinhas, passava quase como por osmose, para aquilo que as rodeava: para as uvas, para os vinhos e para as pessoas. Esta contaminação qualitativa não cessa, nem com mudança de proprietários nem com desgraças. Senão vejamos, esta quinta foi inicialmente propriedade, durante mais de um século, da família Rebello Valente que a recebeu do Marquês do Pombal em meados do século XVIII. No começo do século XIX um acordo matrimonial, passa as terras ao Visconde Villar d’’Allen, um bon vivant e que ficaria conhecido na história por ter trazido memoráveis festas à Quinta do Noval. 

Quinta do Noval Entretanto, no final do século XIX o Douro é atacado pela filoxera. Com a rentabilidade da quinta posta em causa pela praga, a Noval é então colocada à venda. Em 1894 é adquirida pelo por António José da Silva, um distinto comerciante de Vila Nova de Gaia e produtor de vinho do Porto. António da Silva revitalizou a Quinta do Noval, replantando as vinhas e renovando as adegas.

Quinta do Noval Ao contrário de quase todas as outras casas produtoras de Porto (que usaram porta-enxertos americanos), na Noval a filoxera foi controlada através de fumigação intensa, mantendo as vinhas, desta forma, o seu "pé franco".

Quinta do Noval Luiz Vasconcelos Porto, genro de António da Silva e que geriu a quinta nos 30 anos seguintes, foi o autor de um vasto conjunto de inovações, transformou os antigos e estreitos socalcos em socalcos mais largos e com as escadas caiadas de branco, uma característica distintiva da Noval. Estes socalcos permitem uma utilização mais eficiente do solo e uma melhor exposição solar das vinhas, tendo na altura sido considerados revolucionários.  

Quinta do Noval Com a reforma de Luiz Vasconcelos Porto, a Noval passa para os netos Fernando e Luiz Van Zeller que a têm de reconstruir após um incêndio catastrófico ocorrido em 1981, mantendo a quinta na família até Maio de 1993, ano em que é vendida ao grupo AXA. Apesar de todas estas pragas, incêndios e trocas sucessivas de proprietários, a Noval consegue manter uma espinha dorsal de valores que a vão engrandecendo: o compromisso com a excelência, a evolução ponderada assente na inovação e no respeito pela história da quinta e a compreensão de todo este legado histórico não como uma garantia de sucesso mas sim como uma responsabilidade que, por vezes, cria oportunidades. 

Quinta do Noval Esta relação entre adversidade, resiliência e oportunidade para crescimento é particularmente feliz no ano de 1931.  Nesse ano, devido não só à enorme produção do Vintage de 1927 como também à recessão, a maioria dos produtores de Porto acabam por não declarar Vintage. A Noval, vinculada aos valores anteriormente referidos, arrisca a declaração (apenas mais duas casas o fizeram)... 

Quinta do Noval O resultado desta capacidade de arriscar/acreditar são 2 vinhos do Porto que mais sensação causaram durante o século XX: o Quinta do Noval Porto Vintage Nacional 1931 e o Quinta do Noval Porto Vintage 1931.  O sucesso, reputação e grandeza atingidos por estes vinhos estabeleceram a Quinta do Noval entre os grandes nomes do vinho do Porto Vintage nos mercados Inglês e norte-americanos, uma posição de liderança em termos de reputação, que ainda hoje mantém.

Quinta do Noval A grandeza dos Vintage Noval acaba por contaminar outros Portos que se encontravam a seu lado: os Old Tawnies com a indicação de idade (10,20 e 40 anos), os colheita de um ano particular,  os Porto Late Bottled Vintage (a Noval foi a primeira casa a lançar um LBV em 1958: o LBV 1954), e os Noval LBV Unfiltered (produzidos inteiramente a partir de uvas da Quinta e pisadas a pé em lagar, à semelhança dos Vinhos do Porto Vintage e que nada ficam a dever a alguns Porto Vintage de outras casas).

Quinta do Noval  Seguiu-se um novo contágio de grandeza, agora entre os Porto e os vinhos tranquilos, brancos e tintos, suportado nos 100 hectares de nova vinha que a Noval tem vindo a replantar desde 1994. Estas novas parcelas foram replantadas, deixando de lado o misticismos da vinha velha com mistura de castas (em boa verdade, com a tecnologia dos dias de hoje, o motivo preventivo deste tipo de cultivo deixou de existir). 

Quinta do Noval Assim, cada vinha é plantada com uma casta única adequada ao seu respectivo terroir segundo três critérios principais: a altitude, a exposição solar e o tipo de plantação aplicável, permitindo "sacar" o melhor de cada casta (a solo ou em blend). Aquando desta ultima visita apercebi-me que está a ocorrer actualmente um outro processo osmótico de grandiosidade, bem evidente, entre os vinhos da Noval e os vinhos produzidos noutras Quintas, entretanto adquiridas pela Noval. É sobre alguns vinhos que "personificam" estas transições de grandiosidade que vos falo hoje. ;)

Quinta do Noval Começo pelo refrescante Noval Extra Dry White Porto (12.00 €, 89 pts.). De traje amarelo-cítrico um pouco carregado, exibe um  nariz com  damasco, anis e flores brancas. Na boca é elegante, equilibrado e fresco. Vai muito bem com amêndoas do Douro salgadas e num descomplicado Porto tónico.

Quinta do Noval O amarelo-pálido Passadouro branco 2020 (10.00 €, 88 pts.) está cheio de acácia-lima,  pêssego, toranja, e alguma pedregosidade. Na boca revela uma acidez mordaz, elegância e intensidade. É um vinho muito honesto e com algumas arestas.

Quinta do Noval

Continuo a achar o Cedro do Noval Branco 2020 (14.50 €, 91 pts.) a melhor edição deste vinho. De cor dourada clara e cristalina exibe aromas complexos a pêssego, anis, toranja, limonete, flores brancas, baunilha e uma ligeira pedregosidade. No palato tem bom volume, excelente acidez, equilíbrio e uma ligeira untuosidade que lhe fica muito bem.

Quinta do Noval Nos monocastas reencontrei a primeira edição de dois grandes tintos. O Quinta do Noval Sirah 2016 (29.90 €, 92 pts.) exibe no nariz uma cereja muito delicada, pimenta preta, notas minerais (xisto partido), café, cacau e cassis.  Aparecem já umas ligeiras notas de evolução como a trufa e o coco. Tem um palato fresco, longo e equilibrado. 

Quinta do Noval Por sua vez, o Quinta do Noval Petit Verdot 2016 (29.90 €, 93 pts.), de traje rubi denso, brinda-nos com um nariz extravagantemente complexo e fresco com mirtilos, amoras, notas balsâmicas (cedro), ligeiro fumo e suaves aromas amadeirados. Na boca está sustentado pelos taninos redondos, é intenso, estruturado e elegante. 

Quinta do Noval Mudámos para os Portos e também de Quinta. O Silval Vintage 2015 (40.90 €, 92 pts.), vinificado nos lagares da Noval, oferece uma excelente relação qualidade/preço. De porte rubi muito escuro, quase opaco,  tem uma concentração de fruta (mirtilos, amoras e cereja maduras) impressionante e na boca é muito equilibrado, elegante, directo e com taninos sedodos.  

Quinta do Noval Saltando para a Liga dos Campeões, no que aos Porto diz respeito, começo pelo Quinta do Noval Colheita 2000 (50.00 €, 94 pts.). De cor âmbar-tawny exibe um nariz muito delicado, denso e complexo com nozes, figos secos, uvas passas, pimenta preta e casca de laranja. Na boca passeia-se encorpado com taninos sedosos e um final de boca longo e suculento. 

Quinta do Noval O Quinta do Noval Vintage 2003 (150.00 €, 97+ pts.) está na altura ideal para ser desfrutado. No copo ainda se apresenta com uma cor jovem e densa, quase violeta, denunciando ligeiramente a sua idade apenas na auréola. No nariz exibe ameixa seca, alcaçuz, café, chocolate preto, tinta da China, esteva, resina e tabaco. Na boca é fresco, longo e equilibrado, mostrando também uns taninos super elegantes. Provei há uns tempos o seu irmão, o Noval Vintage Nacional 2003, apesar de bastante diferentes mostram ambos a excelência do local donde vêm. 

Quinta do Noval Ainda houve tempo para visitar a nova loja da Noval no Pinhão. Um antigo armazém de vinho do Porto que se transformou num lugar de descoberta, de partilha e sobretudo de prova. Lá podem encontrar uma gama completa de vinhos da Quinta do Noval e de artigos relacionados com o vinho e com a quinta. Há ainda um pequeno "museu" interactivo onde através de algumas tecnologias é possível descobrir o terroir e o caráter único das vinhas da Quinta do Noval. Sigam o meu conselho e experimentem a prova de Portos com Chocolate, não se vão arrepender!!!! ;) 

Quinta do Noval Tinha muitas mais coisas para contar, mas a publicação já vai longa, ficam para uma outra oportunidade. Esta visita fez com que a minha curiosidade sobre o que verdadeiramente faz a grandeza dos vinhos da Noval se transformasse na compreensão de que essa excelência advém não só da complexidade e profundidade dos seus vinhos mas também da verdade lapalissada de que para que as vinhas possam fazer grandes vinhos, necessitam de quem perceba a sua história e a carregue até ao próximo vinho, até à próxima quinta, até ao próximo proprietário. Ali memória e identidade rimam com história e responsabilidade. Para mim é este o segredo na Noval.

Obrigado Ana e Patrícia (que para a Bia passaram a ser as meninas que fazem vinho ;)) por estes dois dias fantásticos, sois grandes... ;)

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